'Traição acontece todo dia', diz maestro de Chico Buarque

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26.12.2018, 06:00:00
Atualizado: 26.12.2018, 17:31:54
(Foto: Léo Aversa/Divulgação)

'Traição acontece todo dia', diz maestro de Chico Buarque

Luiz Cláudio Ramos fala sobre música polêmica que está no show Caravanas, lançado em DVD e CD duplo

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“Quantas mulheres largam os maridos por causa de paixões?”, questiona o maestro, músico e diretor musical Luiz Cláudio Ramos, 69 anos, braço direito de Chico Buarque, 74. A provocação vem em resposta à polêmica em torno do último disco do cantor, Caravanas (Biscoito Fino), que deu o que falar ao retratar um homem disposto a largar “mulher e filhos” para ficar com a amante. O pontapé da discussão nacional foi dado pela colunista do CORREIO, Flavia Azevedo, que chamou a letra da música Tua Cantiga de “amor datado”.

“Chico, como poeta, reflete a vida. E isso é uma coisa tão natural, que acontece todo dia e tantas vezes. É a paixão que cega as pessoas mesmo”, defende Luiz Cláudio, sobre a traição retratada no disco vencedor do Grammy Latino em duas categorias e que acaba de ser lançado em DVD e CD duplo. “Não é uma coisa única, de gênero. Acontece toda hora”, garante o músico que acompanha o processo criativo de Chico há quase cinco décadas.

Como muita gente sabe, faz tempo que o cantor seleciona as poucas entrevistas que vai dar durante a divulgação de um trabalho, afinal “Chico é muito solicitado e se fosse fazer tudo o que as pessoas esperam dele, não ia viver mais”, explica o maestro com bom humor. Já que nessa última turnê o artista optou por não dar entrevista nenhuma, coube a Luiz Cláudio falar pelo ícone da MPB que apresentou a turnê Caravanas em Salvador, em maio.

Tímido e tranquilo
Ofuscadas pela magnitude da obra de Chico, as pessoas esquecem que o cantor “sempre foi uma pessoa muito retraída e tímida”, lembra Luiz Cláudio. “Foi nesse último show que ele se assumiu mais como artista e se soltou como intérprete”, observa o diretor musical sobre a performance que pode ser vista no DVD. Minimalista e com poucas interrupções, Chico interpreta 28 músicas, incluindo as nove do último álbum e sucessos como Geni e o Zepelim, Futuros Amantes e Paratodos.

O artista conversa com o público em momentos pontuais como quando explica a origem da música Massarandupió, feita em parceria com o neto Chico Brown, 21 anos, filho de Carlinhos Brown e Helena Buarque.

“Massarandupió é o nome de uma praia na Bahia onde meus netos, quando eram bem pequenos, passavam o Verão e onde a minha filha enterrou o cordão umbilical do meu neto Chiquinho”, revela o cantor no DVD.

Marcado por um elegante jogo de luzes, o show Caravanas passa longe da pirotecnia. O cenário é assinado por Hélio Eichbauer, que morreu em julho, aos 76 anos, e também foi responsável pela cenografia do show Ofertório, de Caetano Veloso com os filhos. “Foi um dos últimos cenários do Helio, um superartista. Foi um privilégio”, destaca a diretora geral do DVD, Joana Mazzucchelli, 45 anos.

O show Caravanas tem cenário de Helio Eichbauer (Foto: Lé Aversa/Divulgação)

A simplicidade dá espaço para aparecer um Chico à vontade, que às vezes brinca com quem está ao redor, e na maior parte do tempo se concentra em cantar. Algo parecido com o que se vê nos bastidores do show. “O Chico fica na dele, cumprimenta todo mundo e sempre começa com ‘e aí?’. É supereducado, sem estresse”, lembra Joana.

Apesar da cordialidade, a diretora conta que sentiu, em alguns momentos, como se estivesse invadindo o espaço do outro. Afinal, “todo mundo se conhece há muito tempo” e é “muita responsa”, explica. “Você entra em um lugar em que está todo mundo no clima ‘lá em casa’, sabe? Éramos intrusos. Mas fomos muito bem recebidos, foi muito bom”, lembra Joana.

Questionada se houve algum pedido especial de Chico durante as gravações, Joana conta que nada muito especial, apesar de um comentário ter ficado marcado em sua mente. “Contei a ele que trabalho muito com o Zeca Pagodinho e ele falou uma vez: ‘sabe por que gosto de você? Porque você não me enche o saco’”, conta Joana, rindo. “Gostei do comentário, porque é mais ou menos isso’”, lembra bem-humorada.

Caravanas Ao Vivo
Artista: Chico Buarque
Direção geral: Joana Mazzucchelli
Direção musical: Luiz Cláudio Ramos
Gravadora: Biscoito Fino
Preço: R$ 53 (DVD) e R$ 56,10 (CD duplo)

Leia a entrevista completa com o maestro, músico e diretor musical Luiz Cláudio Ramos

Chico Buarque e Luiz Cláudio Ramos trabalham juntos desde a década de 1970 (Foto: Divulgação)

Caravanas levou dois prêmios no Grammy Latino (melhor álbum de música popular brasileira e melhor canção em Língua Portuguesa). Como foi a repercussão entre vocês?
É sempre muito gratificante receber esses prêmios, todo mundo ficou muito feliz. O Chico, inclusive.

Em entrevista, Chico afirmou que a música Caravanas “é como atravessar uma rua para tentar dialogar com o Brasil de hoje”. Você concorda?
A música representa um retrato da atualidade, retrato fiel de como as coisas acontecem aqui no Rio: essa divisão de classes que a gente não sabe o que vai acontecer. É um retrato do Brasil.

Você e Chico trabalham juntos há muito tempo. Como acontece essa parceria no dia a dia?
Trabalho como produtor desde 1989 e como músico desde o início dos 1970. Então minha relação musical com ele sempre foi muito positiva, a gente tem uma cabeça parecida na questão musical, uma forma de encarar a música parecida e é a razão pela qual estamos juntos há tanto tempo.

O que te move?
A música. Sou ligado diretamente à musica, sou um músico obsessivo. O Chico é musico durante certo tempo e depois é escritor. Ele se dedica durante um período, fecha o compartimento da música e abre o do livro. Eu, não. Sou músico 24 horas por dia, todos os dias. É uma coisa instintiva, animal, porque você não escolhe muito ser músico. Quando a gente vai amadurecendo é que vai vendo as pedras nos caminhos. Porque ser músico não é fácil, tem um lado atlético até que não é fácil.

No texto de divulgação do CD/DVD Caravanas, é destacado que “não há oposição entre o Chico poeticamente político e o Chico poeticamente lírico”. Você concorda?

Viver é uma atitude política. Até pela omissão, né? Acredito que as pessoas devem se preocupar com política, porque faz parte da vida de cada um.

Tenho também um acompanhamento político, porque sou daquela geração da ditadura, das passeatas, sempre fui ligado com as pessoas mais progressistas, tenho essa visão social.

Pode nos contar um pouco sobre seu processo criativo?
Tem muito trabalho. Muita gente acha que fazer arranjo é uma coisa técnica, mas tem um lado criativo muito importante. Fiz muito isso no início da carreira, mas o arranjo, para ser bem feito, precisa de tempo para amadurecer.

Ainda mais com músicas elaboradas como as do Chico. Primeiro tem que compreender a música, ver os caminhos. E os discos do Chico, em geral, demoram muito tempo para serem feitos. Primeiro a gente grava a base e no fim do processo a gente coloca as orquestras, os metais etc. O arranjo é feito durante esse tempo todo e o objetivo é deixar o intérprete o mais à vontade possível.

É uma troca, né?
Além dessa afinidade que tenho, existe uma troca muito honesta, porque na mesma medida em que eu ajudo o Chico nesse processo todo, ele me dá condições de evoluir dentro do meu trabalho. Essa troca é muito honesta, muito sincera.

Alguma história te marcou, ao longo desses anos?
São muitas histórias e longas temporadas de shows. Pelo menos um ano em cada temporada desses últimos quatro ou cinco discos, ou seja, desde o Paratodos (1993) que foi o primeiro disco que eu assumi totalmente. Então são anos muito intensos de trabalhos, de viagens, de lugares, de muitas lembranças. Essa última temporada possivelmente tenha sido das mais felizes, porque foi muito emocionante. Ao mesmo tempo que é uma responsabilidade muito grande, tem uma gratificação muito grande.

O Chico, nesse último show, se assumiu mais como artista, porque sempre foi uma pessoa muito retraída, muito tímida. Se soltou mais como intérprete.

Eu também tive muita dificuldade de me assumir como músico, não tenho uma estrutura acadêmica, sou autodidata e com poucas referências de professor. Até certo ponto da minha carreira, não sabia o que estava fazendo ali. Isso acontece muito com as pessoas. O Chico também não teve estrutura acadêmica nenhuma, ele desenvolveu pelas vivências.

Por que fugir da pirotecnia, no show?
Isso depende muito de cada artista. Tem cantor para quem a música não é tão importante e a pirotecnia é mais importante. Tem também a música pela música, a pessoa sozinha que vem, senta ali e passa uma hora e meia tocando. O Chico está mais nessa história da música como arte. É uma plateia mais consciente.

Como aconteceu a seleção do repertório do DVD?
No disco foram nove músicas, mas o show tem 30 e poucas. A composição é o Chico que faz e todo mundo dá palpite, mas é ele quem monta o roteiro. É uma coisa que ele sempre fala que gosta de fazer. A gente trabalha em cima das músicas que entram, saem, ou vão para o ‘banco’, que é como a gente fala. A gente ensaiou durante um mês e foram 30 e poucos ensaios. Nesse processo acontece de tudo.

Já no release de divulgação do CD/DVD se fala da ‘não concessão’ de Chico em dar entrevista. O que você, que está próximo a ele, tem a dizer sobre isso?
Chico é muito solicitado, se fosse dar todas as entrevistas e fazer tudo o que as pessoas esperam dele, não ia viver mais. Então, com o tempo foi selecionando as entrevistas e nessa última temporada escolheu não dar.

Quando foi lançado, o disco Caravanas deu o que falar por causa da música Tua Cantiga, que retrata um homem disposto a largar “mulher e filhos” para ficar com a amante. Qual é sua opinião sobre isso?

Entendi muito essa postura, porque o Chico, como poeta, reflete a vida. E isso é uma coisa tão natural, que acontece todo dia e tantas vezes. É a paixão que cega as pessoas mesmo. E quantas mulheres largam os maridos por causa de paixões? Não é uma coisa única, de gênero, acontece toda hora.

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