Em áudio, sobrevivente falou da acusada por chacina de motoristas: 'A mais agressiva'

Durante júri, promotora defendeu que Amanda Santos sabia o que estava fazendo

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  • Da Redação

Publicado em 19 de abril de 2023 às 16:17

- Atualizado há 10 meses

. Crédito: Arisson Marinho/Arquivo CORREIO

Em júri popular em andamento no Salão do Júri do Fórum Rui Barbosa, na tarde desta quarta-feira (19), a promotora do caso da chacina que matou quatro motoristas por aplicativo em Salvador, em 2019, afirmou que Amanda Franco da Silva Santos, única suspeita sobrevivente, sabia o que estava fazendo.

Por cerca de uma hora e meia, a promotora Mirella Barros Conceição Brito relembrou o caso ao júri, apresentando provas do crime e trechos de depoimentos colhidos durante investigação do caso. Em um dos trechos de depoimentos reproduzidos no salão, a única vítima sobrevivente da chacina, Nivaldo Santos Vieira, ressaltou a crueldade de Amanda."Ela era a mais agressiva. No momento que eu pedi a Deus, foi a hora que ela bateu mais", lembrou.Diante das materialidades apresentadas, a promotora concluiu que a suspeita sabia o que estava fazendo. "O Ministério Público suplica que as materialidades apresentadas sejam acolhidas. A torpeza pode ser reconhecida, seja pela história da Amanda em relação aos Ubers, seja pela ajuda no tráfico de drogas. Amanda tem capacidade cognitiva suficiente para compreender o que foi por ela praticado", afirmou.

A promotora chegou a mostrar ao júri que Amanda esteve apta para participar da segunda fase de Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas e ressaltou que ela foi julgada pela defesa técnica, que constatou sua capacidade cognitiva ampla para discernir os atos cometidos no dia 13 de dezembro de 2019, dia da chacina.

O julgamento, ainda em andamento, irá ouvir a defesa de Amanda e, posteriormente, haverá votação por parte do júri. Amanda já foi ouvida e negou ter participado das mortes, afirmando que teria apenas participado do roubo dos carros. 

"Não tive participação nas agressões, chamei o primeiro e depois o segundo sem entrar no barraco. A partir do terceiro vi o que estava acontecendo e me arrependi de ter feito isso para pagar a dívida do meu marido Murilo, que era de R$ 5 mil", afirmou ela.

Sobrevivente falou Mais cedo, o único sobrevivente entre as vítimas foi ouvido no júri. Ele relembrou que foi chamado para uma corrida no bairro cedo e ao chegar lá já foi agredido. "Eles me chamaram pelo aplicativo por volta das 5h40 da manhã com um perfil de nome Sávio e, quando eu cheguei na entrada da rua, disse que não entraria por questões de segurança. Vieram um homem e uma travesti. Quando entraram no carro, colocaram duas armas na minha cabeça, começaram a me xingar e me deram coronhadas na cabeça", contou. 

Leia o resto do depoimento:

"A travesti [Amanda] era quem eu lembro que me deu as coronhadas. Me mandou seguir até a região de um campo, onde tinham mais três homens que comemoram quando chegamos com o carro. Dois estavam com uma pistola e um com a metralhadora. Quem comandava era um cara que eles chamavam de 'coroa', que comandava as ações deles".

"Me levaram para um corredor de barracos e, no terceiro barraco, mandaram eu entrar. Quando eu entrei, vi mais roupas, marcas de sangue e muitas outras coisas que mostrava que houve mais vítimas, além dos quatro que morreram. Tenho certeza que não morreram só quatro ali, tinha vestígios que mostrava que mais gente esteve ali sendo torturado e morto".

"Me levaram para um barraco à frente e lá eu encontrei o Alisson, que estava amarrado com fios de telefone. O mesmo fio também amordaçava ele, estava com marcas de cortes na cara e muito sangue. Depois, percebi que estava um corpo no lado de Alisson. Ali, caiu minha ficha de que eles não queriam só roubar, mas matar os que chegavam".

"Me amarraram, amordaçavam e passaram me agredir. Todos os cinco estavam lá, os três que estavam no campo e os dois que me buscaram no Uber. Passaram a me agredir muito, com golpes. Só quem não agredia era o que mandava e um outro rapaz. Os outros três me batiam sempre".

"O que mandava, que chamavam de Jeferson, agachou e perguntou: 'você tem dinheiro?'. Eu disse que só tinha R$ 7 porque era começo do dia e ele disse pra mim 'você está morto'. Eles me socavam, me chutavam e Amanda pisou no meu peito, na minha costela. Me agredia e começava agredir os outros".

Amanda virou para mim e disse 'quem vai cortar seu pescoço sou eu'. Ela tirou o saco da cabeça de Sávio, que já estava morto com um tiro de 40. Ela mostrou o rosto e disse: 'olha aqui que tiro lindo, sua cara vai ficar desse jeito'. Nisso, voltaram a me agredir".

"Depois, eles buscaram mais um motorista, que era o Genivaldo. Amanda estava em todas as situações, agredindo, buscando motoristas e pedindo que olhasse para o rosto dela porque queria que todos vissem a cara dela enquanto agredia a gente até resolver matar".

Relembre o caso Os quatro motoristas de aplicativos foram encontrados mortos, com sinais de golpes de facão, em dezembro de 2019, na comunidade Paz e Vida, na Mata Escura. Os corpos foram encontrados enrolados em sacos plásticos, numa área de vegetação da localidade, a poucos metros de um barraco, onde as vítimas foram mantidas em cárcere privado, torturadas e depois executadas. 

Os homens assassinados foram identificados como Alisson Silva Damasceno dos Santos (27), Daniel Santos da Silva (30), Genivaldo da Silva Félix (48) e Sávio da Silva Dias (23). Eles trabalhavam como motoristas dos aplicativos Uber e 99. 

A chacina, que ocorreu no bairro de Mata Escura, teria sido ordenada pelo traficante Jeferson Palmeira Soares Santos, 30, que morreu um dia após o crime. A ordem seria uma vingança pelo fato da mãe do traficante não ter sido atendida por nenhum carro de aplicativo quando precisou para uma urgência médica. 

Amanda, julgada nesta quarta, dentre os cinco suspeitos de participar da chacina, é a única sobrevivente. Os quatro homens que teriam agido com ela - um deles menor de idade - morreram em confronto de facções e com a polícia.