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Os três fatores que explicam por que a gripe e outras doenças respiratórias lotaram o SUS

Com duas ondas de influenza A, baixa vacinação e circulação prolongada de vírus, Brasil enfrentou um ano imprevisível

  • Foto do(a) author(a) Carol Neves
  • Foto do(a) author(a) Agência Einstein
  • Carol Neves

  • Agência Einstein

Publicado em 26 de janeiro de 2026 às 09:18

Gripe
Gripe Crédito: Shutterstock

O início de 2026 trouxe um respiro para os indicadores de síndromes respiratórias agudas graves (SRAG) no Brasil, mas os efeitos do ano anterior ainda orientam o alerta das autoridades de saúde. Dados recentes do InfoGripe mostram queda nos casos nas primeiras semanas deste ano e ausência de níveis críticos na maior parte do país, com exceção da região Norte, onde alguns estados seguem em alerta por influenza A entre adultos e idosos.

A relativa calmaria, no entanto, contrasta com o cenário vivido ao longo de 2025, considerado atípico por especialistas. O país atravessou um período de circulação intensa e prolongada de vírus respiratórios fora do padrão sazonal, o que resultou em imprevisibilidade, aumento de internações e forte pressão sobre o sistema de saúde.

Cuidados básicos, como a vacinação, ajudam a proteger as crianças da gripe (Imagem: PeopleImages.com – Yuri A | Shutterstock) por Imagem: PeopleImages.com – Yuri A | Shutterstock

Segundo o InfoGripe, plataforma do Sistema Único de Saúde (SUS) que monitora SRAG, o Brasil encerrou o ano epidemiológico com mais de 230 mil casos notificados e 13.678 mortes. Pouco mais da metade das ocorrências teve confirmação laboratorial de algum vírus respiratório. Entre os casos positivos, o vírus sincicial respiratório (VSR) liderou as notificações, seguido por rinovírus e influenza A. Já nos óbitos, a influenza A concentrou a maior proporção, com a Covid-19 aparecendo na sequência, mantendo impacto elevado na mortalidade mesmo com menor incidência.

Para o infectologista Moacyr Silva Junior, do Einstein Hospital Israelita, o quadro exigiu respostas mais complexas do sistema de saúde. “O desafio é amplo porque é preciso fazer maiores gastos para realizar diagnósticos diferenciais”, explica. “Temos uma alta taxa de internação não só pela influenza, mas também pela Covid-19 e pelo vírus sincicial respiratório [VSR]. Tudo isso vai sobrecarregando o sistema de saúde.”

Fatores que influenciaram

Dois fatores tornaram 2025 especialmente fora da curva. O primeiro foi a intensidade da circulação viral, sobretudo da influenza A, com elevado número de casos graves. O segundo, ainda mais incomum, foi a ocorrência de duas ondas do mesmo vírus no mesmo ano. “Foi um ano atípico por dois aspectos: primeiro, pela intensidade, principalmente da influenza A, com um número elevado de casos graves, o que não é comum. Em segundo lugar, observamos uma segunda onda da influenza A, o que também foge do padrão”, observa a pesquisadora Tatiana Portella, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e do InfoGripe. “Geralmente, observamos uma onda por volta de abril e maio, mas em 2025 houve uma segunda onda na primavera e no verão.”

Essa dinâmica foi acompanhada de outros eventos que chamaram atenção da vigilância epidemiológica. Em dezembro, pesquisadores da Fiocruz identificaram pela primeira vez no Brasil o subclado K do vírus influenza A (H3N2). A amostra foi coletada em Belém, em uma viajante estrangeira, e classificada como caso importado, sem evidências de transmissão local. Embora o achado esteja relacionado à circulação recente do vírus no Hemisfério Norte, ele não alterou, de imediato, o padrão da gripe no país.

Para os especialistas, o principal desafio segue sendo identificar qual agente está por trás de cada caso de SRAG, já que o comportamento varia entre os vírus. Historicamente, a influenza A está associada a maior mortalidade entre idosos; o VSR é a principal causa de internações graves em crianças pequenas; o rinovírus, antes visto como causador de quadros leves, aparece de forma consistente entre os casos graves, especialmente na pediatria; e a Covid-19, mesmo menos frequente, mantém peso desproporcional nos óbitos.

A sazonalidade também se mostrou menos previsível. Enquanto influenza e VSR costumam se intensificar no outono e no inverno, a Covid-19 não segue um padrão clássico. “Já a Covid-19 é mais difícil de prever, porque não é um vírus sazonal e depende do surgimento de novas variantes”, explica Portella. Ela acrescenta que fatores climáticos também influenciaram o cenário. “Tivemos um período mais prolongado de frio em muitas regiões do país, o que pode ter contribuído para uma alta mais prolongada da influenza.”

No total, 2025 registrou 120.176 internações por SRAG. Para reforçar o atendimento, o Ministério da Saúde destinou R$ 100 milhões aos municípios para o cuidado de crianças e R$ 50 milhões para pacientes adultos. Ainda assim, a pressão sobre os serviços foi intensa. “Essa situação pega os sistemas de saúde desprevenidos. Não se espera observar uma alta de hospitalização por gripe, por exemplo, na época de primavera ou verão. Então, tudo isso afeta a população e o sistema de saúde”, afirma Portella.

Outro elemento decisivo foi a baixa cobertura vacinal. Durante a campanha de 2025, apenas 53,43% dos grupos prioritários se vacinaram contra a influenza, percentual considerado insuficiente para reduzir hospitalizações e mortes. No caso da Covid-19, a cobertura foi ainda menor, de 3,49%. “O problema crônico é a vacinação. Sabemos que a adesão está aquém do esperado, o que favorece a circulação desses vírus”, diz Silva Junior. “A vacina [da gripe] disponível protege contra as linhagens circulantes, mas tivemos duas temporadas que contribuíram para duas ondas do vírus.”

Diante desse histórico, os especialistas reforçam que a prevenção não deve ser relaxada, mesmo em períodos de menor circulação viral. Manter a vacinação em dia, adotar etiqueta respiratória, evitar circular com sintomas gripais e usar máscara em ambientes de maior risco seguem sendo medidas essenciais. “As pessoas deixaram de adotar cuidados básicos, como etiqueta respiratória e uso de álcool em gel. Acho que não aprendemos muito com a pandemia [de Covid-19]. Pelo contrário, esquecemos”, lamenta o médico do Einstein.