Três hospitais de Salvador registram infecções por bactéria super-resistente

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10.05.2022, 22:12:00
Enterococcus é a bactéria super-resistente encontrada em hospitais de Salvador (Divulgação)

Três hospitais de Salvador registram infecções por bactéria super-resistente

Casos foram identificados em pacientes entre janeiro e março deste ano; entenda os riscos

Entre janeiro e março deste ano, casos de pacientes infectados por bactérias super-resistentes foram registrados em três hospitais de Salvador. Em abril, a Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab), emitiu nota técnica com o alerta para o risco de disseminação do microrganismo enterococcus (na imagem abaixo), que é resistente ao antibiótico vancomicina, em unidades hospitalares. A secretaria não informa quantas pessoas foram infectadas no total e nem quais foram os hospitais. Também não há informações sobre pacientes infectados com enterococcus resistente fora da capital. 

O conhecido alerta feito por médicos frequentemente para que as pessoas evitem tomar antibióticos sem necessidade porque isso pode ajudar no desenvolvimento de super bactérias é justamente o que explica a cepa de enterococcus resistente à vancomicina. As bactérias são capazes de burlar a eficácia do antibiótico, o que implica na diminuição de opções de medicamentos para tratar infecções graves. 

Em 2019, quatro unidades hospitalares também registraram infecções deste tipo em Salvador. A Sesab, no entanto, não informa quantos pacientes foram atingidos na época e nem quais foram as unidades de saúde. Infecções desse tipo não costumam acometer pessoas saudáveis e sim as que já estão internadas, de acordo com o infectologista Fábio Amorim.

Este tipo de bactéria tem grande potencial de disseminação em unidades de saúde porque apresenta resistência a remédios que tratam doenças causadas por micróbios em geral, como explica o infectologista Antônio Bandeira. “Essa resistência ao antibiótico aponta que a bactéria é frequentemente resistente a muitos antibióticos e esse [vancomicina] é um dos principais usados no tratamento. Além disso, o gene pode ser rapidamente transmitido para outras bactérias, o que pode gerar um surto em unidades hospitalares”, diz o médico. 

Intubação
O risco é maior para pacientes internados e com acessos [como cateteres para colocação de soro ou medicamento intravenoso] ou intubados. “Todo paciente dentro do hospital já está enfraquecido. Se essa bactéria ainda causar infecção hospitalar, como frequentemente causa, vai debilitar ainda mais quem já está fragilizado”, destaca Antônio Bandeira. 

A enterococcus pode ser responsável por infecções em diversas partes do corpo, tais como endocardite (que acomete as válvulas do coração), trato urinário e abdômen. Por isso, são consideradas bactérias ‘oportunistas’. “Muitas vezes, a infecção se associa à colonização dos cateteres por bactérias, então pode haver uma infecção pela corrente sanguínea ou elas podem colonizar o cateter urinário e a pessoa ter uma infecção urinária grave", diz Bandeira.

Caso a infecção ocorra através do sangue, o quadro pode se agravar para sepse. Isso significa que a bactéria invade diversas partes do corpo, transportada pela corrente sanguínea. O infectologista Fábio Amorim ressalta que como o microorganismo é resistente ao seu principal tipo de tratamento, o antibiótico vancomicina, as opções ficam reduzidas. 

“O risco é pelo fato do paciente estar infectado com um agente patogênico que pode levar a infecção nos mais diversos sítios, como pele, pulmão, coração, rins e ossos e ainda ter restrição nas opções terapêuticas”, explica o médico. 

Outras opções de antibiótico que podem ser utilizados em caso de resistência à vancomicina são a daptomicina e a linezolida. Sendo que uma caixa do último, com 28 comprimidos, pode chegar a custar R$ 6.700, de acordo com a plataforma Farmaindex. O site realiza pesquisas e compara diversos tipos de medicações e foi criado em março de 2020. 

Cuidados

Os micro-organismos multirresistentes do tipo enterococcus foram considerados como alta prioridade para vigilância pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2017. Por isso, o alerta de infecções deste tipo é importante para que hospitais e unidades de saúde tomem medidas para evitar surtos. 

Entre as medidas indicadas pela Sesab estão: o isolamento do paciente infectado em quarto privativo, implementação de procedimentos padronizados de limpeza e desinfecção, manter equipamentos de uso exclusivo para pessoas infectadas e a realização de cultura de vigilância ativa para investigar possíveis surtos. A desinfecção de superfícies é importante porque os enterococcus podem sobreviver nesses locais por longos períodos. 

Para pessoas saudáveis visitem internados, o infectologista Antônio Bandeira afirma que não existem critérios de proteção definidos. “Para as pessoas em nível individual, não há muita recomendação. Na verdade, é algo mais referente à gestão hospitalar”, afirma. 

Apesar disso, a Sesab recomenda a lavagem correta das mãos sempre que possível. 

Pandemia pode ter contribuído para cepas mais resistentes 

Longas internações causadas pela covid-19 durante a pandemia podem ter favorecido o desenvolvimento de resistência das bactérias aos antibióticos, explica uma nota técnica da Sesab. Muitos pacientes que tiveram a infecção do novo coronavírus precisaram ser internados em Unidades de Tratamento Intensivo (UTI) e utilizaram dispositivos invasivos como intubação, ventilação mecânica e cateteres. 

“Todos esses procedimentos propiciaram infecções bacterianas e o uso intensivo de antibióticos, o que pode ter favorecido a emergência desse tipo de cepa”, explica o médico Antônio Bandeira. Além disso, a Sesab pontua que as “dificuldades para a implementação de medidas de prevenção e controle de infecções" nas unidades de saúde do estado podem ter contribuído para a aparição dos casos. 

“A pandemia criou condições que favorecem a disseminação de microrganismos resistentes aos antimicrobianos nos serviços de saúde: aumento no número e no tempo de hospitalização dos pacientes com covid-19; pacientes graves com uso prolongado de dispositivos invasivos e assistência intensiva; redução do número de profissionais de saúde e aumento da carga de trabalho”, enumera a nota técnica.

*Com a orientação da subchefe de reportagem Monique Lôbo. 

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