Turismo: as olimpíadas que mudaram a cara de Barcelona

agenda bahia
28.10.2015, 13:09:00
Atualizado: 05.07.2017, 17:29:24

Turismo: as olimpíadas que mudaram a cara de Barcelona

Considerada o caso de maior sucesso entre as sedes de grandes eventos esportivos, cidade espanhola soube aproveitar a oportunidade para se renovar

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Quando os Jogos Olímpicos de Barcelona começaram, em 1992, na Espanha, já dava para ter uma ideia de que algo grande estava acontecendo. Era a primeira vez, em cinco edições dos Jogos, que todos os comitês de países tinham enviado atletas à competição – a última vez tinha sido em 1972, nas Olimpíadas de Munique, na Alemanha.

Mas talvez pouca gente saiba que uma das maiores heranças do torneio foi ter ajudado a mudar a cara de Barcelona e a transformá-la no reduto turístico que é até hoje. Deve ser até difícil para os 8 milhões de visitantes que passam por lá anualmente imaginar que a capital da região da Catalunha já teve uma paisagem bem diferente – e nem tão atrativa.

Revitalizado para Olimpíadas, Porto de Barcelona é referência no turismo (Fotos: Divulgação)

Naquela época, a média de visitantes da cidade ficava em torno de 1,8 milhão por ano. Hoje, além de ser a mais visitada da Espanha (o quarto país que mais recebe turistas no mundo, de acordo com a Organização Mundial de Turismo), Barcelona consegue ameaçar a preferência dos visitantes de concorrentes de peso, como Paris, na França.

“Barcelona sempre foi uma cidade importante para a Espanha, mas estava abandonada e necessitava ser revitalizada. Algumas regiões estavam comprometidas, em função do abandono”, diz o professor da Faculdade de Ciências Econômicas da PUC de Campinas, Roberto Brito de Carvalho, autor de um estudo sobre o turismo em cidades que já sediaram as Olimpíadas.

Pontos fortes

Mas é claro que Barcelona também não era qualquer cidade. Lá, a indústria sempre foi bem desenvolvida. A própria localização também era uma condição favorável, na opinião do diretor para América Latina da filial da Agência Catalã de Turismo em São Paulo, Joan Romero.

“Estamos tocando a França e temos tanto o rio quanto o mar. Barcelona també sempre foi uma cidade inovadora arquitetonicamente, com as obras de Gaudí (Antoni Gaudí, arquiteto catalão morto em 1926). Se os Jogos Olímpicos nunca tivessem vindo, Barcelona ainda seria parecida com o que é hoje, porque sempre teve políticos muito criativos e sempre houve dinamismo. As Olimpíadas tornaram esse processo mais rápido”, pontua Joan Romero.

Sagrada Família, projetada pelo arquiteto catalão Antoni Gaudí, é uma das principais atrações

Só que, de fato, a infraestrutura ainda era bem distante do que é hoje. O porto e o aeroporto, por exemplo, pediam uma revitalização. Assim, o projeto olímpico começou a ser tocado. Na época, tudo custou 12 bilhões de euros. Para começar, o Porto de Barcelona foi reformado. “A cidade estava de costas para o mar, então abrimos para o mar com a renovação dele”.

Em 1992, 132 mil turistas chegavam à cidade em cruzeiros por ano. Hoje, são 2,3 milhões, e o equipamento se tornou o principal porto turístico da Europa.

Múltiplo uso

Além disso, os equipamentos construídos tiveram o conceito de “múltiplo uso” - desde os estádios até a vila olímpica onde os atletas ficaram hospedados. O Estádio Olímpico, hoje, serve para competições de atletismo e shows. Já a arena Palau Sant Jordi, que sediou esportes como basquete e handebol, tem, até o final deste ano, uma programação com shows de 29 grandes atrações musicais, incluindo importantes nomes da música internacional, como Madonna e Foo Fighters.

Construído para os jogos, Palau Sant Jordi agora abriga shows de astros do pop e rock mundial

Aos poucos, a reforma do aeroporto também se beneficiou do contexto que a Europa começou a viver naquele momento e nos anos seguintes: foi quando começaram a surgir e se consolidar as companhias aéreas “low cost” (de baixo custo), como a Ryanair (irlandesa) e EasyJet (britânica). Foi o momento de revitalizar espaços, como o Centro, valorizar imóveis e criar atividade turística, de acordo com Carvalho.

“Houve uma alavancagem diferente depois da Olimpíada, porque ela se tornou mais conhecida. Toda cidade que passa por esse processo, de receber um grande evento, acaba se tornando referência de destino”. Em contrapartida, houve um faturamento de R$ 34 bilhões no evento esportivo.

Os erros

Mas, ainda assim, nem tudo são flores – ou coroas de louros, como destaca a professora do curso de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia (Ufba) Any Leal Ivo. “Muitos autores e estudos mostram que a ‘Barcelona Olímpica’ é marcada também pela perversidade de processos de desapropriação, despejo e deslocamento, pelo aumento do custo de moradia, por políticas e legislações especiais e, ainda, por processos de higienização social, redução da transparência e participação, criminalização da pobreza, etc”.

O professor Roberto Brito de Carvalho também concorda que uma das consequências ruins para a cidade foi a especulação imobiliária. “De um lado, você tem um encarecimento e tem um problema muito sério, que é quando a cidade se torna ainda mais dependente do turismo. A tendência é que, com isso, ela se torne mais cara e quem mais sente isso é o morador, porque o turista está de passagem”, explica.

E, claro, não dá para abandonar os investimentos na infraestrutura após a realização do grande evento. Se Barcelona tivesse feito isso, provavelmente, não conseguiria competir pela preferência dos turistas com outras grandes cidades, na opinião de Joan Romero. “Barcelona é o exemplo de cidade que não para de melhorar. Os Jogos têm que ser vistos como uma ferramenta para abrir sua cidade para o exterior e criar infraestrutura, mas tem que ser feito um trabalho de seguimento”, diz.

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