Cratera aberta durante escavação de túnel força transferência de famílias em Salvador

Caso aconteceu nesta segunda (5), durante obras de implantação do túnel do Corredor Transversal 1, na Boa Vista do Lobato

Publicado em 5 de outubro de 2015 às 13:22

- Atualizado há 10 meses

Uma cratera aberta no bairro da Boa Vista do Lobato por volta do meio dia desta segunda-feira (05), durante as obras de implantação do túnel do Corredor Transversal 1, na Ligação Lobato-Patamares, forçou a saída de pelo menos 23 famílias do local, entre as ruas Boaventura, Osvaldo Martins de Castro e Paulo Geovane.

A cratera fica no meio de uma ladeira que liga as ruas Osvaldo Martins de Castro e Boaventura, onde a maior parte dos imóveis foi interditada. O engenheiro da Defesa Civil de Salvador (Codesal), José Carlos Palma, afirmou que, segundo o engenheiro de minas responsável pela obra, o buraco tem pelo menos 20 metros de profundidade.

Ninguém ficou ferido, mas os moradores calculam que pelo menos 37 famílias tiveram que deixar suas casas. Pelos cálculos da empresa, até as 16h de hoje, o número de famílias retiradas do local era 23, mas outras pessoas teriam que sair do local por conta do risco de novos desabamentos.

O engenheiro José Carlos Palma, da Codesal, explicou que houve um processo de erosão. “O que os engenheiros do consórcio disseram foi que, durante o processo de escavação, verificou-se uma fuga de material que provocou a erosão da rua e atingiu a casa”, afirmou.(Foto: Reprodução/ TV Globo)De acordo com moradores, o primeiro incidente aconteceu ainda na noite de sábado (3), durante uma implosão no túnel, por volta das 20h. Eles contaram que um segurança da obra orientou a evacuação de oito residências na Rua São Barnabé – acima da Rua Boaventura – porque as paredes do túnel teriam trincado.

“Eles explodiram, aí mandaram a gente sair de dentro de casa mais de 22h, depois disseram que a gente podia voltar porque não tinha risco”, contou o pintor industrial Antônio Conceição Silva, 45. Com o impacto, o gesso da casa dele ficou rachado, mas os técnicos não voltaram ao local.

Mesmo após a ordem para que os moradores retornassem às suas casas, a equipe constatou, ainda na noite de sábado, que uma casa havia sido atingida. De acordo com a Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia (Conder), ocorreu uma fuga de material sob o piso de uma casa localizada na Rua Osvaldo Martins de Castro.

No momento, não havia ninguém no imóvel. No entanto, quando os moradores retornaram de uma celebração em uma igreja, perceberam que um dos quartos havia sido atingido. Uma equipe da Coordenação Social da Conder providenciou a transferência da família deste único imóvel afetado para local seguro. Após a fuga de material, mais 12 famílias residentes em imóveis vizinhos também foram transferidas para imóveis alugados.

IsolamentoDe acordo com o líder comunitário José Augusto, desde o domingo (4), moradores alertaram as equipes técnicas sobre a necessidade de se isolar uma área maior do bairro, já que algumas casas começaram a apresentar rachaduras. O pedido, no entanto, não foi atendido porque, segundo avaliação técnica, a área não oferecia riscos.

O perímetro de isolamento só foi ampliado hoje à tarde, quando o asfalto cedeu e abriu uma cratera ao lado do imóvel que já tinha sido atingido no sábado. Ainda segundo moradores, pelo menos 37 famílias foram retiradas de suas casas: oito da Rua Osvaldo Martins de Castro, 11 na Rua Paulo Geovane e 18 na Rua Boaventura.

A manicure Regina Damasceno, 47 anos, teve que sair de casa ainda na manhã de domingo. “A gente acordou 5h50 com o povo gritando que a rua estava cedendo e que a casa estava desabando. Saí com os documentos e com roupa para dois dias. Você entra em pânico quando está em uma situação dessa, não acredita que aquilo está acontecendo. É muito difícil, só sabe quem passou por isso. Você vai tirar seu filho e levar para onde?", questionou.

Ela teve de deixar a casa em que vive há 27 anos com o filho e o marido às pressas quando percebeu que havia cerca de 15 fissuras na parede. Na manhã desta segunda-feira (5), a casa em que ela mora foi condenada. "Quando você vai se mudar, você tem tempo, mas assim, de uma hora pra outra, você fica sem chão", desabafou Regina.(Foto: Rogerio Batista/ Leitor CORREIO)A auxiliar de serviços gerais Maria da Conceição dos Santos, 42, também saiu às pressas. A casa onde ela mora de aluguel fia ao lado da casa de Regina, mas ela ainda não sabe se o imóvel está condenado ou não. “Eu saí de casa com metade das minhas roupas e com os documentos, porque eu acabei de fazer uma cirurgia, não tenho como sair pegando peso. E também, se eu tirar os móveis, vou botar onde? Tá todo mundo na mesma situação”, disse.

Quem também teve que sair às pressas foi a dona de casa Maria das Graças Mandu da Silva, 52. “Cortaram até a água. Eu hoje não consegui fazer nada, o menino (o neto de 7 anos) nem foi pra escola. Quando essa rua caiu, parecia o Armageddon, foi um estrondo, um desespero”, descreveu.

O gestor empresarial e de logística Emerson Almeida, 28, queixou-se do que chamou de “descaso e falta de respeito” por parte dos responsáveis pela obra. “Eu fiz não sei quantos comunicados informando os abalos, que estavam fortes demais, muito intensos. Falei várias vezes que isso ia acontecer, até que aconteceu. Eles poderiam ter vindo aqui ontem e evacuado todo mundo, mas agora está aí o pessoal sem saber nem pra onde vai”, disse. 

A maioria dos moradores tem usado o valor de R$ 500 do aluguel social concedido pela concessionária responsável pela obra para conseguir um imóvel próximo ao local. O subprefeito da Cidade Baixa, Cláudio Conduru, disse que a empresa reservou um andar do Hotel Miron, no bairro da Calçada, para as famílias. Outros foram para casa de amigos e familiares ou procuravam imóveis por perto para alugar.(Foto: Clarissa Pacheco) MinadouroÀ equipe do CORREIO, moradores denunciaram que a presença de alguns minadouros não foi avaliada pelos responsáveis pela obra. Por conta disso, após os problemas com a escavação do túnel neste final de semana, também foram constatados vazamentos de água no local.

De acordo com a Empresa Baiana de Água e Saneamento (Embasa), as redes de abastecimento de água e de esgotamento sanitário não foram atingidas, mas o registro foi fechado de forma preventiva, o que interrompeu o fornecimento na Rua Boaventura e adjacências. No final d atarde, técnicos fizeram um desvio na rede de esgoto “para evitar extravasamento de esgoto no local, caso a tubulação próxima à cratera venha a ser afetada”.

O engenheiro da Codesal José Carlos Palma disse que ainda não era possível dizer quando os moradores poderão voltar às suas casas. “A Codesal está monitorando. Há risco de cair novamente, até porque as pessoas estrão sendo retiradas, mas é um risco pequeno. Diria que a chance de não voltar a cair é de 90%, porque a parte de baixo já está sendo estabilizada com novo aterramento com rochas e também vai ser injetado concreto nas fissuras”, disse.

Segundo a Conder, foram instalados dispositivos para controle de recalques em diversos locais no entorno do imóvel onde ocorreu a fuga de material, e as leituras obtidas desde a manhã de domingo até a tarde desta segunda-feira (5) não apresentam variação, caracterizando a estabilidade da camada de solo sobre o túnel.

Técnicos especializados em escavações de túneis estão executando serviço no local para impedir qualquer nova fuga de material neste ponto. O engenheiro Rodolfo Leite, do CTS, foi questionado sobre as causas do rompimento da rua e abertura da cratera, mas limitou-se a dizer que as causas ainda serão investigadas.

Corredor Transversal 1O Corredor Transversal 1 terá aproximadamente 13 km, começando na Orla Atlântica, seguindo pela Pinto de Aguiar, fazendo ligação com a Avenida Gal Costa e se estendendo até os bairros de Capelinha e Pirajá, para finalmente chegar à avenida Suburbana, no Lobato.