Sem dinheiro, CNPq aprova 61 pesquisadores da Ufba, mas não financia projetos

bahia
27.09.2020, 07:00:00
(Professores da Ufba, como Favízia, Victor e Daniele, foram aprovados por mérito pelo CNPq, na seleção para bolsistas de produtividade (Fotos: Nara Gentil/CORREIO; Acervo pessoal; Arisson Marinho/CORREIO))

Sem dinheiro, CNPq aprova 61 pesquisadores da Ufba, mas não financia projetos

Conheça sete dos pesquisadores aprovados 'por mérito' na última chamada, mas barrados na hora de se tornar bolsistas de produtividade

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Farmacologia, ciência da computação, comunicação, história, artes, química, física, museologia, biologia. Essas são apenas algumas das áreas de atuação de cientistas da Universidade Federal da Bahia (Ufba) que tiveram pesquisas aprovadas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), no ano passado, mas não receberam nenhum tostão de financiamento. 

Todas eram de pesquisadoras e pesquisadores que poderiam entre os chamados bolsistas de produtividade em pesquisa - ou simplesmente PQ -, de acordo com a avaliação da própria agência federal. Fazer parte desse grupo de cientistas significa ter recebido o reconhecimento de excelência por colegas da mesma área. 

Em junho, o CORREIO publicou o especial Cérebros da Ufba, que trouxe 21 reportagens sobre os chamados pesquisadores 1A do CNPq. A classificação 1A é a mais alta dos bolsistas de produtividade. Para chegar a ela - numa escala que começa no 2 e passa, ainda, pelo 1D, 1C e 1B -, a maioria das pessoas percorre cada degrau. 

Só que, a cada ano, essa mobilidade fica difícil. O número de auxílios não cresce, ainda que a quantidade de pessoas fazendo pesquisa nas universidades só aumente. De fato, é difícil ser ‘promovido’ a 1A e o próprio número de pesquisadores nessa classificação reforça isso: atualmente, apenas 16 na Ufba, diante de 209, se forem somados todos os níveis. Mas para que isso mude, o universo também deve ser maior.

Gênero e raça
A elite da pesquisa da Ufba poderia ser mais diversa, inclusive, em aspectos de gênero e raça - até porque, na prática, ela já é. Entre tantos pesquisadores, muitos já têm uma produtividade que deveria garantir que estivessem entre os bolsistas; até mesmo nas primeiras posições.

Por isso, o CORREIO foi em busca dos 61 aprovados por mérito que não receberam financiamento no ano de 2019, para saber mais sobre os projetos. Dentre eles, escolhemos sete projetos que mostram a diversidade de temas estudados e as diferentes trajetórias de cada pesquisador envolvido. 

Dos 61, 27 eram mulheres - entre os 1A, só para dar uma ideia, são apenas duas. Há mais negros e negras, que também eram apenas dois na classificação mais alta do CNPq. 

O aumento do número de pesquisadores do CNPq é uma das metas do plano de desenvolvimento institucional da Ufba, como explica o professor Sérgio Ferreira, pró-reitor de pós-graduação da universidade.

"A bolsa de produtividade é um selo que sem dúvida 'abre portas' para o pesquisador/professor. Muitos projetos de pesquisa financiados pelas agências requerem que o proponente seja pesquisador do CNPq, também em algumas áreas da CAPES o número de pesquisador do CNPq é considerado como parâmetro de avaliação do corpo docente do programa de pós-graduação, em geral pesquisadores do CNPq são credenciáveis automaticamente em programas de pós-graduação", explica.

Mas, segundo o CNPq, há um limite orçamentário. Em agosto, houve a nova chamada para projetos que devem ser apoiados em 2021. Ao CORREIO, a agência informou que não houve aumento ou diminuição das bolsas PQ nos últimos cinco anos. Há uma tendência de estabilidade, mas, em 2019, o número de auxílios ativos foi "levemente" maior do que em 2018 (15.116 contra 14.492), como a própria agência ressaltou.

De acordo com o órgão, ainda não é possível usar os dados de 2020 porque pode haver flutuação mensal de bolsas; assim, os dados deste ano ficariam incompletos. É provável, porém, que os números continuem iguais.

"O aumento do numero de bolsas, naturalmente, depende de um acréscimo orçamentário. A tendência é mantermos os mesmos patamares", disse o CNPq, em nota.

As propostas são julgadas por membros dos Comitês de Assessoramento (CA), "compostos por pesquisadores de renome em cada área", como ressaltou a agência. O julgamento envolve critérios elaborados pelos próprios pesquisadores, divulgados a cada chamada. 

No entanto, em março, o órgão tinha anunciado uma mudança: agora, a maior parte das bolsas concedida deve ficar apenas nas áreas consideradas prioritárias, com foco em ciências exatas e biológicas. Após críticas de entidades como o Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes), porém, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (Mciti) voltou atrás e incluiu também ciências sociais e humanas como prioridade.  

Mas o cenário pode ser ainda mais preocupante. Esta semana, o presidente do CNPq, Evaldo Vilela, afirmou, em entrevista ao jornal O Globo, que as restrições no orçamento do órgão podem fazer com que nem mesmo as bolsas vigentes sejam pagas. A previsão é de um corte de 5,3% no orçamento. Além disso, R$96 milhões (quase metade) ainda precisa ser aprovada pelo Congresso. Hoje, o CNPq tem cerca de 80 mil bolsas vigentes, entre todas as modalidades. 

Conheça sete dos projetos aprovados pelo CNPq na Ufba em 2019; ainda que selecionados 'por mérito', não foram escolhidos para receber investimento

  • A pesquisa que busca entender o quanto dos elementos químicos é absorvido pelas células do corpo human

No laboratório da professora Daniele Muniz, no Instituto de Química da Ufba, não é incomum que algumas gramas de um reagente custem R$ 2 mil. Da mesma forma, não é incomum que ela tire a quantia até do próprio bolso, vez ou outra. No caso dela, a conta é simples: sem dinheiro, não há insumos. Sem eles, a pesquisa não anda. E se a pesquisa não se desenvolve, também não vai haver muita mudança em seu currículo. 

Se a relação de causa e consequência é fácil de entender, talvez seja ainda mais questionável que o currículo de início de carreira tenha sido a resposta do CNPq para que ela não se tornasse bolsista de produtividade em 2019 - ainda que o projeto tivesse sido aprovado por mérito. 

A professora Daniele Muniz, do Instituto de Química da Ufba, estuda elementos químicos nos alimentos (Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

Isso porque o parecer que recebeu dos revisores, apontam que o ponto mais fraco da proposta dela não é o projeto em si, mas o currículo.

"A gente até pensa no primeiro emprego do jovem. Como adquirir experiência, se eles não te dão oportunidade? Como posso enriquecer o meu currículo, se não tenho recursos?", questiona. 

A chamada de 2019 foi a segunda vez que aplicou para uma bolsa de produtividade. Em seu projeto, planejava estimar a fração bioacessível de nutrientes inorgânicos em alimentos. Alguns elementos químicos são essenciais para o organismo humano e o funcionamento celular, ao mesmo tempo que muitos alimentos são ricos nesses elementos químicos. 

No entanto, não quer dizer que todos esses nutrientes vão chegar ao organismo. "Estimar é definir a quantidade de nutriente que é liberado durante a digestão do alimento. O leite é rico em cálcio, mas quanto do cálcio do leite fica no nosso organismo?", explica a professora. 

Após a primeira tentativa, em 2018, ela reformulou o projeto. Na segunda proposta, além do objetivo principal, a investigação também deveria levar em consideração pessoas hipertensas ou diabéticas que fazem uso de remédio de uso contínuo. Assim, conseguiria também identificar se as medicações afetam os nutrientes ou não. 

Desde o final de 2013, Daniele é professora da Ufba. De lá para cá, tem trabalhado em uma linha de pesquisa muito relacionada ao projeto que submeteu ao CNPq. Em 2018, foi aprovada em um edital para Jovens Doutores na Ufba, além de ter participado de um edital universal do CNPq. É com esses recursos que tem tocado os projetos, até então. 

"Comecei a orientar alunos de pós-graduação em 2015. No início, mesmo, eu não tinha recurso nenhum. Fui sendo apoiada pela estrutura da minha orientadora até vir esse edital universal, no final de 2018, que ainda estão administrando", conta. 

Filha de um funcionário do Polo Petroquímico de Camaçari, a professora Daniele não pensava inicialmente em ser cientista. Escolheu a Química ainda criança, sem saber bem do que se tratava. Aos 4 ou 5 anos, lembra de quando, uma vez, o pai precisou ir ao polo no fim de semana. "Eu disse que, quando crescesse, ia trabalhar lá", lembra. 

Na época do vestibular, até houve um período em que ficou em dúvida entre Química e Engenharia Química, mas acabou optando pela primeira. Acabou se graduando em Química Industrial, na Ufba, quando também fez um estágio no Polo Petroquímico. Mas, quando se formou, a empresa não estava contratando. Foi assim que decidiu fazer o mestrado, para continuar se qualificando, e emendou o doutorado. 

Para a professora Daniele, mulheres são maioria em sua área. Por outro lado, ela reforça que é preciso criar mais oportunidades para pesquisadores negros (Foto: Arisson marinho/CORREIO)

É por isso que, analisando a própria trajetória, ela acredita que a falta de investimentos trará prejuízos à formação de futuros pesquisadores.

"Se eu não tenho recurso para desenvolver um projeto, como pegar um aluno - seja de iniciação científica, mestrado ou doutorado - para colocar no laboratório para fazer qualquer coisa? Eu prezo por qualidade. Claro que existem outros recursos nas universidades, mas a gente sabe que eles estão cada vez mais escassos", lamenta. 

Em sua área - a Química Analítica - ela acredita que mulheres são maioria. Até entre os 15 estudantes que já orientou, em todos os níveis, 10 são mulheres. "Mas tem a questão racial e muitas vezes, é questão de oportunidade. Muitos querem estudar, mas não têm oportunidade. Vejo que dos meus 15 orientados, três se dizem brancos e os outros negros. Isso é um diferencial hoje, mas a gente ainda precisa aumentar as oportunidades no ensino superior para que eles possam se colocar no mercado", diz. 

  • O estudo que busca evitar o avanço da doença de Parkinson 

Para o professor Victor Diogenes Amaral, do Instituto de Ciências da Saúde (ICS) a bolsa de produtividade em pesquisa seria uma oportunidade. Além de trazer mais visibilidade para os estudos sobre doenças neurodegenerativas, seria, por consequência, uma possibilidade de trazer mais recursos em outros editais para a universidade. 

Hoje, ele tem conseguido fazer pesquisa graças à verba de um edital universal de 2018 do CNPq, além de um de jovens cientistas da Fundação de Amparo à Pesquisa da Bahia (Fapesb) de 2015.

“A gente trabalha com reagentes importados e, até pela alta do dólar, a gente faz um planejamento e isso acaba se tornando três vezes mais caro", explica. 

O professor Victor, do ICS, desenvolve estudos sobre a doença de Parkinson (Foto: Acervo pessoal)

Com a carreira ligada à Ufba desde que entrou na graduação em Medicina Veterinária, concluída em 2005, o professor Victor começou, ainda estudante, a participar do Laboratório de Neuroquímica e Biologia celular, orientado pela professora Silvia Costa e ligado ao Instituto de Ciências da Saúde (ICS).

No mestrado e no doutorado em Ciência Animal, ele continuou com pesquisas baseadas na resolução de problemas. "Nosso problema é a doença de Parkinson, que tem um patógeno associado à perda de neurônios numa localização muito específica", explica. 

O que acontece é que, normalmente, os pacientes com doença de Parkinson não recebem um tratamento direcionado para deter a progressão da doença, apenas para aliviar os sintomas. Agora, pesquisas como a do professor Victor estão focadas em descobrir um composto que seja neuroprotetor, porque proteger os neurônios pode prevenir a evolução da doença ou curar o paciente.  

Um dos entraves, porém, é a falta de conhecimento amplo sobre a causa da morte dos neurônios, o que dificulta gerar modelos de estudo. A pesquisa in vitro é feita com células de animais como roedores. Assim, desde 2014, quando ele se tornou professor da Ufba, acabou criando uma nova linha de pesquisa no grupo.

Um dos objetivos é evitar a progressão da doença de Parkinson; desde 2014, ele é professor da Ufba (Foto: Acervo pessoal)

"A gente vem contribuindo com o desenvolvimento de um novo modelo que a gente considera análogo ao curso da enfermidade. Trata-se do uso de uma neurotoxina que é derivada da própria dopamina, produzida pelos neurônios que morrem", diz Victor. 

Segundo o professor, o grupo já publicou artigos mostrando que essa toxina é capaz de produzir neuroinformação e pode prospectar compostos que atuam em lisossomos (organelas celulares). Esses compostos, derivados de plantas regionais como a catingueira e a umburana, são adquiridos em parcerias com o Instituto de Química e a Faculdade de Farmácia. 

"Tudo isso foi colocado na proposta para a bolsa de produtividade, tanto o desenvolvimento do modelo de estudo e a caracterização quanto a prospecção desses compostos que são neuroprotetores", conta o professor Victor. 

Não foi a primeira vez que ele submeteu um projeto para essa categoria de bolsas do CNPq. Já tinha tentado em 2015, em 2016 e em 2018. Agora, na última chamada de 2020, decidiu aplicar mais uma vez. 

Mais do que a bolsa em si, ele espera se tornar mais competitivo com ela. Além disso, o professor também acredita que é uma oportunidade de receber críticas de especialistas na área tanto para o projeto quanto para o currículo. 

"A gente tem muito o que mostrar ainda, primeiro porque a diversidade da nossa flora é imensa. A patogênese de Parkinson ainda não está completamente esclarecida e a gente pode dar grandes contribuições", explica. 

  • A pesquisa que consegue identificar novas espécies de abelhas

A professora Favízia Freitas começou bem cedo a ter uma relação com abelhas. Ainda criança, via os avós criarem abelhas sem ferrão em casa. Assim, foi um caminho quase natural quando entrou no curso de Biologia na Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs) . Lá, logo se aproximou de uma professora que estudava abelhas e se tornou bolsista de iniciação científica. 

O que começou como uma paixão de família acabou fazendo com que, anos depois, ela se tornasse uma das 10 únicas mulheres a ser taxonomistas de abelha em todo o Brasil. Mesmo com uma área tão promissora e com um projeto sobre o tema aprovado pelo CNPq, ela também não foi selecionada para receber os recursos. 

A professora Favízia é uma das únicas taxonomistas de abelhas do Brasil (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

A resposta que recebeu da chamada de 2019 - a primeira tentativa que fez para entrar no sistema de produtividade PQ - foi negativa. O projeto, na verdade, fazer do trabalho de uma vida. 

"No meu doutorado, defendido em 2003, eu fiz a revisão de gênero de abelhas. Mas parte dele não foi publicado até hoje porque ainda carecia de outras pesquisas para finalizar as análises. Surgiu a oportunidade de submeter o projeto justamente para que a gente consiga fazer a parte que falta", explica Favízia, hoje professora do Instituto de Biologia da Ufba.

A proposta incluía usar a parte morfológica para a revisão de um gênero de abelhas que ocorre do México até o Brasil - o Frieseomelitta Ihering, 1912. Para esse gênero, já foram encontradas sete espécies novas no país. Aqui, o maior registro desses animais, considerados alguns dos mais importantes para a polinização, é na região do Mato Grosso do Sul. 

"Para regiões de caatinga, essas espécies são muito importantes. A ideia era fazer o estudo de biologia molecular ao longo da distribuição geográfica e fazer a modelagem para entender o que os eventos de mudança climática representariam para elas", diz Favízia. 

A taxonomia é considerada uma ciência base. Sem ela, outros aspectos da pesquisa podem não acontecer. É com a taxonomia que se consegue escrever, mapear e classificar a diversidade biológica. 

Com seu grupo, a professora Favízia tem descrito novas espécies de abelhas - uma inclusive foi coletada na Lagoa do Abaeté, por só ocorrer em áreas de restinga em Salvador. Para que outros estudos sequentes aconteçam - um de biologia molecular, por exemplo - é preciso saber as espécies envolvidas. Daí a importância da taxonomia. 

"Um dos gargalos que a gente tem para o conhecimento da biodiversidade e para políticas públicas é que são poucos taxonomistas (de abelhas). No Nordeste inteiro, só tem eu. No Norte e Nordeste, somos cinco, no máximo. A gente sabe que a segurança alimentar é um direito por lei e as abelhas são os principais polinizadores. O conhecimento da taxonomia é essencial”, enfatiza. 

Como uma das poucas mulheres em sua área, ela sabe do que já teve que enfrentar na vida. "Defendi meu doutorado com 27 anos e senti preconceito por ser jovem. Quando eu comecei na carreira, sendo mulher, nordestina, com 28 anos, eu até ouvi, em um congresso, que eu era ‘uma fedelha’. Mas a melhor resposta que a gente dá é o trabalho de excelência", diz ela, que primeiro foi professora  da Uefs, antes de ser aprovada para docente na Ufba, em 2009. 

Além de não conseguir o recurso da bolsa de produtividade, a professora Favízia acabou perdendo uma oportunidade de pós-doutorado na Utah State University, nos Estados Unidos. A ideia também era continuar revisando outro gênero de abelhas - o Diadasia Patton, 1879, que ocorre do Canadá à Argentina. 

Professora tem feito revisão de gênero de abelhas (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

Nessa última chamada para as bolsas de produtividade em 2020, devido à situação do CNPq, a professora decidiu não se inscrever novamente. Para que a pesquisa não deixe de acontecer, uma das formas que ela encontrou para viabilizar a pesquisa foi se inscrever para um programa de proteção das abelhas da farmacêutica Bayer - o Bee Care. Agora, aguarda o julgamento.

Com um edital da empresa, seu grupo já conseguiu viabilizar outros aspectos da pesquisa, a exemplo da publicação de um artigo em uma revista científica de alto impacto. Só a revisão do texto custou cerca de R$ 2 mil, além de outros 500 euros para publicação em si.  

"Ciência básica é necessária e o Brasil precisa investir pesado nisso. O governo precisa saber que é importante e que precisamos saber disso para políticas públicas, no caso das abelhas, porque somos um país agrícola", defende. 

  • O estudo para resgatar a memória através dos ex-votos 

De 2009 a 2017, o professor José Cláudio Alves foi bolsista de produtividade do CNPq. Professor do curso de Museologia da Ufba, ele passou boa parte da vida estudando os chamados ex-votos. Desde a graduação em Museologia, uma das três que fez na vida (além disso, também é formado em História e Comunicação), se dedica a pesquisar o tema. 

Ex-votos são justamente cartas ou presentes que religiosos costumam entregar a Deus ou aos santos em forma de agradecimento por um ato que acreditam ter sido concedido por eles. 

Para estudá-los, além de ser um pesquisador de produtividade, o professor participava de editais de ciênciais sociais e também do edital de pesquisa. Mas, na chamada de 2018, não teve a bolsa renovada.

O professor José Cláudio não teve a bolsa de produtividade renovada por 'cortes' nos recursos, segundo o próprio CNPq (Foto: Acervo pessoal)

"Eles deram como motivo o fato de que estavam acontecendo cortes e disseram que retomariam quando houvesse estabilidade. Mas só falam isso e dão mérito à pesquisa", conta. 

Nesse novo projeto, o professor José Cláudio planejava estudar os ex-votos de sala de milagre que estão em acervos de museus de países da América do Sul. O Brasil era o único que não fazia parte da proposta, por já ter sido objeto de investigação antes. 

"Para a sociedade de forma geral, o ex-voto tem um interesse para a memória local, regional e nacional de um povo. A gente vai desmitificar a história sendo contada só a partir de arquivos. Qualquer pessoa vai a uma sala de milagres e coloca sua história", diz. 

Essa tradição remonta a um passado de antes de Cristo. Ainda que não seja exclusiva do catolicismo, são os católicos quem mais difundem esse costume. 

A partir de relatos encontrados nas salas de milagre, também é possível até mesmo investigar doenças. O professor cita um episódio em Bom Jesus da Lapa, há sete anos, quando médicos da região examinaram muitos ex-votos e chegaram à conclusão de que muitas pessoas estavam pagando promessa por doenças de pele. 

"Eles foram investigar mais a fundo e descobriram que ainda há muita incidência de hanseníase em Bom Jesus da Lapa, Santa Maria da Vitória e Riacho de Santana", conta. 

Para tentar tocar o projeto de alguma forma, ele entrou em uma empreitada diferente. Acabou decidindo cursar um segundo doutorado - dessa vez, em Memória: Linguagem e Sociedade, na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) em Vitória da Conquista. 

Mesmo assim, o professor José Cláudio decidiu submeter o projeto novamente ao crivo do CNPq nessa última chamada. Não ter projetos como esse sendo apoiados, na avaliação dele, pode levar a perdas nos estudos da memória. 

Além disso, com menos bolsistas de produtividade, os programas de pós-graduação acabam tendo notas reduzidas. "É um efeito dominó. Além disso, quando você busca cooperação internacional, essa interação cai. Outros países sabem que existem pesquisadores de produtividade e, de repente, quando você não é, acaba caindo um pouco", analisa. 

  • A pesquisa que cultiva células-tronco para o tratamento da dor crônica

Quando recebeu o resultado de sua proposta na última chamada do CNPq, a professora Cristiane Flora Villarreal, da Faculdade de Farmácia da Ufba, teve uma surpresa. A nota média que o projeto recebeu foi perto da máxima: 9,82. A classificação dos avaliadores era de que a pesquisa era "excelente". O comitê de Biofísica e Farmacologia, para o qual ela submeteu o pedido, recomendou que a bolsa fosse concedida "com prioridade". 

Mas, na última etapa, foi parada pela falta de disponibilidade de recursos.

A professora Cristiane coordena um laboratório que pode fechar pela falta de recursos (Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

"Solicitei a revisão e eles disseram que não tinha o que analisar, porque o mérito estava reconhecido, mas que tinha ficado abaixo do dinheiro que eles tinham para pagar. Esse processo do CNPq é um pouco questionável. Ainda precisa ser melhorado, principalmente na transparência. Desmotiva muito, você se sente injustiçada", diz ela. 

Professora da Ufba desde 2006, ela conhece bem o sistema de produtividade do CNPq. Foi bolsista do órgão até 2017. Porém, de 2018 para cá, só recebe negativas com base em justificativas financeiras. Justamente por ter sido pesquisadora da agência, ela sabe que o valor do auxílio não faz muita diferença em uma pesquisa como a sua - a quantia paga varia de R$ 1,1 mil a R$ 2,8 mil, na classificação mais alta. No entanto, é um título que viabiliza a captação de mais recursos. 

"Conheço outras pessoas que ganharam bolsa pelo mesmo comitê que têm currículo pior, têm produtividade menor. Era importante que o CNPq fosse mais transparente e apresentasse um relatório para saber onde você pode melhorar", pondera.

O projeto da professora Cristiane, que é coordenadora do Laboratório de Farmacologia e Terapêutica Experimental, é uma pesquisa desenvolvimento tecnológico e terapia celular com cultivo de células-tronco. É o tipo de trabalho que envolve equipamentos e materiais caros, mas é a bolsa de produtividade que costuma atrair mais investimentos - seja no Brasil ou internacionais. 

Hoje, o laboratório dela tem se mantido com editais vencidos quatro e cinco anos atrás. Sem novas perspectivas com o CNPq, que só tem aberto chamada para projetos relacionados à covid-19, e com a Fundação de Amparo à  Pesquisa da Bahia (Fapesb), Cristiane teme até mesmo a descontinuidade total das pesquisas. 

"Quando esses projetos vigentes terminarem, daqui a um, dois anos, o laboratório vai fechar. Não vamos ter recurso para funcionar, porque tem uma linha de pesquisa cara. Uma nota de biologia molecular custa R$ 20 mil, 30 mil", explica.

A pesquisa dela, que é formada em Medicina Veterinária pela Universidade Federal de Lavras (Ufla), mas tem doutorado em Farmacologia pela Universidade de São Paulo (USP) é sobre analgésicos e dor. Encantada com a ciência desde que se tornou bolsista de iniciação científica na graduação, a professora Cristiane é um dos raros casos de alguém que passou direto para o doutroado. 

Ela já tinha sido bolsista de produtividade do CNPq até 2017 (Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

Quando estava prestes a iniciar o segundo ano do mestrado, a coordenadora do programa na USP recomendou que ela fizesse o processo de doutorado direto. Assim, em 2006, quando fazia o pós-doutorado, prestou concurso para a Ufba e foi selecionada como professora. 

Na Bahia, além da Ufba, começou a desenvolver pesquisas com a Fiocruz, onde também faz parte do corpo docente do programa de pós-graduação em Biotecnologia em Saúde e Medicina Investigativa até hoje. 

"Comecei a trabalhar com célula-tronco desde essa época, aplicando terapêutica experimental para dor crônica. Hoje, a gente tem no laboratório a linha de pesquisa de farmacologia e tem a terapêutica experimental que abrange células-tronco, biofármacos e produtos derivados de célula". 

Já dá para sentir a diferença desde já. A professora estava participando da construção de um projeto institucional grande, que incluía sua linha de pesquisa. No entanto, depois de participar de todas as reuniões, descobriu que não poderia entrar - um dos requisitos era que todos os membros da equipe principal fossem pesquisadores do CNPq. 

"Eu sou a mesma pessoa, não mudei de 2017 para cá. Na verdade, eu melhorei, minha produtividade aumentou, mas não posso compor essas equipes porque perdi  a bolsa", diz Cristiane, que também é integrante do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Rede Norte e Nordeste de Fitoprodutos, com sede na Universidade Federal da Paraíba (UFPB). 

Para ela, as regiões Norte e Nordeste acabam sendo prejudicadas na distribuição dos investimentos para a ciência. Acompanhando os colegas de pós-graduação que saíram do doutorado na USP para trabalhar em diferentes partes do Brasil, ela conta que os que vieram para outros estados do Norte e Nordeste fazem a mesma leitura. 

"Essa é uma percepção nossa de que quem foi para o Sul ou ficou no Sudeste se favorece muito dess questão de recursos, oportunidade e reconhecimento. Mesmo que a gente saiba que aqui temos núcleos de excelência, existe um preconceito relacionado a isso, sim", completa. 

  • A pesquisa que pretende investigar a Internet do Futuro e suas consequências

"A minha vida não pode parar. A gente tem que continuar". Essas são as palavras do professor Leobino Sampaio, do Departamento de Ciência da Computação da Ufba, para explicar os motivos pelos quais correu atrás para viabilizar seu projeto de pesquisa de outra forma, quando recebeu uma recusa do CNPq para se tornar bolsista de produtividade. 

Não foi a primeira vez. Esse mesmo projeto, com algumas alterações, já tinha sido proposto na chamada anterior. Ao todo, ele já tenta entrar no sistema há seis anos. "Nesses dois últimos anos, não teve críticas ao meu projeto, então imagino que o comitê de área, quando chega em um determinado momento, começa a decidir não pelo projeto, mas pelo currículo", analisa. 

Essa pesquisa já chegou a alguns resultados - que se tornaram, inclusive, três artigos publicados em períodos internacionais de alto impacto.

"Se você pensar em 50 anos atrás, você tinha uma internet diferente da atual. Hoje, você tem mobilidade e aplicações diversas rodando na rede. Agora, nos últimos 15 anos, alguns pesquisadores começam a pensar em novas propostas para a internet e isso é o que chamamos de internet do futuro", adianta o professor Leobino. 

Diante desse novo cenário, sua pesquisa é dividida em dois aspectos. A primeira parte é relacionada ao modelo de comunicação, enquanto a segunda diz respeito à tecnologia. Uma das grandes referências da área, a professora Lixia Zhang, da University of California, Los Angeles (Ucla),  convidou o professor Leobino para um período como professor visitante na instituição. 

"Já tem uns seis, sete anos, que faço trabalho na linha dela e foi de uma felicidade. Agora, a gente tem trabalhado na arquitetura de redes até a parte de segurança. Você tem novas aplicações que saem de um modelo totalmente substituído para uma aplicação no cenário de internet das coisas", explica ele, que está em Los Angeles desde março.. 

O professor Leobino está em Los Angeles desde março para um período como professor visitante na Ucla; lá, tem conseguido desenvolver o projeto que o CNPq não apoiou (Foto: Acervo pessoal)

Essa primeira fase do projeto vai até novembro, quando se encerra a bolsa que ele conseguiu na Capes para estudar na instituição. "Esse projeto, na verdade, é essencialmente o que não foi contemplado pelo CNPq. Então, a questão não é menos o projeto", reforça. 

Agora, os próximos estudos devem ser para estudar as redes cientes do ser humano. Ou seja, se no passado redes de computadores eram algo à parte (com um computador desktop parado e plugado em um cabo de rede), agora, com smartphones e redes de pessoas, é como se essas duas redes tivessem se fundido. 

"Hoje, falar de rede de computadores está quase que diretamente associado a redes das pessoas. Eu vou pegar padrões de mobilidade das pessoas, pegar um pouco da personalidade das pessoas, caráter, humor, interações sociais, e vou prover serviços de comunicação para esses parâmetros, mais contextualizados", diz. Essas novas redes cientes do humano, agora, levam a outras discussões e desafios relacionados à privacidade. 

Filho de um mestre de obras, o professor Leobino ganhou do pai seu primeiro computador na sexta série do ensino fundamental. Era um TK-90X, computador antigo que podia ser usado conectando a um aparelho de televisão colorido. "De lá para cá, não parei mais. E sempre gostei do computador mesmo, de programas, de línguagens de baixo nível. Desde aquela época, despertei para a computação", lembra. 

Foi assim que fez a graduação em Ciência da Computação (ainda que também tenha se formado em Administração, a pedido do pai) e seguiu pelo mestrado e pelo doutorado na área. Na Ufba, acabou fazendo concurso para professor da Escola de Administração, mas decidiu se transferir para o Departamento de Ciência da Computação em 2015. 

"Por isso tudo, não ter o projeto aprovado é ruim. Mas a perda maior não é do recurso, é da representatividade. É um prejuízo maior nas disputas por recursos maiores. A Ufba perde, nesse sentido porque, no final do dia, o que vai contar são os critérios quantitativos, infelizmente", completa. 

  • A pesquisa que analisa jornalismo em redes digitais

Pelo terceiro ano seguido, o projeto da professora Suzana Barbosa, da Faculdade de Comunicação da Ufba, foi validado pelos avaliadores do CNPq. Na última, o parecer era de que a proposta era "excelente". Ainda assim, ela não foi selecionada para receber o auxílio. 

"A primeira vez que eu submeti coincide com o momento em que os recursos em pesquisa começaram a ser reduzidos, tanto nesses editais quanto na chamada universal. Os recursos foram ficando parcos a cada ano e obviamente o funil também vai nessa linha, porque a demanda não é específica de cada área do conhecimento. A gente concorre com todas", diz Suzana, que é diretora da Facom e coordenadora do Grupo de pesquisa em Jornalismo Online (Gjol). 

A proposta dela também é o projeto de pesquisa que Suzana desenvolve sobre jornalismo em redes digitais ao longo da trajetória acadêmica - independente do CNPq ou não. Sem o financiamento, ela tem que adequar ou, eventualmente, suspender aspectos previstos no projeto inicial. 

Nessa última, a ideia era incluir uma etapa nas redações jornalísticas (o projeto foi proposto antes da pandemia da covid-19).

"É o que a gente chama de pesquisa etnográfica, que implicava em viagens, por exemplo. A partir daí, tinha outros desdobramentos, como a participação em eventos", conta. 

Agora, com a pandemia, há ainda outras situações que devem ser observadas. As redações, assim como o resto do mundo, não deixaram de ter mudanças para se adequar à crise sanitária. 

"Se a gente sempre funcionou nesse centro onde tudo convergia (a redação), com os profissionais trabalhando conjuntamente, agora foi necessária uma adaptação para o teletrabalho. Isso é outro aspecto que passa a interferir e alterar a lógica desses processos produtivos do jornalismo", explica a professora, que é jornalista formada pela Facom, onde também cursou o mestrado e o doutorado. 

No passado, Suzana já teve projetos contemplados tanto pelo CNPq quanto pela Fapesb, a exemplo do Laboratório de Jornalismo Convergente. Desde o fim do projeto, sem mais financiamento, ela mantém o site no ar com recursos próprios, para que a produção ao longo dos anos fique à disposição de outros pesquisadores e da sociedade em geral. 

No entanto, a leitura que faz do cenário hoje é a mesma de outros pesquisadores da comunicação - ou das humanidades e das ciências sociais aplicadas, em geral. Hoje, é comum a percepção de que projetos desses campos não estão sendo considerados prioritários como de outras áreas do conhecimento.

"Apesar disso, há uma resistência, porque, apesar dos recursos parcos, continuamos fazendo pesquisa e insistindo, porque é o nosso trabalho. Acredito na ciência como acredito na educação e na pesquisa. É a educação que nos permite evoluir", reforça.

Por isso, ela preferiu não submeter uma nova proposta ao edital que se encerrou em agosto. "São muitas tarefas, fora aquilo que demanda a direção. Então, decidi que estou mais focada nesse aspecto da produção do trabalho de projetos do Gjol, com artigos e capítulos de livros e outras demandas. Vamos buscando colher os frutos dessas atividades e aguardando também que tenhamos um contexto mais favorável para a pesquisa no país". 

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