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O que muda após Comissão do Senado aprovar projeto que altera regras de aborto legal de menores em casos de estupro

Texto aprovado na Comissão de Direitos Humanos exige boletim de ocorrência e laudo pericial; proposta divide opiniões no parlamento e gera forte oposição do governo federal.

  • Foto do(a) author(a) Matheus Marques
  • Matheus Marques

Publicado em 4 de junho de 2026 às 12:00

Menos de 1% das crianças vítimas de estupro na Bahia consegue fazer aborto legal
Menos de 1% das crianças vítimas de estupro na Bahia consegue fazer aborto legal Crédito: Pexels

A Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Senado aprovou um projeto de decreto legislativo (PDL) que altera os critérios para a realização do aborto legal no Brasil para menores de idade vitimas de estupro, estabelecendo novas exigências para o atendimento de vítimas de violência sexual no sistema de saúde.

O projeto altera o rito técnico unificado pelo Ministério da Saúde ao condicionar o procedimento à apresentação de boletim de ocorrência e à realização de exame de corpo de delito. O decreto foi aprovado em tempo recorde de 1 minuto e 42 segundos.

Justiça pode entender como estupro de vulnerável se vítima for menor de idade por Marcello Casal Jr./Arquivo/Agência Brasil

O tema avança no parlamento sob intenso debate entre bancadas que defendem o aumento do rigor na apuração dos crimes e setores que apontam riscos de restrição ao direito assegurado pelo Código Penal desde 1940.

Exigências dividem opiniões sobre o rito técnico no SUS

O núcleo da proposta aprovada transfere a validação do procedimento, que atualmente ocorre no âmbito clínico, para as esferas policial e jurídica. Pelo texto, hospitais da rede pública passam a exigir a documentação policial e pericial prévia para autorizar o atendimento cirúrgico ou medicamentoso.

Atualmente, as normas técnicas vigentes não condicionam o aborto legal à denúncia na polícia, utilizando como critério o relato da vítima ou de seus responsáveis legais às equipes de saúde.

A bancada defensora do projeto argumenta que as medidas trazem maior segurança jurídica aos profissionais de saúde e evitam fraudes na aplicação da lei. Por outro lado, parlamentares da oposição e entidades de direitos humanos sustentam que a imposição dessas barreiras administrativas pode ampliar o tempo de espera institucional de crianças e adolescentes vítimas de abusos.

O Ministério Direitos Humanos em nota, destacou ainda que a maior parcela dos registros de abuso contra vulneráveis ocorre dentro do ambiente doméstico, frequentemente praticado por parentes ou pessoas de confiança da família.

Sob essa ótica, a exigência do boletim de ocorrência imediato pode inibir as denúncias por receio de retaliações internas, agravando os índices de procedimentos clandestinos e a taxa de mortalidade materna entre meninas de até 14 anos, faixa etária que concentra o maior volume de gestações por estupro de vulnerável no país.

Medida vai na contramão de políticas de proteção, afirma ministra

A aprovação do projeto na comissão do Senado provocou reação imediata do Poder Executivo. Em posicionamento oficial, a ministra das Mulheres Janine Mello, manifestou oposição à proposta, afirmando que a medida caminha na direção oposta às políticas públicas de proteção à infância no país e aos tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário.

"A decisão do Parlamento caminha na contramão de um esforço conjunto e intersetorial do Governo do Brasil, dos conselhos participativos e da sociedade civil na promoção de políticas públicas que protejam nossas crianças e adolescentes", diz a nota da ministra.

De acordo com a avaliação divulgada pela pasta, submeter crianças e adolescentes vítimas de violência sexual a trâmites investigativos complexos para obter o atendimento de saúde configura um processo de revitimização.

Tramitação e articulação política no Congresso

O decreto aprovado na Comissão de Direitos Humanos e na câmara dos deputados não encerra a tramitação da proposta que agora vai a plenário, sem precisar passar pela sanção presidencial.

A movimentação de bastidores no Congresso Nacional sinaliza que a pauta permanecerá como um dos principais focos da política nas próximas semanas.

Enquanto frentes parlamentares ligadas a setores conservadores e religiosos articulam uma tramitação célere para enviar o texto à Câmara dos Deputados, parlamentares governistas e técnicos da área da saúde buscam construir emendas para flexibilizar as exigências nos casos que envolvam menores de idade e vulneráveis.

Tags:

Câmara dos Deputados Politica Senado Federal Aborto