Central monitora trânsito da capital e flagra situações bizarras no dia-a-dia de Salvador

Em janeiro deste ano, um coletivo foi sequestrado para levar moradores de Canabrava ao enterro de um traficante

Publicado em 28 de fevereiro de 2016 às 07:14

- Atualizado há 10 meses

O caso é para qualquer cidadão se identificar: dia 1º do mês, a pessoa desce do ônibus e corre até o banco na mesma rua, para pagar as contas da rodada. Depois, pega o buzu de novo e segue para seu destino. Uma situação rotineira, se não fosse por um detalhe – o cidadão em questão é um motorista de ônibus, que saiu do coletivo que dirigia, fez os pagamentos e voltou para o veículo como se nada tivesse acontecido. Parece até brincadeira, mas o agente de trânsito Luiz Alberto Freitas, 52 anos, já se deparou até com essa história, nos cinco meses trabalhando no Centro de Controle Operacional (CCO) da Secretaria Municipal de Mobilidade (Semob), na sede do órgão, em Amaralina.

Inaugurado em abril de 2015, o CCO funciona 24 horas justamente para monitorar como está funcionando o sistema de transporte público em Salvador. Resultado:  desde que foi implantado, as autuações a ônibus já geraram cerca de 2 mil multas.  

Enquanto observa se os coletivos não param em pontos, se demoram a sair das garagens ou se fazem algum desvio de itinerário, vez ou outra – não é tão frequente, ele admite – aparece uma dessas.Por turno, 24 pessoas trabalham na central. Cada uma delas fica diante de duas telas de computador, como a agente Rosângela Muniz, 56 anos (Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO)“Como fico de 6h às 12h, o importante é ver se os horários de partida das linhas estão sendo cumpridos. Quando não estão, o que a gente mais escuta é que falta operador. O motorista se atrasou, dormiu demais...”, conta Luiz, que, antes fiscalizava a saída dos ônibus nas garagens na região do Iguatemi. Durante uma manhã, o CORREIO acompanhou a rotina no centro, onde trabalham 24 pessoas por turno, em três períodos. A maioria é composta por servidores da Semob, mas também há estagiários do curso de Tecnologia em Transportes Terrestres, da Universidade Federal da Bahia (Ufba). Cada um deles fica em uma mesa, diante de duas telas de computador. Os monitores podem gerar até 100 visualizações diferentes, a partir das informações que recebem – que inclui saber se os coletivos já passaram por cada ponto (assim, definem se estão atrasados) e qual é a velocidade de cada um (quando estão a menos de 25 km/h, é criado um “mapa de calor” que indica engarrafamentos). InteligenteSegundo o secretário municipal de Mobilidade, Fábio Mota, a fiscalização do transporte foi otimizada. “Antes, a gente tinha uma prancheta e um fiscal em cada garagem e estação, mas não tínhamos como colocar um fiscal em cada ponto, para fiscalizar 600 linhas. Hoje, Salvador monitora 100% das linhas. A ideia é ter um transporte inteligente”.Foi por meio disso que o agente de trânsito e transportes Jeferson Oliveira, 41, conseguiu identificar situações inusitadas.  “Já indicaram que o veículo está quebrado e transferiram os passageiros para outro. Mas, em segundos, o ônibus começa a andar e vai para a garagem. Como pode estar quebrado?”. Se o ônibus voltar para a garagem antes do horário de recolhimento, a empresa pode ser autuada. No entanto, o presidente do Sindicato dos Rodoviários, Hélio Ferreira, contesta. “O que existe é um bocado de motorista largando depois do horário por conta dos problemas de mobilidade. O motorista é profissional, é responsável”. Segundo a Semob, o CCO só detecta as infrações e procura a empresa para saber o motivo do problema. O agente Luiz, por exemplo, contou que acompanha entre 40 e 50 infrações por dia.SegurançaHá situações mais graves. No ano passado, em plena madrugada, um motorista puxou uma faca em direção a um passageiro. A informação veio do aplicativo Cittamobi para o CCO. Ao todo, mais de 15 mil mensagens já foram enviadas por usuários pelo app. “O passageiro enviou as informações algumas horas depois, mas entramos em contato com a empresa, que verificou o fato e quem era o motorista. O resultado foi uma demissão”, conta o coordenador do CCO, Volney Teixeira.  Para o secretário municipal Fábio Mota (de camisa listrada), o CCO otimizou a gestão do transporte público em Salvador  (Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO)O problema das situações relacionadas a violência – incluindo assaltos – é que elas só chegam ao CCO algum tempo depois de terem ocorrido. Nesses casos, o motorista ou cobrador entra em contato com o centro da empresa em questão (cada uma das três concessionárias tem sua própria central, que está sempre se comunicando com o CCO). É a empresa quem informa ao CCO – exceto quando passageiros fazem isso, pelo app. Em janeiro deste ano, um coletivo foi sequestrado para levar moradores de Canabrava ao enterro de um traficante. Nesse caso, houve um desvio de itinerário. Segundo Volney Teixeira, as razões mais frequentes para desvios são obras ou acidentes na via. Mas, dessa vez, o motorista foi obrigado. “Lembro até hoje a linha: 1348 (Canabrava-Lapa). O motorista avisou à empresa o que estava acontecendo e só depois ficamos sabendo. Não dá para chamar a polícia imediatamente na maioria dos casos, porque, quando ficamos sabendo, já acabou”, explica a chefe de setor do CCO, Eliene Rocha, 46. No CCO, há uma cadeira reservada a um representante da Secretaria da Segurança Pública do Estado (SSP-BA), que também poderia participar do monitoramento 24 horas, oferecendo auxílio em situações de violência. Porém, desde a abertura da central, nenhum representante da secretaria ocupou o espaço. Procurada, a assessoria da SSP informou que já tem dois centros de monitoramento. Um deles funciona no mesmo espaço do serviço 190. O outro, o Centro Integrado de Comando e Controle Regional,  está ativo desde 2013. “A SSP reafirma a parceria com os diversos órgãos da prefeitura na realização do monitoramento da cidade, inclusive, colocando à disposição do município as imagens capturadas, em caso de necessidade”, informou o órgão.