'Sereio de Itapuã' não é único conto de criaturas extraordinárias na Orla de Salvador

salvador
24.11.2018, 06:00:00
Local em que "sereio" teria aparecido, na praia da Pedra de Sal, em Itapuã (Foto: CORREIO)

'Sereio de Itapuã' não é único conto de criaturas extraordinárias na Orla de Salvador

CORREIO esteve no local para ouvir histórias

Homem-peixe, ‘sereio’, tritão, Aquaman, Netuno. Nos últimos dias, a aparição de uma criatura estranha no mar de Itapuã, na terça-feira (20), causou polêmica nas redes sociais e intrigou salva-vidas, biólogos marinhos e banhistas. Mas, antes que pareça que o ser misterioso é pioneiro em provocar rebuliço em águas soteropolitanas, é preciso esclarecer que há quem diga que existem seres sobrenaturais por aqui há muito mais tempo.

Na verdade, os primeiros relatos são tão antigos que Salvador sequer existia enquanto cidade. No século XVI, os portugueses já ouviram, dos índios que aqui moravam, a lenda de Somé (ou ‘Zomé’). Os jesuítas foram os primeiros a documentar isso, lá pelo ano de 1549.

“A lenda de Somé tem a ver com a religião católica, porque aparece um personagem que anda pelas águas. Elas acabam se abrindo e ele consegue andar pelo meio delas. O Somé acabou se tornando uma corruptela de São Tomé”, explica o jornalista e pesquisador Nelson Cadena.

Em Salvador, Somé teria andado do local onde hoje é o bairro de São Tomé de Paripe até Itapuã, deixando pegadas em pedras. Ele é, inclusive, a razão do bairro ter, hoje, o nome que tem.

No entanto, esse tipo de história – aparições que andam pelo mar – são comuns em outros países e em muitas religiões primitivas. Há relatos semelhantes no México e na Colômbia, por exemplo.

A própria Itapuã, por sua vez, é dona de mais histórias e lendas. A Lagoa do Abaeté é um dos locais que teria surgido a partir de forças sobrenaturais. A história conta que uma índia foi abandonada no dia do casamento. Após uma traição, ela se rebelou e jogou seu véu para cima – o tecido branco se transformou nas dunas. As lágrimas, por sua vez, teriam formado as águas escuras da lagoa.

Segundo Cadena, o bairro de Itapuã sempre foi um local onde existiu uma grande nação de baleias, inclusive com a produção de óleo de baleia para exportação. “Ou seja, aquela área sempre teve animais grandes e, por isso, até hoje tem uma tradição de baleias”, explica. Para biólogos, o fenômeno da última terça pode ter sido duas tartarugas - com mais de 1 metro de casco - copulando na região. Já que, nessa época do ano, tartarugas das espécies cabeçuda e de pente costumam circular ali.  

Ilustração: Morgana Miranda/CORREIO

Histórias
Com o sucesso da história nos jornais, houve quem desse seus própris testemunhos sobre o ocorrido. O CORREIO esteve na Praia do Farol de Itapuã e conversou com um grupo de trabalhadores das barracas do local. A praia exata em que o fato teria ocorrido foi Ponta da Pedra de Sal, atrás do Catussaba Resort. (Veja abaixo o relato oficial)

“Esse daí é o nego-d’água. Eu vi. O salva-vidas me chamou para ver na hora e eu avistei. Ele era negro, apareceu, a gente foi atrás e ele disse que estava bem e que não queria ajuda”, contou um homem.

O “negro d'água” é uma lenda dos rios brasileiros. As características dele até que batem com a descrição do surfista: ele seria a fusão de um homem negro alto e forte com um anfíbio e teria nadadeiras e corpo coberto de escamas mistas com a pele. No rio, a criatura aparece para pescadores e ribeirinhos. Na lenda, ele derruba a canoa dos pescadores que se recusem a dar um peixe a ele.

“Esse nego-d’água já apareceu aqui há mais de dez anos do mesmo jeito. Aparecia, mergulhava e voltava”, disse um garçom que trabalha na Praia do Farol há mais de 30 anos.

Relato
Mas, para aqueles que viram a “criatura” com seus próprios olhos, o que aconteceu não tem nada de lenda e fábula. O sucesso da história e a repercussão como algo fantasioso não alegrou os que estavam na praia e vivenciaram tudo. “A história foi parar na Califórnia e tem até uma galera atrelando o fato à uso de drogas. Isso é irresponsável”, contou uma das pessoas presentes no momento na praia da Pedra do Sal.

Um surfista que auxiliou na tentativa de salvamento do que - em uma primeira avaliação - foi considerado como um cadáver, conversou com o CORREIO e contou maiores detalhes sobre o acontecido. Ele disse que recebeu informações de mergulhadores da Rua K, também em Itapuã, de que uma criatura com as mesmas descrições também teria aparecido no local.

“Uma turista me chamou e disse que tinha um corpo na areia. No início, dava impressão de um afogamento. Quando eu cheguei mais próximo, parecia uma roupa de borracha. A gente só conseguia ver a cabeça para fora da água. Isso a uns 7 metros da areia”, contou.

O surfista disse que achou que se tratava de um mergulhador por ter avistado a roupa de borracha e uma protuberância nas costas - que parecia uma roupa de mergulho. “Depois que eu vi que poderia ser uma barbatana. Ele era grande. Muito largo e forte. Tinha o cabelo grande, mas em cima era careca. Pouco depois que eu me aproximei, ele mergulhou”, relatou.

Após ter submergido, a criatura teria voltado à superfície mais à esquerda da costa - o que, segundo o surfista, vai contrário à corrente no local, que puxa para o Farol de Itapuã. “Os hóspedes do hotel nos ajudaram. Nessa altura, eles já tinham se aglomerado para ver tudo. Eles apontavam para onde viam a criatura”, disse. 

Além das características físicas excêntricas, a criatura também promovia uma reação no mar nunca vista anteriormente pelo surfista. “Ele tinha meio que um campo energético em torno dele. Era uma corrente em formato de espiral que levantava a areia de onde ele passava, então ficava tudo marrom. Tinham duas tartarugas em torno dele também. Uma bem grande e uma menor”, relatou.

Depois de mais de três horas de tentativa de 'salvamento', eles desistiram. Chegaram a chamar três técnicos da Salvamar, mas dois deles avaliaram como se tivesse apenas a tartaruga. “Só um deles viu a criatura”, lamentou.

Um barraqueiro, que preferiu não se identificar, contou a mesma história ao CORREIO. A versão foi confirmada por um vendedor de queijo coalho, que também não quis se identificar.

“Ele subia e descia. A maré ficava agitada e o mar se mexia com ele, parecia até o Netuno”, disse.

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