Testículos retidos na infância ampliam possibilidade de câncer e infertilidade

coronavírus
18.10.2020, 07:00:00
(Imagem: Shutterstock)

Testículos retidos na infância ampliam possibilidade de câncer e infertilidade

No lugar: em 10 anos, número de correções cirúrgicas da doença cresceu apenas 16,9%

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“O tempo foi passando e à medida que fui crescendo, até por uma questão de falta de diálogo em casa — em meio ao tabu que ainda existe em muitas famílias com relação aos órgãos sexuais — meus pais não perceberam que o testículo não havia descido e eu também nunca tinha me queixado sobre isso”, conta Carlos*, que é professor, tem 32 anos e nasceu com um dos testículos retidos dentro do abdômen. Só na adolescência, durante uma aula de biologia, é que ele se deu conta: tinha apenas um testículo na bolsa escrotal. “Só adulto fui buscar tratamento”, completa.

Segundo dados da Secretaria da Saúde do Estado (Sesab), ao longo dos últimos 10 anos, os casos de internação por testículo não-descido e testículo ectópico (criptorquia) aumentaram 50,7%, somando 6.470 pacientes. No entanto, as correções cirúrgicas (orquidopexia), pelo Sistema Único de Saúde (SUS), no mesmo período, cresceram só 16,9%, com 4.744 procedimentos.

Do início do ano até julho, foram apenas 130 cirurgias. Ainda de acordo com a Sesab, a explicação está na postergação dos procedimentos, devido a pandemia de covid-19. Os casos identificados via SUS passam por cirurgia, se assim forem indicados pelos médicos.

Quando o testículo retido não consegue  descer naturalmente para o saco escrotal e o problema deixa de ser tratado logo de imediato na infância, a doença pode levar à infertilidade. Outra consequência que preocupa é o aumento do risco de desenvolver um de câncer nos testículos, além de intervir na autoestima quando adulto pela falta do órgão na parte externa do corpo. 

“Esta é uma das patologias uro-pediátricas mais frequentes, assim como a fimose. Se o problema não for tratado até a vida adulta, o risco de câncer de testículo aumenta até 40 vezes. É algo que não pode passar despercebido e necessita de tratamento”, pontua o preceptor de urologia no Hospital Estadual da Criança em Feira de Santana e nas Obras Sociais Irmã Dulce, Leonardo Calazans.

Apesar do câncer de testículo não ser o tipo mais frequente em homens, visto que a primeira posição no ranking é o de próstata - conforme aponta Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), vale o alerta. Calazans explica que a frequência maior de casos é quando um dos testículos ou até mesmo os dois ficam retidos na cavidade abdominal e conseguem ser identificados quando apalpados (criptorquidia).

Caso o exame físico não consiga achá-lo,  o testículo é ectópico, ou seja, ele nasceu, porém, em um local fora do trajeto de descida, como, por exemplo, na coxa ou próximo ao intestino. Outra ocorrência é o testículo retrátil, quando ele está no lugar correto, contudo, vai para dentro, onde fica maior parte do tempo. 

E aí, a dúvida é: espera ou não espera descer? Que mãe ou pai de um menino não ouviu de um parente mais velho que era para ter paciência?

“Os estudos atuais mostram que, se ele não desceu até os seis meses, a chance de descer para o local normal é baixa. Então, não compensa você esperar mais para que o testículo desça sozinho. A indicação é que a correção seja feita, de preferência, até 18 meses de vida. Porém, homens adultos também podem se submeter a cirurgia”, complementa.

Tratamento
A técnica de radiologia Eliana Rocha percebeu por um acaso o problema no filho Gabriel, hoje com 7 anos. “Eu não tinha noção do que estava acontecendo. Quando ele estava com 5 anos, eu deixei ele sem cueca durante o dia e, de repente, percebi que havia alguma coisa errada.  Não tenha vergonha de procurar ajuda médica o mais rápido possível”, afirma.

Dados do Ministério da Saúde apontam que três a cada 100 meninos (3%) que nascem com os nove meses completos apresentam um testículo retido. Porém, 30 em cada 100 bebês (30%) que nascem prematuramente apresentam a doença. Urologista do Itaigara Memorial, Ronaldo Barros explica que a doença está associada a fatores genéticos durante a gestação.

“Apesar de ser uma doença multifatorial que acomete mais os bebês prematuros, existe uma associação familiar em 23% dos pacientes contra 7,5% daqueles que não têm história na família. Outro motivo determinante é o peso ao nascer, independente da duração da gestação”.

Mãe do pequeno Joaquim, a empresária Mariana Araújo conta que descobriu que o filho nasceu com o testículo retido antes mesmo de receber alta da cesariana. A cirurgia de correção foi feita quando ele completou 4 anos.

“Ficamos postergando porque tínhamos esperança de que o testículo descesse para o saco escrotal. Antes de passar pelo procedimento, meu filho acordou um dia chorando dizendo que a ‘pinta’ estava dodói, então, eu pensei: meu Deus, culpa minha! Ao chegarmos na emergência, na verdade, foi só uma infecção urinária, mas aquele momento foi de muita reflexão para que eu não deixasse as coisas para depois. Na idade dele, foi necessário retirar o testículo”.

Em casos mais simples, onde o testículo está na região da virilha,  a cirurgia leva cerca de 1h e o paciente é liberado no mesmo dia, como ressalta o urologista Leonardo Calazans. Em situações mais complexas, quando esse testículo não é palpável, a intervenção é por videolaparoscopia ou via robótica.

(Ilustração: Quintino Brito/ CORREIO)
(Ilustração: Quintino Brito/ CORREIO)
(Ilustração: Quintino Brito/ CORREIO)

“A criança não sente nada, não tem dor. E quando não é diagnosticado no período neonatal, as mães podem perceber o problema durante o trocar de fralda, o banho e observar se um dos testículos ou os dois estão ausentes”.

Caminho certo
A designer de interiores Ana Carolina Andrade fez todos os acompanhamentos necessários desde o nascimento do filho, João. Diagnosticado com o testículo esquerdo retrátil, assim que completou dois anos, a mãe optou por submetê-lo à cirurgia. 

Pouco mais de um ano após a correção, Carolina afirma que a recuperação da criança foi tranquila. “Observar e perceber de forma antecipada foi essencial para que meu filho não se deparasse com esse problema na fase da puberdade”, relata.

Quando antes for identificado, melhor. É o que aconselha, mais uma vez, o urologista Ronaldo Barros. “E se não fizermos nada ou ficarmos só monitorando e esperando o testículo descer? O fato é que essa criança vai viver uma vida de só ficar fazendo exames laboratoriais para saber se está desenvolvendo um câncer. Se não desceu, é indicação cirúrgica. O diagnóstico precoce é fundamental”.

*Nome fictício. O personagem pediu para não ser identificado


TIRA-DÚVIDAS

Qual a função dos testículos?  Os testículos são as glândulas sexuais masculinas e fazem parte do sistema reprodutor do homem. O órgão tem duas funções principais: uma delas é a função reprodutiva. É lá que acontece toda a cadeia de produção de espermatozoides. A outra finalidade é produzir testosterona, o hormônio sexual masculino, responsável pelo desenvolvimento de características sexuais e libido, ao ajudar na ereção e também na disposição.  

O que provoca a doença e em que situações a incidência é maior? Os testículos são formados durante a gestação e a formação do feto dentro da cavidade abdominal. Com o passar das semanas, o natural que ele vá migrando em direção ao local correto, que é a bolsa escrotal. No entanto, por alguns motivos hormonais ou até mesmo de prematuridade do nascimento do bebê, essa descida não se completa e o testículo para em algum lugar desse caminho.

De quem forma a doença pode se manifestar? Existem casos que um dos testículos ou até mesmo os dois ficam retidos na cavidade abdominal quando o médico consegue apalpá-lo, o que é chamado de criptorquidia. Se no exame físico não for possível identificar o testículo em nenhum local, acontece o que os especialistas chamam de testículo ectópico, ou seja, ele nasce em um outro local fora do trajeto normal de descida. Mas também essa criança pode ter nascido sem testículo ou por algum motivo ele atrofiou.  

Por que o testículo tem que ficar no saco escrotal? O testículo precisa ficar mais para fora do organismo para que a produção de espermatozoides na vida adulta não seja comprometida. A alta temperatura interna do corpo humano, na verdade, não ajuda muito no processo. Ou seja, a ‘fábrica’ necessita de uma temperatura menor que 36 graus para movimentar bem essa produção.

É necessário fazer cirurgia? Qual o tratamento e o que pode acontecer se este testículo permanecer retido? Os médicos recomendam que sim e, de preferência entre os seis e os 18 meses de vida. Mas o procedimento também pode ser feito em homens adultos. Caso o testículo permaneça fora do saco escrotal, isso pode provocar, principalmente, a infertilidade e uma maior probabilidade ao câncer de testículo. Se esse testículo não conseguir descer, esteja muito atrofiado, ele pode ser retirado e uma prótese de silicone, colocada no local, tanto em homens adultos como crianças também. A prótese em crianças, no entanto, deve ser trocada no futuro para que os testículos fiquem assimétricos após passar pela puberdade. 

O homem com testículo retido tem menos libido? O fato de ter o testículo retido não interfere na libido do homem. Se for um testículo retido, mas de tamanho normal, de vascularização normal, independentemente de onde ele esteja não vai prejudicar esta parte. O que pode fazer com que apareça a perda da libido é, se houver, um problema nos dois testículos. Aí sim, ele pode provocar tanto a falta de libido quanto de ereção.

O que é um testículo saudável? Um testículo saudável é liso, não tem nenhuma área endurecida e nem apresenta uma dor significativa quando é tocado. É importante analisar se existe alguma ondulação, caroço, endurecimento ou aumento no tamanho, que deve ser de acordo com a idade. O urologista utiliza um aparelho chamado orquidômetro para verificar se o órgão está no tamanho adequado. 
 

RELATO: 'CULPEI MEUS PAIS POR NÃO TEREM RESOLVIDO QUANDO ERA CRIANÇA'

Ainda recém-nascido, os médicos disseram aos meus pais que não precisavam se preocupar, pois o testículo retido desceria para a bolsa escrotal.

Minha mãe também tinha medo de me submeter a cirurgia, por falta de conhecimento e orientação adequada. 

O tempo foi passando e à medida que fui crescendo, até pela falta de diálogo em casa relacionado ao tabu que ainda existe em muitas famílias sobre os órgãos sexuais, meus pais não perceberam que o testículo não havia descido e eu também nunca tinha me queixado sobre isso.

Só aos 15 anos, em uma aula de biologia na escola, me dei conta que eu tinha apenas um testículo na bolsa escrotal e que havia algo errado. 

Quando cheguei em casa, fui perguntar aos meus pais e eles disseram que pensavam que o problema já tinha sido resolvido, acreditavam que o testículo tinha descido com o tempo. Depois de adulto, procurei um médico urologista e passei a fazer o acompanhamento do caso. Tive uma hérnia inguinal na região do testículo retido, que foi operada imediatamente após o diagnóstico. 

Com relação à autoestima, quando me dei conta, me senti incomodado e culpei meus pais por não terem resolvido quando eu ainda era criança. Após meu urologista me explicar toda a situação clínica, fiquei mais tranquilo e passei a fazer o acompanhamento periódico, importante para a prevenção do câncer de testículo. 

Até o momento, não tenho intenção de remover o testículo retido. Psicologicamente, não estou pronto para fazer a remoção, retirar um órgão.

Ele não está tão atrofiado e provavelmente preserva a capacidade hormonal e não interfere na minha vida sexual, na capacidade física e muito menos na virilidade do homem. (Carlos* [nome fictício], 32 anos, professor)

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