Tudo o que você precisa saber sobre a volta às aulas em Salvador nesta segunda (3)

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03.05.2021, 05:30:00
(Foto: Valter Pontes/Secom)

Tudo o que você precisa saber sobre a volta às aulas em Salvador nesta segunda (3)

Dinâmica escolar exige protocolos diferentes e específicos. Confira as regras e os desafios do ensino presencial na capital

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No retorno ao ensino presencial na capital baiana nesta segunda-feira (3), o assunto da primeira aula dos estudantes será o combate ao coronavírus nas instituições de educação. Algumas regras universais de cuidados já são bem conhecidas — como distanciamento e uso de máscaras —, mas, a dinâmica escolar exige protocolos bastante específicos para evitar contaminação. O retorno é opcional aos estudantes e, por enquanto, ele será híbrido, com aulas em sala em dias alternados durante a semana. Confira a seguir o detalhamento das regras para o ensino semipresencial.

As mudanças na antiga rotina incluem alterações na forma de entrada e saída da escola, na permanência em sala de aula e no uso de banheiros, bebedouros e áreas comuns, como refeitório, elevadores, corredores, entre outros. A princípio, escolas de tempo integral deverão funcionar em tempo parcial até que as condições de distanciamento permitam o retorno da dinâmica normal.

De acordo com o plano de retomada das atividades elaborado pela Secretaria Municipal de Educação (Smed), entre as estratégias adotadas para reduzir os riscos de transmissão está a redução do tempo de recreio, que deverá ser intercalado entre as turmas. Além disso, a merenda escolar deverá ser servida na sala. Nesta retomada, os alunos devem ficar a uma distância mínima de 1,5 metro uns dos outros. O uso de máscaras é obrigatório para que o aluno receba autorização para entrar na escola, exceto estudantes com autismo.

Diretora de uma escola municipal de educação infantil no Calabar, Kelle Gentil explica que as crianças de 2 e 3 anos que antes estudavam em período integral frequentarão todos os dias de aula, mas em turnos divididos de 10 alunos pela manhã e 10 pela tarde. Já os alunos de 4 e 5 anos estudarão em rodízio. Na primeira semana, um grupo vai na segunda, quarta e sexta e o segundo grupo vai na terça e quinta. Na semana seguinte, inverte-se os grupos, sempre com apenas 10 alunos em sala. Por lá, duas turmas retornam nesta segunda.

Nos primeiros dias desse retorno, a escolinha de 235 alunos pretende fazer um trabalho de orientação com as famílias, pois os protocolos são muitos. Na última semana, a instituição fez a Semana do Acolhimento, onde algumas famílias puderam visitar a escola e verificar a parte estrutural adaptada para essa retomada. Nos grupos de WhatsApp também foram enviadas as cartilhas oficiais para que os pais se apropriem das regras e conheçam os procedimentos que serão necessários.

“Mas sabemos que nem todo mundo é leitor, então o treinamento, em parte, terá que ser olho no olho”, diz. 

A escolinha também planeja dividir os pais em grupos e fazer uma anamnese, que consiste numa ficha de entrevista que os responsáveis deverão preencher antes do início das aulas, explicando como é a dinâmica em casa, processos alérgicos e preferências, para poder atender todos da melhor maneira.

Conforme protocolo da prefeitura, na chegada da escola será medida a temperatura dos funcionários e alunos. Aqueles que apresentarem resultado igual ou maior do que 37,5º não poderão entrar, serão direcionados para atendimento em posto de saúde. Antes de entrar, todo mundo deverá limpar as mãos com água e sabão ou álcool a 70%. Cada escola deve organizar as entradas e saídas de acordo com o seu porte, estabelecendo horários e sinalizações, para ter melhor controle e não promover aglomerações nestes fluxos. Será proibido o acesso de pais ou responsáveis nas escolas. Ao deixar e buscar os filhos, os responsáveis também devem respeitar o distanciamento de 1,5 metro entre os alunos.

Em sala de aula
As escolas devem limpar mesas, cadeiras, pisos e portas a cada turno com água sanitária. As carteiras em sala devem ter um distanciamento mínimo de 1,5m entre os indivíduos. Os assentos devem ser demarcados para cada estudante para possibilitar uma rastreabilidade. As janelas devem ficar sempre abertas para viabilizar renovação do ar, garantindo ambiente arejado. Brinquedos e materiais de uso comum, em salas de aula, devem ser higienizados a cada uso e é recomendado evitar levar brinquedos pessoais, sendo sempre preferível atividades recreativas ao ar livre.

Mãe de um garotinho de 5 anos, a diarista Izabela Conceição ainda não sente segurança em mandar o pequeno de volta à escola. Conhecendo o comportamento do filho, sabe que ele não consegue entender o uso correto da máscara e sente necessidade de abraçar.

“Eu evito ir para shopping, ir para os lugares porque não dá, ele põe a mão na boca”, diz a mãe.

Por conta disso, ela prefere esperar até o próximo ano, já que conseguiu um reforço escolar para a criança com a sua vizinha. Ela só pretende mandar para o colégio o filho mais velho, de 13 anos, que não está muito feliz com a condução das atividades remotas. 

“Ele não conseguiu assistir nenhuma aula pela televisão. Eu me sacrifiquei, comprei uma televisão nova e umas quatro antenas, mas não pegou o sinal de jeito nenhum. Ele me implorou para ir para escola particular, mas com essa pandemia eu não tenho condições. Sou muito preocupada com a educação dos meus filhos e eu acho que ele está preparado para esse retorno. Educação é essencial na vida da pessoa e é triste ver meu filho dentro de casa sem fazer nada, desesperador”, narra ela.

Nas áreas comuns: bebedouro, refeitório e banheiro
Para preservar a segurança dos estudantes, os colégios precisam garantir vasos sanitários limpos, higienizando diariamente, duas vezes para cada turno de ensino. As portas não devem ter travas para facilitar a abertura com os cotovelos. Os alunos e profissionais devem higienizar as mãos com frequência. A utilização dos mictórios e vasos sanitários deve estar condicionada a utilização de um usuário por vez. Os basculantes e janelas devem ficar sempre abertos. Atividades nas quadras poderão ser realizadas, desde que mantido o distanciamento e estão proibidas atividades coletivas que exigem proximidade. 

As áreas compartilhadas como corredores, elevadores, banheiros, maçanetas, corrimãos, relógio de ponto, portas, refeitório, pisos e estacionamentos devem ser higienizadas a cada três ou quatro horas, se possível. As escolas devem garantir que as portas permaneçam abertas ou encostadas para reduzir o contato com as maçanetas. Será proibido o uso de bebedouros com esguichos. Alunos, professores e demais funcionários serão orientados a usar copo individual ou descartável para pegar água nos bebedouros, devendo evitar o contato de copos e garrafas com o bico ejetor do equipamento. 

Cartazes deverão ser afixados ao lado dos bebedouros com orientações para higienização das mãos antes de manuseá-los, inclusive com álcool 70% disponível próximo ao local. Foi recomendado que as escolas que puderem utilizem os seus recursos de capital para comprar o equipamento do tipo industrial, com duas ou três torneiras. Os bebedouros devem ser higienizados uma vez por turno. 

Também foi determinado que, no acesso aos locais comuns, deve haver marcador de chão, orientando o sentido do fluxo de entrada e saída, principalmente onde há maior movimentação de pessoas. As superfícies que são tocadas por muitas pessoas regularmente, tais como mobiliário escolar, grades, mesas de almoço, equipamentos esportivos, puxadores de portas devem ser higienizadas, no mínimo, três vezes por turno.

As instituições que têm elevadores só podem ser usados ao mesmo tempo por, no máximo, 30% de sua capacidade e com demarcação no piso do local onde cada um deve permanecer. A utilização deve ser evitada, a não ser para o deslocamento de materiais e produtos, e nos casos de alunos e funcionários com dificuldades de locomoção. Os botões externos e internos devem ser isolados com capa plástica ou filme PVC, que precisam ser higienizados regularmente.

Refeitório
Em relação à manipulação e entrega de alimentos, a prefeitura recomenda que seja reduzido o número de alunos por mesa, separando-os nos casos em que não seja possível servir a merenda individualmente em sala de aula. Os talheres devem ser oferecidos diretamente aos estudantes, evitando deixá-los disponíveis para pegarem por conta própria. As merendeiras devem usar máscaras que precisam ser trocadas a cada 2h ou 3h. O acesso de pessoal autorizado deve ser feito apenas com a utilização de Equipamento de Proteção Individual (EPI).

A higienização das lanchonetes deve ocorrer a cada 3h ou 4h, sendo mais intensa nos balcões. As filas devem ter organização de 1,5 m de distância, com demarcação no chão. Escolas devem avaliar a possibilidade de as lanchonetes oferecerem kits de lanche prontos e individuais, a serem entregues nas salas para reduzir a circulação de alunos.

Trabalhadora rodoviária, Sandra de Souza, 45, diz que também não enviará o filho para a escola. Ela acaba de perder uma irmã para a covid-19 e diz que ainda está em choque, não tem coragem de colocar em risco o filho único de 15 anos, estudante do 9º ano da rede pública.

“A escola dele é muito abafada. Eu lutei até agora, nos protegendo em casa, e se eu coloco ele na escola agora e acontece alguma coisa com a gente? Eu não concordo. Para ter aula presencial, tinha que ter os profissionais todos vacinados, só isso vai evitar”, defende.


Resistêcia ao retorno
Grande parte dos professores de Salvador, tanto da rede pública quanto privada, tem rejeitado voltar ao trabalho antes da imunização completa da categoria. Em protesto no feriado do Dia do Trabalhador, no sábado (1), o sindicato que representa a categoria fincou 200 cruzes de madeira no Morro do Cristo, na Barra, como forma de representar o número de mortes de professores e professoras por covid-19 na Bahia. 

Até então, os trabalhadores da educação com mais de 40 anos seguem sendo vacinados com a 1ª dose. A entidade reivindica que o poder público mantenha o ensino remoto e invista na modalidade, ofertando estrutura adequada para as aulas online até a vacinação completa dos trabalhadores do setor. A Prefeitura de Salvador justifica que na capital todos os idosos com mais de 60 anos já receberam ao menos uma dose da vacina e, até o ínicio das aulas semipresenciais, 80% dos trabalhadores municipais da educação terão tomado a primeira aplicação. A administração municipal também distribuiu 33 mil chips de telefonia para que os alunos tivessem acesso à internet. 

“O fechamento das escolas apresenta um sério risco à educação, proteção e bem estar das crianças, além de agravar ainda mais as desigualdades em nossa cidade. Quero conclamar a todos os professores, pais e mães para esse retorno às aulas para termos condições de garantir o presente e futuro das crianças. Do contrário, poderemos comprometer três anos letivos”, pediu o prefeito Bruno Reis (DEM), na sexta-feira (30), ao divulgar os protocolos.

Colégios particulares como o Antônio Vieira e Sartre emitiram comunicados internos aos quais o CORREIO teve acesso. O Antônio Vieira informou que, desde o ano passado, os seus espaços estão adaptados física e tecnologicamente de acordo com as orientações sanitárias. A unidade havia reservado a última quarta, quinta e sexta-feira para que os professores passassem a ministrar as aulas diretamente das dependências da instituição, a fim de testar os equipamentos e corrigir eventuais falhas no uso destes para promover um retorno sem turbulência neste quesito. 

No entanto, professores da rede particular de ensino acataram o pleito do sindicato próprio de só retornar após a vacinação completa e não compareceram para o período de testes. O colégio não compreendeu, já que a ideia foge da justificativa do pleito original, porque estas aulas iniciais de preparação serão dadas sem alunos em sala de aula. “Ante o exposto, o colégio reafirma sua programação de retorno às aulas presenciais a partir de segunda-feira (3), contando com a presença de seus docentes, excetuando-se, apenas, aqueles que se encontram devidamente enquadrados como nos grupos de risco”, informou a instituição.

A Escola SEB, do grupo Sartre, comunicou no sábado que fará o retorno escalonado separando suas turmas de ensino médio e fundamental por grupos chamados de “Bolha A” e “Bolha B”, respeitando a decisão das famílias que optarem por manter seus filhos na modalidade de ensino não presencial. A transmissão das aulas em tempo real atenderá este público que optarem por permanecer em casa e aos alunos integrantes da outra bolha. O colégio fez uma reunião prévia com os responsáveis para apresentar os protocolos e prometeu enviar segunda-feira a distribuição dos alunos de cada bolha.

“Estamos confiantes e preparados. Sabemos que podemos contar com a parceria das famílias e a colaboração dos alunos. Estamos amparados pela experiência da Consultoria Einstein e mantemos olhar atento a cada detalhe de todo esse processo de reconstrução da convivência diária que faz tanto bem a nossos jovens”, afirmaram.

Estudante do 9º ano do Colégio Municipal Professor Cláudio Veiga, em Cajazeiras, Juliana Souza de Santana, de 16 anos, disse que até então não recebeu nenhuma recomendação da direção e que, a princípio, seus pais não querem que ela frequente as aulas e prefere ver como serão os primeiros dias de funcionamento desta modalidade para conferir se será segura. Até onde ela soube, será necessário comparecer na escola na segunda para saber quais serão as orientações. 

“Eu acho melhor voltar às aulas presenciais mesmo. Muitos colegas meus não estão tendo a oportunidade de aprender, apesar de os professores estarem ajudando muito. Mesmo quem tem acesso à internet, às vezes não entrega as atividades e, indo para a escola, existe uma responsabilidade maior. Acho que por sermos alunos mais velhos, temos essa conscientização de que não se deve ter um contato mais próximo com os colegas. Com o tempo, acho que pode acontecer, sim, um relaxamento, uma desobediência, mas vai ter uma vigilância dos funcionários do colégio, chamando atenção para colocar a máscara direitinho”, confia ela.

CONFIRA OUTRAS ORIENTAÇÕES DA SECRETARIA DE EDUCAÇÃO PARA O RETORNO PRESENCIAL:

Uso de máscaras

- Os alunos da Educação Infantil, de 0 a 5 anos, não serão obrigados a utilizar máscaras durante as aulas ou para acessar a escola. Deverão ser orientados, previamente, tanto pelas famílias e responsáveis, quanto pelos professores para que evitem o contato físico. Alunos com autismo também não são obrigados.

– As escolas devem fiscalizar a utilização de máscaras por todos os alunos, colaboradores e prestadores de serviços

– A comunidade escolar deve ser orientada a realizar a higienização das máscaras de tecido diariamente em suas respectivas residências.

- A realização de aniversários deve ser proibida nas unidades de ensino

Casos suspeitos

- O acesso de pessoas da comunidade escolar que, por ventura, tenham contato com casos suspeitos ou confirmados de covid-19 só será permitido após 10 dias de isolamento e somente após 24h sem sintomas tais como febre sem uso de antitérmicos e sintomas respiratórios (coriza, tosse e outros) ou mediante a apresentação de teste
negativo (RT-PCR) para a detecção viral. 

- Cada unidade de ensino deve estabelecer um local adequado e com atendimento ao distanciamento de 1,5m para que os alunos que apresentem sintomas de febre, ou temperatura superior a 37,5 ºC, aguardem até a presença do pai/responsável. Em caso de aferição de temperatura após atividade física ou exposição prolongada ao sol, deve se repetir o procedimento após 15 minutos. 

- A ocorrência de mais de um caso suspeito ou confirmado na mesma unidade de ensino em um período de 15 dias, a direção deve informar ao Distrito Sanitário que atende a região. A notificação deve ser registrada no formulário disponível no site do Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde de Salvador (CIEVS/SSA). Link: http://www.cievs.saude.salvador.ba.gov.br/notificacao-escolas-empresas/

– Casos confirmados de covid-19 deverão apresentar imediata suspensão das aulas presenciais daquela sala de aula ou sala administrativa, por até 10 dias, orientar os pais/responsáveis caso algum contato apresente sintomas, procurar uma unidade de saúde.

Transporte escolar

- Deverá ser garantido o distanciamento entre os alunos através de marcação nos assentos, além da higienização das mãos com álcool 70% no embarque
- O transporte escolar deve ser higienizado antes e depois do transporte dos alunos.

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