Tóquio, investimentos e prioridades

luiz teles
28.01.2020, 05:00:00
Atualizado: 28.01.2020, 11:15:44

Tóquio, investimentos e prioridades


O Correio oferece acesso livre a todas as notícias relacionadas ao coronavírus. Entendemos que informação séria e confiável é importante nesse momento. Colabore para que isso continue. Assine o Correio.


Por meio de direcionamento de verba de impostos, patrocínios de empresas estatais, bolsas e programas das Forças Armadas, o ‘dinheiro público’ é o maior investidor do esporte olímpico brasileiro: foram R$ 3,8 bilhões injetados no quadriênio para a Rio-2016. Contudo, sem o atrativo e a ‘obrigação’ dos Jogos em casa, o país reduziu quase pela metade esse valor, e COB, confederações e atletas viram a receita minguar para cerca de R$ 2 bilhões neste novo ciclo, segundo levantamento do Globoesporte.com publicado no último dia 5.

Como a formação de atletas e a consequente obtenção de resultados são projetos de longo prazo, a performance do Brasil na Tóquio-2020 não deve ser afetada pela queda, e talvez até melhore, devido a estreias do surfe e do skate, onde o país vai muito bem. 

O ponto, entretanto, é que a nossa frágil política esportiva aponta para um futuro nada promissor. E nem vou colocar nessa conta o fisiologismo e a corrupção nas mais diferentes esferas esportivas do país, do COB à mais pobre federação da mais modesta modalidade. 

O fato é que jamais o tema do esporte foi tratado pelos governos (federal, estaduais e municipais) como deveria ser: uma questão de saúde pública, com investimentos consistentes e estratégicos no esporte-educação (escolar) e no esporte-participação (lazer). Quase 90% dos R$ 3,8 bilhões do quadriênio da Olimpíada do Rio foram aplicados no esporte de alto rendimento, o topo da pirâmide.

Enfim, já há um bom tempo, o que fazemos é vitaminar os bons atletas que já temos, sem muito trabalhar para que a base de talentos cresça e se qualifique. As leis de incentivo que ajudam a financiar o esporte de alto-rendimento, as bolsas e os programas das Forças Armadas são importantes e necessárias, mas negligenciar a base é um pecado, uma burrice, e nosso sonho de ser uma potência olímpica hibernará enquanto não tivermos atletas em abundância (como ocorre com o futebol). Lembrando que a ONU, por meio da Unesco, já apontou em um estudo divulgado no início da década de 1990, que para cada dólar gasto no esporte de base, três deixam de serem dispendidos na saúde.

E como esta coluna pretende ser um espaço para destacar o esporte olímpico na Bahia e no Nordeste, vale a pena fazer aqui um questionamento para contextualizar: por que apenas 18% das escolas públicas no estado têm quadras esportivas (o número nacional é também vergonhoso: 25%), segundo o INEP? E não vamos nem entrar aqui na seara da qualidade desses equipamentos e da condição oferecida aos professores de educação física.

Qualquer potência esportiva tem no esporte escolar - quase sempre de acesso gratuito - sua fundação. E assim, é incrível pensar na quantidade de excepcionais atletas baianos com chances reais de medalhas olímpicas em Tóquio. Isaquias Queiroz, na canoagem, Beatriz Ferreira, no boxe, e Ana Marcela, na maratona aquática, são favoritos ao pódio em suas modalidades.
 
Voltarei aos nomes deles e de outros fenômenos locais nas próximas colunas, mas por hoje fica a mensagem de que formar um atleta no Brasil, mais especificamente na Bahia, nas condições oferecidas por governos, federações e confederações, é algo inacreditável. Motivo triplicado para torcer por nossos heróis em julho e se emocionar ainda mais com suas conquistas.

Luiz Teles é jornalista e escreve às terças-feiras.

***

O CORREIO entende a preocupação diante da pandemia do novo coronavírus e que a necessidade de informação profissional nesse momento é vital para ajudar a população. Por isso, desde o dia 16 de março, decidimos abrir o conteúdo das reportagens relacionadas à pandemia também para não assinantes. O CORREIO está fazendo um serviço de excelência para te manter a par de todos os últimos acontecimentos com notícias bem apuradas da Bahia, Brasil e Mundo. Colabore para que isso continue sendo feito da melhor forma possível. Assine o jornal.


Relacionadas
Correio.play
https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/cronista-da-velha-sao-salvador-riachao-imprimiu-marca-pessoal-no-samba/
Cantor e compositor morreu na madrugada de segunda-feira (30), aos 98 anos
Ler Mais
https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/com-musica-dedicada-a-babu-baco-exu-do-blues-lanca-novo-album/
Com 9 músicas, incluindo faixas com críticas a Bolsonaro, EP foi disponibilizado nesta segunda-feira (30)
Ler Mais
https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/itau-cultural-lanca-webserie-gratuita-sobre-preconceito-violencia-e-desigualdade/
Nos primeiros episódios, Novo Mundo traz depoimentos de pastores evangélicos e é opção de reflexão nos dias de quarentena
Ler Mais
https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/salvador-unida-das-janelas-moradores-cantam-parabens-para-salvador/
O CORREIO convidou e soteropolitanos confinados aderiram ao aniversário coletivo de 471 anos da capital
Ler Mais
https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/gusttavo-lima-quebra-recorde-do-youtube-com-live-direto-de-sua-casa/
Foram 5h de show, 750 mil acessos simultâneos e 10 milhões de visualizações
Ler Mais
https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/coronavirus-sindico-instala-pia-na-entrada-de-predio-para-ajudar-vizinhos-idosos/
Espanhol radicado na Bahia decidiu ajudar na higiene no prédio que é síndico em Salvador
Ler Mais
https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/a-fe-nao-costuma-faia-como-manter-a-religiao-em-isolamento/
O amparo na religiosidade é a salvação para muitos soteropolitanos; tecnologia é aliada
Ler Mais
https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/janelas-da-quarentena-do-dj-ao-saxofone-vizinhos-transformam-isolamento-em-uniao/
Baiano é outro nível... Nos últimos dias, movimento tomou conta de Salvador: tem até Carnaval dentro de casa; confira
Ler Mais