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Matheus Marques
Publicado em 19 de março de 2026 às 21:06
O agravamento das tensões no Oriente Médio em 2026, marcado pela escalada de tensões com envolvimento indireto de potências e pela pressão sobre rotas marítimas vitais, passou a funcionar como uma espécie de "apólice de seguro" para o Kremlin. No exato momento em que o Ocidente desloca recursos e capital diplomático para conter uma escalada no Golfo, o governo de Vladimir Putin colhe dividendos imediatos.
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Dados citados pelo presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, apontam que a Rússia teria arrecadado cerca de 10 bilhões de dólares adicionais em um período de duas semanas, em meio à alta dos preços internacionais do petróleo. Trata-se de um oxigênio financeiro relevante, que ajuda a sustentar a máquina de guerra na Ucrânia, mesmo sob o impacto das sanções internacionais.
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Veja registros da guerra na Ucrânia
O ganho russo é, antes de tudo, matemático e oportunista. Com o aumento dos riscos às remessas no Golfo Pérsico, o petróleo do tipo Urals, que antes operava com descontos relevantes em razão das sanções e restrições impostas por países ocidentais, passou a registrar maior demanda e redução de descontos no mercado internacional.
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Pressionados pela iminência de um desabastecimento, países como a Índia mantiveram o fluxo de compras dentro das margens permitidas pelas sanções internacionais. Como resultado, o financiamento da ofensiva russa foi parcialmente preservado. Para líderes europeus, a Rússia surge como um dos atores que conseguem extrair vantagem direta da instabilidade no Levante, utilizando o choque energético para robustecer suas reservas fiscais. No entanto, analistas alertam que esse é um ganho de ocasião. Caso a crise no Golfo seja estancada, a receita extra russa pode evaporar, recolocando pressão sobre sua economia já limitada pelas sanções.
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Para a Ucrânia, a crise no Oriente Médio não é apenas um revés financeiro, mas um impacto relevante sobre a logística e o foco político. Sistemas de defesa aérea de última geração, como as baterias de mísseis Patriot, que originalmente seriam destinadas à frente ucraniana, passaram a disputar prioridade com demandas de segurança no Oriente Médio, voltadas à proteção de bases americanas e ativos aliados contra ameaças aéreas na região.
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Essa "fadiga da Ucrânia" nos parlamentos europeus e no Congresso americano foi intensificada, entre outros fatores, pela necessidade urgente de evitar uma escalada de conflito com impacto global no Golfo. Na prática, a resistência de Kiev passou a disputar espaço nos orçamentos militares. No xadrez global de 2026, ficou evidente que o tempo e a atenção diplomática são os recursos mais escassos, e a Rússia tem se mostrado capaz de explorar esse cenário.
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