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Rodrigo Daniel Silva
Publicado em 24 de janeiro de 2026 às 05:30
Amigos, outro dia, avistei, na minha estante, um livro que havia lido anos atrás: “Um país partido: 2014 – a eleição mais suja da história”, do historiador Marco Antonio Villa, que analisa o embate entre a petista Dilma Rousseff e o tucano Aécio Neves. Villa, é verdade, não desfruta de grande prestígio acadêmico. Ainda assim, para além da jogada de marketing estampada na capa da obra, fiquei a refletir: depois das eleições de 2018 e 2022, será que 2014 merece, de fato, o rótulo de mais suja da história? É difícil afirmar. >
O que parece incontestável é que, a cada novo ciclo, o nível do debate eleitoral desce mais um degrau. É possível até parafrasear uma frase do deputado federal Ulysses Guimarães: “Está achando suja esta eleição? Então espera a próxima: será pior. E pior, e pior”.>
Para 2026, o cenário se mostra ainda mais preocupante. Com o avanço da inteligência artificial e suas inúmeras possibilidades de manipulação, a tendência é de um pleito ainda mais contaminado. As campanhas estão proibidas de usar robôs para entrar em contato com os eleitores e há a exigência de que conteúdos produzidos por IA sejam expressamente identificados como tal.>
Mesmo assim, especialistas levantam dúvidas sobre a capacidade do Tribunal Superior Eleitoral de conter a avalanche de manipulações que deve marcar a próxima disputa. A Corte vai receber sugestões da sociedade e das plataformas digitais antes de definir as novas regras das eleições de 2026, com prazo até o dia 5 de março.>
A sujeira e as tentativas de manipulação de resultados eleitorais não são novidade na história do Brasil. O uso de fake news, inclusive, é bem mais antigo do que se imagina. Recentemente, completaram-se 100 anos da tentativa de derrubar a candidatura presidencial de Arthur Bernardes. >
No pleito de 1922, o jornal carioca Correio da Manhã, opositor da candidatura, publicou duas cartas fake atribuídas ao presidenciável. Em um dos textos, o candidato se referia aos militares como “essa canalha” e ao marechal Hermes da Fonseca, ex-presidente da República, como “sargentão sem compostura”. As cartas, mais tarde comprovadas como falsas, tiveram forte repercussão no meio político e sacudiram a campanha presidencial.>
Apesar disso, Arthur Bernardes venceu a eleição com 467 mil votos (60% do total), contra 318 mil de Nilo Peçanha (40%), em uma das disputas mais apertadas da Primeira República.>
Na Bahia, também existe um histórico de supostas fraudes e manipulações de resultados eleitorais. E, pelo que indica a pré-campanha, a eleição no estado, que já foi extremamente acirrada em 2022, promete ser ainda mais tensa neste novo ciclo. Nesta semana, por exemplo, uma pesquisa falsa atribuída ao AtlasIntel circulou nas redes sociais, na qual apontava a vitória em primeiro turno do governador Jerônimo Rodrigues. >
A existência do levantamento foi negada pelo próprio instituto. Até porque, desde o dia 1º de janeiro, todas as pesquisas de opinião precisam ser registradas na Justiça Eleitoral justamente para evitar que o eleitor caia em fake news.>
No livro ‘Brasil no Espelho’, o cientista político Felipe Nunes, diretor da Quaest, demonstra que uma parcela significativa dos brasileiros acredita em informações falsas. O dado vem de um experimento no qual quatro notícias falsas foram apresentadas aos entrevistados. O mais irônico é que aqueles que mais acreditaram nas fake news foram também os que mais superestimaram seu próprio nível de conhecimento ao responder perguntas verdadeiras sobre o Brasil.>
Diante disso, vale o alerta: até quem confia em suas bagagens culturais e informacionais deve redobrar a atenção às fake news no processo eleitoral deste ano. A avalanche de fake news está a caminho.>