‘Score’ de imunidade: procura por teste que mostra anticorpos pós-vacina cresce até 80%

coronavírus
06.06.2021, 11:00:00
(Imagem: Shutterstock)

‘Score’ de imunidade: procura por teste que mostra anticorpos pós-vacina cresce até 80%

Especialistas alertam que testagem sorológica é incapaz de garantir se a vacina funcionou ou não; afinal, vale a pena fazer o exame?

Depois do medo de se contaminar, o sonho de ser imunizada, finalmente, se realizou. A aposentada Norma*, 68 anos, estava vacinada contra a covid-19. Protegida pela vacina e com viagem marcada para o feriadão de Corpus Christi, foi a sua médica quem sugeriu que ela fizesse a testagem de anticorpos, já que viajaria para fora do estado. Exame feito. Até que o resultado gerou uma desconfiança tanto quanto à eficácia da vacina, quanto à exatidão da análise: “Tomei duas doses da Coronavac. Na última semana, por segurança, fiz o exame de Sorologia para covid e o resultado deu não reagente para anticorpos. Fiquei decepcionada e insegura. Desisti da viagem, cheguei a questionar o resultado junto ao laboratório. Será que o vírus ainda é uma grande ameaça para mim?”

Assim como Norma*, com a expansão da vacinação, mesmo que a passos lentos, muita gente tem buscado testes sorológicos que medem anticorpos na tentativa de checar se estão realmente protegidos contra a covid-19. Em laboratórios como o Sabin, por exemplo, na comparação entre os meses de abril e maio, a busca por métodos que apontam a presença de anticorpos neutralizantes (aqueles capazes de bloquear a interação do vírus no sistema imunológico) cresceu 80%. Já na rede DNA, até o momento, o aumento foi de 30%.  

Em sete unidades de análises clínicas que o CORREIO entrou em contato e que disponibilizam os testes Anticorpos Neutralizantes e o Anticorpos IgG, a média de preço varia de R$ 140 a R$ 300, a depender do exame, e pode ser parcelado de três a até 12 vezes. O resultado dos testes realizados em amostras sanguíneas sai em de dois a seis dias. Redes de farmácias como a Pegue Menos também já disponibilizam a testagem rápida de anticorpos neutralizantes em 10 cidades, entre elas, Salvador. O resultado sai em 10 minutos e o valor é de R$ 139. Apesar de confirmarem o crescimento na procura, os laboratórios reconhecem que toda e qualquer necessidade de fazer o exame deve ser avaliada e recomendada por um médico.  

Mas será que a resposta da imunização está mesmo nesses exames? A diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Mônica Levi, destaca que não há necessidade de fazer a testagem sorológica pós-vacinação. “Todas as vacinas que são aplicadas no Brasil mostram dados suficientes de eficácia de segurança. Nesse momento, o que nós temos visto é que o exame pode gerar muito mais interpretações erradas do que a segurança que as pessoas visam buscar. Há uma gama de testes de eficácias, objetivos diferentes e nenhum deles contempla toda a complexidade da imunidade depois da covid, nem traduzem a situação individual de imunização”, explica. Ou seja, são testes que só analisam uma parte do todo diante de uma variedade de moléculas capazes de defender o nosso corpo.

“Existe a imunidade nata, em que você tem uma resposta que é mais eficaz em algumas pessoas do que em outras. Porém, o ser humano conta com um mecanismo de imunidade celular que pode ser muito efetivo protegendo a pessoa contra a doença e isso não é medido por testes sorológicos”, esclarece.  

Pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Rede CoVida, Viviane Boaventura concorda que a corrida para fazer esse tipo de testagem não deve ser uma preocupação de quem se vacinou. Um resultado negativo não significa que aquela pessoa está menos protegida. “O teste pode não ser adequado para detectar anticorpos produzidos em resposta aos componentes da vacina. Da mesma forma, um exame negativo não irá excluir a possibilidade de estar imunizado. Não é apenas a dosagem de anticorpos que conta”, explica.  

Score
No caso do biólogo Maurício Freitas, de 49 anos, o fato de trabalhar em um hospital de tratamento para pacientes com covid o levou a fazer a testagem logo depois da segunda dose da Coronavac. O teste indicou a produção de anticorpos neutralizantes acima do valor de corte para positividade. O resultado gerou comparação com outros conhecidos vacinados: “Meus colegas de trabalho e outros amigos da área de saúde que tomaram imunizantes diferentes tiveram resultados satisfatórios em relação à produção de anticorpos neutralizantes, inclusive, com dobro de valor no resultado. Mas para mim, o que importa é estar vacinado, independente de qual vacina a pessoa tomou”.

O psicoterapeuta Jordan Campos, 42, tomou conhecimento da testagem de anticorpos neutralizantes através de blogs e sites sobre coronavírus. Antes da vacina, ele desenvolveu a forma grave da infecção e permaneceu internado em uma UTI durante nove dias.

“Gastei cerca de R$ 300 e decidi fazer porque eu queria estar mais seguro em relação aos anticorpos IgG que eu já tinha. Fiquei realmente bem mais aliviado quando vi ali um score de anticorpos acima de 400, depois da primeira dose da Astrazeneca”, relata. 

No geral, os testes sorológicos são feitos para estudos que identificam a prevalência de infecção na população. Eles podem ser solicitados também para diagnóstico de covid-19 quando os sinais se iniciaram há mais de uma semana e não foi feito o exame PCR (teste molecular realizado entre 3 e 5 dias após o início dos sintomas). Nesse caso, a única maneira de comprovar diagnóstico é com a sorologia. 

Amostras de testes de covid-19 no Lacen-BA (Foto: Paula Froes/Arquivo CORREIO)

Em março, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) divulgou uma nota técnica sobre os testes que avaliam a efetividade das vacinas e a proteção contra o coronavírus. No documento, o órgão esclareceu que não existe definição da quantidade mínima de anticorpos neutralizantes necessários para conferir proteção imunológica contra infecção, reinfecção, formas graves da doença e novas variantes. Além disso, acrescentou que os produtos para diagnóstico aprovados pela agência para detecção de anticorpos neutralizantes não determinam proteção vacinal.

Na teoria, os testes sorológicos indicam a presença de anticorpos contra as diferentes proteínas existentes no novo coronavírus, porém, não são capazes de dar nota para uma capacidade de imunidade relacionada à covid.  O presidente da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC/ML), Carlos Eduardo Ferreira é mais um que reforça que a testagem após a vacina é desnecessária. Ele explica, inclusive, como os exames sorológicos funcionam:  

“Basicamente, as proteínas se dividem em duas: a proteína N (nucleocapsídeo) e a proteína S (espícula). A proteína S é a que se liga à célula para entrar nela e se reproduzir. A partir do momento que existe um anticorpo que se liga a esta proteína S, o vírus é bloqueado e não entra na célula. A proteína S é o substrato mais utilizado nas vacinas e, por isso, são os anticorpos que agem contra esta proteína, que os testes pós-vacinais tentam buscar. Mas existem outras formas de defesa contra o vírus. Estamos aguardando mais evidências”, ressalta Ferreira. 

Proteção em massa 
Enquanto a pandemia não estiver controlada e grande parte da população imunizada, existe uma proteção efetiva contra o coronavírus? A resposta vem de um estudo recente feito no município paulista de Serrana por pesquisadores do Instituto Butantan. De acordo com a análise feita pelos cientistas, com 75% de vacinados, a pandemia no país pode ser controlada.  Em abril, Serrana já apresentava uma queda expressiva na incidência da covid-19. De 699 casos no mês anterior, esse número reduziu para 251 e, além disso, as mortes passaram de 20 para 6, no mesmo período. A cidade de 45 mil habitantes foi escolhida pelo alto índice de contágio. Quase toda a população adulta recebeu duas doses de Coronavac. 

Para a diretora da SBIm, o estudo reflete que é possível reverter a situação epidemiológica, desde que haja um avanço na campanha de vacinação e que todos continuem tomando todas as medidas protetivas como o uso de máscaras, higienização das mãos, isolamento quando possível e o distanciamento social. “Esse é o principal desfecho que queremos: evitar internações graves e morte a vacinação em massa mostrou esses dados pra gente na vida real”, diz Mônica. 

Dados da última sexta junto a secretarias de Saúde apontam que 22,53% das pessoas tomaram a primeira dose, segundo o consórcio de veículos de imprensa. Já a segunda dose foi aplicada em 10,74% da população.  Até o início da noite de sexta, o Painel de Vacinação do Ministério da Saúde registrava mais de 68 milhões de doses aplicadas no país. A Bahia ocupa a 4ª posição no ranking de estados com cerca de 4,5 milhões de vacinados.

A maioria dos vacinados recebeu o imunizante Coronavac (2,6 milhões), seguido da AstraZeneca (1,8 milhão) e Pfizer (137 mil). Já em Salvador, até às 18h de sexta-feira eram 1,17 milhão de vacinados na capital, que a partir do sábado (5) vacinaria exclusivamente pessoas com 55 anos ou mais. A imunização dos outros públicos prioritários segue na segunda-feira (7). 

Não existe uma vacina melhor que a outra, mas, sim, organismos diferentes que vão reagir a esses imunizantes de acordo com a eficácia de cada um deles. Os pesquisadores ainda buscam identificar quanto tempo a vacina terá efeito em nosso corpo. Existem dúvidas, sobretudo, se todas se as vacinas disponíveis são capazes de combater as novas versões do coronavírus. O teste de anticorpos pode ser dispensável, mas a segunda dose da vacina não, como ressalta Mônica: “É imprescindível que se faça essa segunda dose para ter a proteção máxima que vacina possa oferecer”.

*Nome fictício, já que a personagem pediu para não ser identificada pela reportagem.

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TIRA-DÚVIDAS: O QUE É IMPORTANTE SABER SOBRE A TESTAGEM DE ANTICORPOS

  • Com relação às vacinas contra a covid aplicadas no Brasil, qual a capacidade de imunização de cada uma?  

Todas as vacinas foram licenciadas por mostrar dados suficientes de eficácia de segurança, como explica a diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Mônica Levi. “A Coronavac demonstrou uma eficácia de 50,7% em prevenir qualquer infecção que tenha sintoma e durante a imunização já alcançou uma alta proteção contra casos graves e morte. A Pfizer possui uma eficácia de 95%, em prevenir casos confirmados de covid e a AstraZeneca mostrou eficácia de 62% a 90%, após duas doses para covid sintomática”.  

  • Afinal, é preciso se testar após a vacina?

Pesquisas estão sendo desenvolvidas para verificar se vai existir essa obrigação. No momento, especialistas em patologia clínica e imunização apontam que a testagem de anticorpos não é necessária.   

  • O que é importante esclarecer, sobretudo, para quem está correndo para os laboratórios em busca desses testes depois de imunizado?   

A diretora da SBIm reforça que a corrida para a realização desse tipo de testagem pode gerar uma falsa sensação de segurança quando dá positivo e uma frustração de achar que a vacina não funcionou para um resultado negativo, quando nenhum teste sorológico foi desenvolvido no sentido de avaliar a imunidade pós-vacina contra covid. “A gente tem outros setores do sistema imunológico que funcionam na proteção que não são identificadas por essa testagem. Por todos esses motivos, nós desconsideramos a efetividade de se fazer testes depois da vacinação. O que reconhecemos é que que a pessoa deve ter adquirido o máximo possível da proteção conferida por cada uma das vacinas, duas semanas depois da segunda dose”, destaca Mônica.  

  • Como o nosso corpo reage ao vírus?  

Quem esclarece essa dúvida é a pesquisadora da Fiocruz e da Rede Covida, Viviane Boaventura. Tudo depende do tipo de vacina e da resposta de cada indivíduo. “Há dois componentes do sistema imune importantes para serem avaliados. Um, é a resposta humoral (que inclui dosagem de anticorpos) e outro, a celular. Os testes disponíveis avaliam apenas uma parte dessa resposta”, diz.  

  • É verdade que quando o resultado mostra 'pouco' ou 'nenhum' anticorpo, quer dizer que a vacina não funcionou ou que a proteção é insuficiente?  

Não se sabe ainda se há um nível de anticorpo a partir do qual seja garantida a proteção. Um exame negativo não quer dizer que não houve imunização. “O teste pode não ser o mais recomendado para identificar anticorpos produzidos em resposta aos componentes da vacina e, além disso, não avalia a resposta imune celular, componente importante contra infecções virais”, complementa Viviane.  

  • Que cuidados precisam ser mantidos mesmo após estar vacinado?   

Além das medidas principais de proteção como o uso correto de uma máscara segura, higienização das mãos e distanciamento social, Mônica acrescenta a importância de não deixar de tomar a segunda dose do imunizante. “É uma atitude imprescindível para ter a proteção máxima que vacina possa oferecer. Continue usando as medidas preventivas, tanto para colaborar com a redução da circulação e do vírus, como para aumentar o grau de proteção individual”, enfatiza a especialista.

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