Terreiro denuncia invasão com tiros e destruição de cercas em Cachoeira

bahia
13.06.2020, 10:13:00
Atualizado: 13.06.2020, 10:44:03
Barracão do Ilê Axé Ici Mimó (Foto: Reprodução/Facebook)

Terreiro denuncia invasão com tiros e destruição de cercas em Cachoeira

Ilê Axé Ici Mimó vive conflito fundiário antigo com empresa de celulose, acusada de ser responsável pelo ataque

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Tiros, cercas derrubadas e destruição de símbolos sagrados. O centenário Terreiro Ilê Axé Ici Mimó, em Cachoeira, no Recôncavo, sofreu um novo ataque e ameaça na manhã nesta terça-feira (9), conforme denuncia o babalorixá da casa, Antônio Santos, o Pai Duda de Candola.

Em vídeo nas redes sociais, ele contou que homens armados invadiram o terreiro, quebraram um assentamento sagrado dedicado ao orixá Exu e arrancaram as estacas que demarcam a área de 22 hectares do templo de candomblé.

Para o terreiro, os responsáveis pelo ataque fazem parte da empresa Penha Papéis e Embalagens, que tem sede na cidade de Santo Amaro da Purificação, localizada ao lado de Cachoeira. O Grupo Penha nega ter participação no ato.

A contenda entre o terreiro e a empresa é antiga. No início do ano passado, o Ministério Público da Bahia (MP-BA) emitiu uma recomendação para que o grupo Penha parasse de invadir o terreno do Ici Mimó. O espaço só foi tombado emergencialmente em 13 de maio deste ano pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Deste histórico de conflito, essa foi a invasão mais agressiva na avaliação do babalorixá da casa.

“Chegaram com os nervos à flor da pele, deram tiro para cima, cortaram os arames da cerca, quebraram assentamentos centenários. Além de ter o sentimento religioso ferido, a gente perdeu ferramentas de Exu. Com a retirada da cerca, eles deram acesso a pessoas que não são da comunidade religiosa, acesso para animais pastarem e agora nossas folhas sagradas, nossas nascentes estão sem proteção”, descreve Pai Duda de Candola. 

(Foto: Divulgação/Ilê Axé Ici Mimó)
(Foto: Divulgação/Ilê Axé Ici Mimó)
(Foto: Divulgação/Ilê Axé Ici Mimó)
(Foto: Vinicius Xavier/Divulgação)
(Foto: Divulgação/Ilê Axé Ici Mimó)
(Foto: Divulgação/Ilê Axé Ici Mimó)
Incêndio no ano passado em bambuzal próximo ao terreiro
Incêndio no ano passado em bambuzal próximo ao terreiro (Foto: Divulgação/Ilê Axé Ici Mimó)

Reconhecido como patrimônio imaterial pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural do Estado da Bahia (Ipac), em 2015, o terreiro foi fundado por Mãe Judith Ferreira Sacramento, que em 1913 comprou o terreno das mãos da Companhia União Fabril da Bahia. “Naquela época, a religião de matriz africana era muito perseguida e a gente tinha muito menos apoio do que tem hoje, invadiam tudo, perdemos terras”, conta.

Ainda segundo o babalorixá, plantações clandestinas de bambu têm sido feitas na região do terreiro, o que também se configura como uma ameaça ao templo, pois os bambuzais são incendiados propositalmente com frequência. Pai Duda conta que o fogaréu avança sobre os assentamentos sagrados. Ele acrescenta ainda que a empresa alega que adquiriu o terreno em 2005, mas o terreiro garante que tem a escritura da área e nunca a vendeu. O espaço é mantido pela Associação Seguidores de São Gerônimo.

Em nota, a superintendência do Iphan na Bahia informou que tomou conhecimento do fato e já encaminhou ao Ministério Público Federal um pedido de investigação. Os responsáveis pelo terreiro também foram orientados pelo órgão a procurar a Defensoria Pública da União (DPU). O Iphan justificou que o tombamento provisório emergencial feito em maio deste ano foi justamente com o objetivo de preservar o lugar, que é referência cultural para a religião de matriz africana.

Ao CORREIO, o Ipac afirmou que também acionou o Ministério Público Federal e a Polícia Civil da região, bem como a Prefeitura Municipal de Cachoeira. 

“Toda atitude de intimidação, comungada por ação criminosa e de viés racista e de intolerância religiosa, deve ser fortemente desamparada pela impunidade. Nos solidarizamos com nossos irmãos e, como órgão de proteção ao bem, tomamos as atitudes cabíveis ao ato”, explicou o diretor geral do Ipac, João Carlos de Oliveira.

Procurada, a empresa não respondeu aos questionamentos. Ao G1 Bahia, o Grupo Penha Papéis e Embalagens enviou a seguinte nota, reproduzida na íntegra:

O Grupo Penha detém terras na região de Cachoeira (BA) desde o ano de 2005, data em que adquiriu a antiga IPB – Indústria de Papéis da Bahia, a qual mantinha florestas de bambu na região desde a década de 70. Na oportunidade, o processo de aquisição da fábrica e seus respectivos bens acessórios ocorreram com o amparo da lei e reconhecidos com escritura registrada em cartório.

As terras mencionadas pelo Terreiro Icimimó são de propriedade de nossa empresa, que através de um acordo com o Ministério Público realizado em 07/03/2019, ficou autorizado que a instituição religiosa usufruísse de um lote devidamente demarcado com metragem acolhida pelo Ministério Público e, também, pelo Pai Duda, que esteve presente no dia da audiência, sob a condição de que eles respeitassem esta demarcação, vez que ali a empresa cultiva bambu para gerar energia renovável para alimentação de suas caldeiras. Entretanto, o referido terreiro quebrou o acordo inicialmente firmado e instalou cercas em nosso perímetro.

Diante desta situação de esbulho da área, foi peticionado junto ao Ministério Público o fato, bem como lavrado Boletim de Ocorrência para preservação das propriedades do Grupo Penha. A referida cerca teve seus marcos alterados ilegalmente pelo terreiro.

As denúncias de uso de violência, intolerância religiosa ou qualquer acusação de ordem segregatista são evidentemente falsas. Somos um grupo empresarial idôneo que atua há quase 60 (sessenta) anos no mercado e agimos de forma responsável com as comunidades em que nossas plantas estão instaladas e com a sociedade como um todo.

Só no Estado da Bahia empregamos mais de 1mil profissionais diretos e cerca de 3mil indiretos. Valorizamos o respeito e repudiamos toda e qualquer atitude que fere à diversidade cultural, religiosa e ideológica e, essas premissas, são refletidas em nosso Código de Conduta, valores, esses, supremos para a companhia. Lamentamos a atitude irresponsável do TERREIRO ICIMIMÓ por proferir inverdades sobre o acontecimento dos fatos e, reiteramos, que, todas as nossas ações estão amparadas pelo Poder Judiciário.

O Departamento Jurídico do Grupo Penha já está tomando todas as medidas legais cabíveis para resguardar os direitos de nossa propriedade

Atenciosamente

Direção Grupo Penha

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