'Vivendo de favor': o drama de quem só tem o auxílio-emergencial como renda

salvador
01.07.2020, 05:15:00

'Vivendo de favor': o drama de quem só tem o auxílio-emergencial como renda

Mais de 60% dos baianos depende do auxílio para sobreviver na pandemia

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A Bahia tinha, em maio passado, o segundo maior número de pessoas do país morando em residências em que alguém recebeu o auxílio emergencial do governo. Um total de 9,1 milhões de baianos de alguma maneira foram atendidos pelo benefício, segundo levantamento divulgado, ontem,  pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Isto significa que 6 em cada 10 pessoas no estado, ou 61,2% da população baiana depende do auxílio  para sobreviver. 

O único estado que ficou à frente da Bahia foi São Paulo, com 15,2 milhões de pessoas vivendo em domicílios atendidos pelo auxílio.  Os dados mostram ainda  que mais da metade das residências baianas receberam o auxílio em maio - 2,6 milhões de 4,8 milhões. Também é o segundo maior número absoluto, atrás apenas  de São Paulo. 

Depender do auxílio-emergencial não é cômodo pra ninguém. É o que garante o baleiro Jeferson Costa, 20, morador do bairro de San Martin e que só saiu de casa nos últimos três meses para comprar comida e resolver os problemas que enfrentou antes de receber a primeira parcela do benefício.

E ele tem um bom argumento para provar que não fala da boca pra fora: sua esposa está no nono mês de gravidez. A expectativa é de que em menos de 15 dias a pequena Elisa conheça o mundo.

"Hoje eu estou vivendo basicamente de favor. Como baleiro eu ficava odia todo fora e tinha dia de conseguir R$100. Às vezes conseguia fazer R$3 mil no mês e hoje tenho só R$600. Pense aí na dificuldade? Eu pago aluguel, tenho uma esposa grávida. É muito difícil, muito humilhante", conta.

Prestes a ser pai pela primeira vez, Jeferson enfrenta dificuldades para sobreviver apenas com o auxílio-emergencial (Foto: Acervo Pessoal)

A realidade dura vivida por Jeferson não é difícil de encontrar. Há muitos outros casos em Salvador, na Bahia, no Brasil. Uma feirante, que trabalha na Avenida Joana Angélica  e que preferiu não se identificar,  afirmou que tentou seguir a quarentena à risca nos dois primeiros meses, mas a situação apertou com o passar do tempo.

Mãe solteira de 4 filhos, um deles com deficiência mental e necessitando de tratamento contínuo, ela conta que já tinha algumas dívidas com o banco e que por isso decidiu voltar à rua para vender as frutas com as quais já tirava seu sustento.

"Não dá. Tudo ficou mais caro, com os meninos em casa a gente precisa gastar mais com alimentação, a energia sobe, tudo fica muito mais caro e mesmo recebendo o benefício não dá conta, sempre falta alguma coisa. Não é que a vida da gente fosse mil maravilhas antes dessa doença, moço, era muito difícil, mas pelo menos a gente botava a cara na rua pra bater e enfrentar os problemas. Com todo o mundo em casa fica um desespero, as coisas vão faltando e a gente sente culpa por ficar parado", conta.

Analista de dados do IBGE, Mariana Viveiros explica que essa nova pesquisa ratifica o que já tinha sido divulgado em um outro levantamento do instituto: quase três milhões de baianos tiveram o acesso ao mercado de trabalho dificultado pela pandemia no último mês de maio. O segundo pior índice do Brasil, mais uma vez atrás de São Paulo.

Mariana detalha que o comércio informal é responsável por empregar uma grande fatia de baianos e foi um setor muito abalado com a pandemia do coronavírus. Sem essa renda, a tendência é que as pessoas apelem para benefícios sociais, como o auxílio-emergencial do Governo Federal, para sobreviver.

"Devemos ver em uma nova pesquisa, que vamos divulgar em Agosto, o impacto que os trabalhadores informais estão sofrendo. A gente sabe que a informalidade é historicamente importantíssima no mercado de trabalho da Bahia. E a pandemia afeta diretamente esse trabalhadores e esse auxílio se torna necessário para que as pessoas possam minimizar os prejuízos econômicos", explica a analista

O auxílio emergencial é voltado aos trabalhadores informais, microempreendedores individuais (MEI), autônomos e desempregados. Em média, o auxílio ficou em R$ 885 por domicílio na Bahia - 13º maior entre todas as unidades da federação. Pelo número de residências atendidas, o estado teve o segundo maior valor destinado às famílias nesse combate aos efeitos da pandemia. Foram cerca de R$ 2,4 bilhões. Amapá (R$ 1.028), Amazonas (R$ 983) e Maranhão (R$ 979) tiveram os maiores valores médios por domicílio, em maio. 

Com o auxílio, o rendimento domiciliar per capita médio na Bahia aumentou 25,9% em maio, passando de R$ 628,70 para R$ 791,50. Ainda assim, é a quinta menor média entre os estados brasileiros.

O IBGE aponta ainda que cerca de 70% dos recursos do auxílio foram para domicílios com renda per capita de até R$ 374,90. Mas 1 em cada 5 das residências nas duas faixas mais baixas de renda (até R$ 70,70) não receberam o auxílio no mês passado, indica. 

São 907 mil domicílios baianos nessas duas faixas e 179,5 mil não receberam o auxílio no período. Neles vivem cerca de 476 mil pessoas não atendidas.

*com supervisão da subeditora Clarissa Pacheco

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