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Publicado em 29 de março de 2026 às 12:00
Há mais mistérios sob as águas da Baía de Todos os Santos do que a nossa vã filosofia pode imaginar. Naquela tarde, eu não saí para uma reportagem. Saí para uma caça ao tesouro. Ou melhor: uma caça ao invisível. Sabemos que o mar não tem esquina, não tem número, não tem referência fixa. Ainda assim, eu tinha um destino muito específico: um ponto imaginário no fundo da Baía de Todos os Santos, onde, diziam, morava (ou ainda mora) um Exu. >
Estava diante de uma pauta irresistível. Tudo começou por causa do Logos Hope, o navio-livraria flutuante que, nas redes sociais, resolveu definir Salvador como cidade de “espíritos e demônios”. Acontece que, por uma dessas ironias que só encontram precedentes na Bahia, os tripulantes provavelmente ancoraram sobre um local que, segundo o povo de santo e uma arqueóloga, havia um assentamento de Exu a uns cinco metros de profundidade.>
Exu, logo ele. O mensageiro. O dono da comunicação. O orixá que adora uma boa ironia. Liguei para o fotógrafo André Mota, que anos antes tinha participado do registro dessa peça submersa. Ele não titubeou: “Eu te mostro mais ou menos onde é”. “Mais ou menos”, no mar, é um conceito difícil. Pegamos um barco emprestado e lá fomos nós, deslizando pelas águas da Baía com a missão jornalística de procurar um Exu debaixo d’água.>
André apontava: “É por aqui… mais pra lá… perto daquele enrocamento…”. Pelo que ele disse, seria possível ver o Exu do barco mesmo, sem necessidade de mergulho. Mas, no mar, mesmo no raso, referência visual é miragem. Tudo se parece. Tudo se move. E a sensação que eu tinha era a de estar rodando em círculos sobre um segredo que a Baía guardava com um certo deboche. Em terra, eu tinha as falas da arqueóloga Luciana de Castro Nunes Novaes, autora do livro O Exu Submerso.>
Ela explicava que aquele assentamento fora colocado ali como guardião dos marítimos, dos feirantes de São Joaquim. Era uma pauta sustentada por uma tese, um livro, a ciência, o axé. Mas eu só via água. Muita água. E só imaginava um orixá nos guiando. Ah, na área apontada pelo fotógrafo, perto das pedras do quebra mar, era possível enxergar a areia no fundo. A gente conseguiu ver muita coisa. Mas não vimos Exu. >
A matéria saiu. O texto fechava redondo demais para ser apenas coincidência: um navio evangélico criticando Salvador e ancorado justamente sobre um assentamento submerso. Era novembro de 2019. Não lembro de onde surgiu essa pauta. Não lembro quem me apontou a existência do livro. Só sei que quem roteirizou meu trabalho naquele dia tem um senso de humor muito sofisticado.>
Fato é que, ao rodar de barco sobre um ponto qualquer da Baía, percebi que não procurava uma peça de ferro no fundo do mar. Tateava uma camada de Salvador que não aparece nos cartões-postais, mas sustenta a cidade por baixo. Salvador tem dessas coisas: você pisa no asfalto e está sobre séculos. Você navega na Baía e está sobre símbolos. Você faz uma pauta e ela vira quase uma fábula urbana.>
Combinamos, ali mesmo, que voltaríamos para mergulhar. Que desceríamos para ver se o Exu ainda estava lá. Que faríamos o registro definitivo. Nunca voltamos. Volta e meia, penso nessa história. O Exu ainda está lá? Foi aterrado? Foi sugado por alguma obra? Ou será que ele continua exatamente no mesmo lugar, invisível, cumprindo sua função de guardião silencioso da Baía?>
Bom, nesses 25 anos de jornalismo, em Salvador, aprendi algumas lições: uma delas é a de que há coisas que não precisam ser vistas para serem absolutamente verdadeiras. Talvez o melhor nessa história seja o fato de que a gente nunca tenha descido para confirmar. Porque Exu, como ensinou Luciana, tem sua potência justamente na invisibilidade. Se eu mergulho, fotografo e provo, ele vira evidência. E talvez ele nunca tenha querido ser evidência. Talvez ele prefira continuar sendo narrativa, dúvida, mistério — e, sobretudo, provocação.>
Alexandre Lyrio é jornalista, nosso querido e, agora, pai de Antônio.>
O projeto Aniversário de Salvador é uma realização do Jornal Correio, com patrocínio do Salvador Bahia Airport, apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador e apoio do Salvador Shopping.>