Oscar Valporto: brindes e esperança num boteco da Barra

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Publicado em 28 de outubro de 2015 às 02:35

- Atualizado há 10 meses

O carioca vê o bar levantando as portas e consulta o relógio para ver se já é meio-dia. O pai dizia que beber antes da manhã terminar podia ser sinal de alcoolismo. Mas, no Rio de Janeiro, horário brasileiro de Verão, já passaram das 12h. Também foi o pai que ensinou a lição enquanto via futebol na TV com o copo de batida de limão ao lado: ‘na Inglaterra, já passou do meio-dia’. E o calor dominical no calçadão da Barra exige uma cerveja.

Ela chega gelada e original, com sabor de quem passou um bom tempo trancada no lugar certo. E, como um bebedor de cerveja atrai outro, o carioca nem terminou de tomar a primeira quando um trio de tricolores desembarca em outra mesa. Estão quase uniformizados: o primeiro a sentar está com a clássica camisa branca; é seguido pelo colega que está com uma camiseta com BBMP estampado no peito. O terceiro, sem camisa, mas com o escudo e duas estrelas tatuados nas costas, vai direto no garçom. ‘Ô Baêa, traz uma gelada para a gente comemorar a volta para a Série A’.

O carioca não é Botafogo, mas conhece os torcedores alvinegros de sua terra o suficiente para saber que nem eles, mesmo depois de golear o Náutico e abrir cinco pontos para o Vitória, estão comemorando tanto o acesso. Mas a torcida do Esquadrão só precisa de uma fagulha para acender. O tatuado é o mais veemente: acredita que, se ganhar do líder sábado lá no Rio, o Bahia embala de vez e vai até o título. Para ele, o acesso, como já explicado ao garçom, está no papo. ‘Embalou, ninguém segura mais, véi’. A euforia - lembrando que eles acabam de pedir a segunda e, portanto, o álcool é inocente - é compartilhada pelo clássico que desenvolve a teoria de retomada do futebol do primeiro semestre. Saudosista, acha que, para o time ficar perfeito, só falta Pittoni voltar ao meio-campo. Passar o rival, inclusive, é questão de, no máximo, duas rodadas.

O BBMP é o mais comedido. Está preocupado com a suspensão de Kieza, capitão e artilheiro do time. Não que isso vá impedir a acesso que, como está constatado pelos copos se tocando, são favas contadas. Mas pode atrapalhar essa arrancada para ultrapassar o Vitória e alcançar o Botafogo. Propõe uma discussão: é melhor perder Kieza nos dois jogos mais difíceis contra o líder e o Santa Cruz quando é mais difícil somar pontos ou conseguir o tal efeito suspensivo e perder depois quando o Bahia pode garantir a classificação contra times mais fracos como ABC e Boa?

No calçadão democrático da Barra, o boteco está aberto a todas as torcidas. Os tricolores estão no meio da resenha Kieza e da segunda cerveja quando uma dupla rubro-negra ocupa a mesa ao lado do carioca, também a caminho de mais uma. O mais velho usa uma camisa de listras horizontais e o número 10 nas costas deve ser do tempo em que Ramon reinava na Toca. O mais jovem está de listras verticais, novinha, com 11 de Escudero. A pedida é a mesma: uma gelada, só muda a marca, mas também é fabricada pela supermultinacional brasileira.

Os rubro-negros também comemoram o acesso à Série A. O Leão vertical gosta de número: faltam seis jogos, duas vitórias garantem a volta à elite. É moleza. O Leão horizontal é mais cauteloso; ao carioca, lembra torcedores do Botafogo, aqueles que acreditam que há coisas que só acontecem com seu time. ‘Rapaz, nada é moleza nessa Série B’. Eles brindam à Série A e o vertical indica os tricolores da outra mesa que devem estar preocupados. No outro lado do boteco, entretanto, a presença dos rivais afasta o fator Kieza e alimenta a euforia.O carioca já prevê provocação quando passam duas moças de virar o pescoço, provocar trégua na batalha e secar as gargantas. ‘Outra gelada’ - pedem quase todos ao mesmo tempo para festejar a beleza, o sol e a esperança na volta à Série A.