Secretário de Cultura do governo Bolsonaro cita fala de ideólogo nazista

brasil
17.01.2020, 09:10:00
Atualizado: 17.01.2020, 16:06:02
(Reprodução)

Secretário de Cultura do governo Bolsonaro cita fala de ideólogo nazista

Roberto Alvim citou textualmente trechos de um discurso do ideólogo nazista Joseph Goebbels

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Em vídeo em que anuncia o Prêmio Nacional das Artes, o secretário de Cultura, Roberto Alvim, ao som de Richard Wagner, cita textualmente trechos de um discurso do ideólogo nazista Joseph Goebbels.

“A arte brasileira da próxima década será heróica e será nacional. Será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperava, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes de nosso povo, ou então não será nada”, diz Alvim no vídeo.

“A arte alemã da próxima década será heróica, será ferreamente românca, será objeva e livre de senmentalismo, será nacional com grande páthos e igualmente imperava e vinculante, ou então não será nada”, disse Goebbels em pronunciamento para diretores de teatro, de acordo com o livro Goebbels: a Biography, de Peter Longerich.

O texto lido por Alvim em tom solene e pausado é bem mais longo, com outros trechos claramente inspirados pela ideia copiada de Goebbels. A peça de Wagner escolhida por secretário é um trecho da ópera Lohengrin que Hitler disse sua autobiografia ter tido importância capital em sua vida.

Em sua longa fala, Alvim diz que a cultura sob Bolsonaro terá inspiração nacional, religiosa. “Trata-se de um marco histórico nas artes brasileiras”, diz ele, sobre o prêmio. “2020 será o ano de uma virada histórica. 2020 será o ano do renascimento da arte e da cultura do Brasil”, encerra.

'Coincidência retórica'
Após a repercussão negativa da sua fala, Alvim, fez uma nota de esclarecimento em sua conta no Facebook acerca do discurso. Ele disse que a "esquerda" está fazendo uma "falácia de associação remota" entre sua fala e o ideólogo do nazismo. Omite o fato de que recebeu críticas de seu guru, Olavo de Carvalho, e de outros expoentes da ala olavista da cultura.

"Com uma coincidência retórica em UMA frase sobre nacionalismo em arte, estão tentando desacreditar todo o PRÊMIO NACIONAL DAS ARTES, que vai redefinir a Cultura brasileira… É típico dessa corja", escreve Roberto Alvim em seu post.

"Repito: foi apenas uma frase do meu discurso na qual havia uma coincidência retórica. Eu não citei ninguém. E o trecho fala de uma arte heroica e profundamente vinculada às aspirações do povo brasileiro. Não há nada de errado com a frase. Todo o discurso foi baseado num ideal nacionalista para a Arte brasileira, e houve uma coincidência com UMA frase de um discurso de Goebbels… Não o citei e JAMAIS o faria", afirmou.

No final da mensagem, porém, o secretário elogia a ideia de Goebbels: "mas a frase em si é perfeita: heroísmo e aspirações do povo é o que queremos ver na Arte nacional".

Prêmio
A Secretaria Especial de Cultura anunciou nesta quinta-feira, 16, o Prêmio Nacional das Artes, um novo projeto de patrocínio direto de obras de arte no Brasil. São sete categorias e, no total, R$ 20 milhões. Um edital deve ser publicado ainda em janeiro, segundo a Secretaria, e a seleção dos projetos será feita por comissões formadas apenas para isso

De acordo com a secretaria, cada comissão terá cinco integrantes, sendo dois servidores da Secretaria e três representantes da sociedade civil "com notório saber nas respectivas áreas" - a Secretaria não informou os critérios.

Nesta quinta-feira, 16, o presidente Jair Bolsonaro e o secretário especial da Cultura Roberto Alvim participaram de uma live no Facebook para falar do programa. Ali, Alvim indicou que a escolha das obras seguirá princípios ideológicos. "Todo edital de patrocínio pressupõe uma curadoria. Existe uma escolha, um recorte curatorial que seleciona os filmes que são adequados segundo aquela comissão. Nada mais do que isso, não é censura, é curadoria."

Alvim também prometeu lançar outro edital para o cinema entre fevereiro e março, que terá categorias destinadas a histórias da independência do Brasil e sobre figuras históricas brasileiras. "Estamos tentando criar um cinema sadio, alinhado a essa ideia do conservadorismo em arte", disse o secretário.

Sobre o Prêmio, o secretário afirmou que a mesma quantidade de verbas será destinada para todas as regiões do País. "O melhor disso tudo é que vamos oferecer essas obras de arte de alta qualidade para população com total acessibilidade. Metade dos ingressos serão gratuitas, livros distribuídos de maneira gratuita. Vamos oferecer isso e dar oportunidades para novos artistas."

Os resultados do Prêmio Nacional das Artes devem ser divulgados em abril e os prêmios serão pagos em maio deste ano.

Em suas sete categorias, o Prêmio irá selecionar cinco óperas, 25 espetáculos teatrais, 25 exposições individuais de pintura e 25 de escultura, 25 contos inéditos de literatura, 25 discos musicais originais e 15 propostas de histórias em quadrinhos.

A distribuição do dinheiro será feita da seguinte maneira, sempre segundo o comunicado da Secretaria:

Cinco óperas de compositores brasileiros

1 por região do Brasil

Valor: R$ 1,1 milhão cada

Total a ser investido: R$ 5,5 milhões

25 espetáculos teatrais

5 por região do Brasil

Valor: R$ 250 mil cada

Total a ser investido: R$ 6,250 milhões

25 exposições individuais de pintura

5 por região do Brasil

Valor: R$ 100 mil cada

Total a ser investido: R$ 2,5 milhões

25 exposições individuais de escultura

5 por região do Brasil

Valor: R$ 100 mil cada

Total a ser investido: R$ 2,5 milhões

25 contos inéditos (literatura)

5 por região do Brasil

Valor: R$ 25 mil cada

Total a ser investido: R$ 625 mil

25 compositores (música)

5 por região do Brasil

Valor: R$ 100 mil cada

Total a ser investido: R$ 2,5 milhões

15 histórias em quadrinhos

Três por região do Brasil

Valor: R$ 50 mil cada

Total a ser investido: R$ 750 mil
 

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