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Carol Neves
Publicado em 19 de janeiro de 2026 às 12:14
Depois de percorrer seis temporadas e alcançar um público superior a cinco mil pessoas, o solo "Criança viada ou de como me disseram que eu era gay" volta a Salvador em 2026 para uma temporada limitada no Teatro Gamboa. As sessões acontecem nos dias 21 e 28 de janeiro e 4 de fevereiro, sempre às 19h, com ingressos disponíveis no Sympla do próprio teatro. >
A peça é escrita e interpretada por Vinicius Bustani, com direção e dramaturgia de Paula Lice, e parte de vivências pessoais do ator para abordar a LGBTfobia enfrentada por crianças e adolescentes. O espetáculo propõe uma reflexão direta e sensível sobre as violências que marcam a infância e a juventude LGBTQIA+.>
“A peça é a partilha de um processo que se deu há mais de vinte anos e, mesmo com todas as mudanças e avanços que tivemos nesse âmbito, encontrou eco e sentido em adolescentes e jovens em 2018. Não acho que muita coisa tenha mudado desde então”, afirma Vinicius.>
Para a diretora Paula Lice, o retorno do solo se justifica pela permanência da urgência do tema. “A LGBTfobia é um mal social extremamente enraizado, assim como o machismo e o racismo. Nossa peça vai direto nesse ponto. Então, seguirá conversando, principalmente com a homofobia internalizada que, às vezes, só nos damos conta através da arte”, destaca.>
Salvador tem papel central na história do espetáculo. “Salvador nos deu régua e compasso. Voltar a ela reanima nossa fé e contribui para a mobilização da cena alternativa, isenta de patrocínios, da qual nascemos e que, neste caso, nos acolheu calorosamente”, ressalta Paula.>
Desde a estreia, Criança viada passou por teatros da capital baiana, instituições de ensino e centros culturais, além de circular por cidades como Belo Horizonte, São Paulo e Dourados (MS). Ao todo, o trabalho já foi assistido por mais de cinco mil pessoas.>
Vinicius Bustani reforça o teatro como espaço de elaboração coletiva. “Eu gosto de elaborar aquilo que me inquieta através de um olhar poético, é como se conseguisse me comunicar e expressar melhor assim. ‘Criança Viada’ surgiu a partir do desejo de elaborar uma ferida muito profunda, mas sobretudo de compartilhar essa experiência com outras pessoas por entender que a homofobia que atravessa e corrompe tantas infâncias e juventudes é um problema de ordem social e nada melhor do que o teatro como ferramenta de elaboração e transformação coletiva”, explica.>
O ator também observa que a relação com a obra se transformou ao longo do tempo. “Hoje faço o espetáculo de um outro lugar, mais maduro talvez. Minhas inquietações pessoais são outras, mas a obra segue viva e pertence ao público. E ainda precisamos, sim, de muito diálogo sobre esse e tantos outros temas. E o diálogo com os divergentes sempre foi uma aposta, e acredito que mais do que nunca, como sociedade, é preciso reaprender a dialogar”, conclui.>