Ter 80 anos

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15.07.2020, 05:00:00

Ter 80 anos


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A sensibilidade humana não alcança a compreensão de situações que não foram vivenciadas. Assim, a condição de octogenária não é conhecida daqueles que me são mais próximos afetivamente: filhos, netos, bisneta, cuja convivência é mais natural e crucial para o bem estar, alegria e continuidade da vida. 


Relembro de tantas situações junto à minha mãe, nas quais por pensar que me compreendia e saber que lhe amava, tantos equívocos cometi em relação às prioridades para com ela. Encontrando-me numa fase plena de trabalhos e ocupações múltiplas, sentia-me justificada em não poder vê-la com mais assiduidade, já que me cabiam também as providências que lhe eram necessárias.


A vida se repete. O desejo tem que passar pelo crivo da realidade para dimensionar o possível e o almejado de modo mais harmonioso. A saúde e a autonomia, bens sempre desejados, nessa fase da vida são superlativos.


É muito importante saber que se pode contar com a disponibilidade dos entes queridos e isto acontece. Porém, o enfrentamento das providências e acontecimentos do cotidiano dá ao idoso a sensação de maior valia. A dinamicidade da vida conduz sempre a novos sentidos, a outras prioridades, o efêmero pode ser definitivo, torna-se mais intensa a compreensão de que tudo passa.


A inspiração para esta escrita vem também do momento crucial por que passam os povos e as nações com o advento do coronavírus. A necessidade compulsória de confinamento das pessoas em suas casas, visando o bem próprio e comunitário, levou a um irmanamento por uma causa comum: evitar e minimizar a propagação da doença. Assunto amplamente notificado nos meios de comunicação e que dispensa comentários.


Dentro do contexto abordado, o que quero salientar é a questão do isolamento, como uma vivência de exceção, de inquestionável necessidade, que pode trazer descanso, maior contato familiar, tempo para interiorização e realização de outras coisas. Mas o fato de ser compulsória arrefece estes benefícios. No caso do idoso, é uma imposição sine qua non para sua garantia vital. Ele sente “no corpo, na alma e no coração” esta prisão domiciliar, que atualiza muitos medos, acentuando receios naturais procedentes da solidão, perda de autonomia do ir e vir, lazer, fazendo-se mister o preenchimento do tempo, que ocorria de forma natural com leituras, filmes e ocupações diárias.


O simbolismo latente em todas as coisas passa a ter um outro colorido. Talvez o medo da doença e da morte se expresse de forma camuflada. O tempo de vida é contado pelos anos que passaram. Valho-me de um verso, aprendido na juventude, que destaca a importância do sonhar como elemento nutridor e provocador do desejo de viver.


A morte não é tristeza,
É fim, é destinação.
Tristeza é ficar vivendo,
Depois que o sonhos se vão.


Olga Lôpo Hastenreiter é professora aposentada da Universidade Federal da Bahia

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