Audiovisual baiano: cultura, emprego e renda

Cerca de 85% do faturamento do mercado audiovisual no mundo pertence aos filmes de língua inglesa. Trata-se de um mercado gigantesco do qual pouco participamos

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  • Da Redação

Publicado em 23 de abril de 2023 às 10:52

- Atualizado há 10 meses

Não pense você, ingênuo leitor, que essa maciça dominação advém apenas da competência dos EUA em fazer filmes dentro do livre mercado. Há ingerência estatal em todos os níveis e isso ocorre desde sempre, em todos os países. Trata-se de uma preocupação política e histórica, pois o audiovisual é um dos setores vitais da economia. De fato, quem entendeu isso primeiro e soube cuidar muito bem do assunto foram os norte-americanos.

Falar do audiovisual vai muito além da questão de identidade de um povo, algo que já bastaria para que o poder público prestasse cuidadosa atenção ao setor. Mas, estamos tratando também de política internacional, emprego e renda, entre muitos outros. Verdade é que a cultura é o elo mais dinâmico da economia, pois emprega e agrega quantidade incrível de empresas e pessoas. Isso sem falar na elaboração intelectual da sociedade, pois o setor propicia criação de um pensamento prático e retórico a ser construído.

No Brasil, vivenciamos ciclo de extremo vigor que começou em 1995, passou pela criação da Ancine em 2001 e teve fim com a chegada de Bolsonaro ao poder. Nesse ciclo, o cinema brasileiro ganhou prêmios em quase todos os festivais pelo mundo. Os nossos filmes passaram a ser comprados pelas TV´s e as imagens das mais variadas regiões do país foram exibidas do Chile ao Afeganistão. Isso sem falar do nascimento da nossa indústria de games.

Temos que nos preparar muito bem para um novo ciclo que vai começar agora com a reconstrução do MINC e fortalecimento da Ancine no novo governo federal. Um ciclo ainda mais vigoroso, tudo indica.

Na Bahia, jamais tivemos uma política pública voltada ao audiovisual. Jamais tivemos financiamento contínuo. Jamais se pensou sistematicamente sobre a memória, nunca traçamos metas de conquistas para a produção ou exibição. Nunca tivemos acompanhamento dos projetos nos poucos editais lançados, que nos fazem disputar com sangue nos olhos os parcos recursos disponíveis. Não há regularidade em termos de investimentos.

Para que o leitor entenda: entre 2015 a 2022, foram investidos cerca de R$ 161 milhões no audiovisual baiano por parte de agentes públicos. Destes, 148 milhões vieram do governo federal. O valor investido pelos entes públicos locais (R$ 12 milhões) ficam bem abaixo dos R$ 18 milhões em impostos recolhidos pelas produtoras (sem contar ICMS, pois não foi possível levantar esses números).

Algo fundamental para que uma economia aflore é a capacidade de captação dos entes públicos. Mas, na Bahia são as produtoras que majoritariamente captaram as verbas disponibilizadas pelo governo federal: cerca de R$ 114 milhões que, via de regra, foram disputados com empresas do restante do país. Vale lembrar que há uma forte concentração de produtoras baianas em Salvador. Ou seja, o interior está praticamente fora da festa que o cinema proporciona.

A capacidade empresarial de nossas produtoras geraram milhares de postos de trabalhos diretos e indiretos, alimentando atividades variadas e irrigando a economia.

É preciso notar que a irregularidade dos investimentos maltrata a atividade.

O estado investiu em todos os anos, mas sem nenhuma consistência: em 2016, foram investidos cerca de R$ 892 mil. Já no ano seguinte, cerca de R$ 3 milhões. Depois, caiu para R$ 511 mil, em 2018 foram R$ 536 mil… e por aí vai, numa montanha russa que não cria uma base sólida capaz de manter produtoras e profissionais comprometidos com a atividade. 

Como os recursos estão vindo de fora do estado, é notório que perdemos, ano após ano, empresas e pessoas talentosas para mercados melhor estruturados.

A criação de um pensamento sistêmico e continuado possibilita que o mercado se organize, cresça, e muito mais dinheiro seja captado fora da Bahia e do Brasil. Assim, mais produtoras e profissionais estarão dispostos a participar do setor. Teremos mais renda e emprego, além de identidade cultural elaborada por uma população diversa.

A criação de uma Empresa Pública Baiana de Audiovisual é uma ambição antiga da classe e foi defendida arduamente pela APC (Associação de Produtores e Cineastas da Bahia) ao longo dos anos. Muitos de nós já se debruçaram exaustivamente sobre o tema. A criação dessa agência, se bem estruturada, pode repetir casos de sucesso em outros estados e países. É necessário uma estrutura enxuta e fortalecida para que o setor seja observado como um todo, de ponta a ponta. Começando pela memória, passando pela formação qualificada de profissionais, formação de público, participação de filmes e games em festivais nacionais e internacionais, difusão do audiovisual baiano pelas TV´s abertas e fechadas, manutenção de salas de rua, criação de um circuito de festivais, comercialização em salas de cinema e streaming, internacionalização do nosso cinema…

Buscando o diálogo qualificado, o setor audiovisual se organizou e, após meses de trabalho e diálogo exaustivo com produtores, entidades do audiovisual, políticos e órgãos públicos (Secretarias de Cultura, Planejamento, Desenvolvimento Econômico, Trabalho, Emprego e Renda, Desenbahia, BahhiaInveste…), no dia 02/05, haverá a entrega do projeto de criação da Empresa Pública de Audiovisual da Bahia em audiência pública na Comissão de Educação e Cultura da Assembleia Legislativa do Estado da Bahia, presidida pela deputada Olívia Santana.

Essa empresa será responsável por captar recursos que só são possíveis através de entes públicos. A bem da verdade, já deixamos de arrecadar muito no passado. Um fundo próprio deverá ser criado visando dar sustentabilidade à atividade, algo nos moldes do FSA (Fundo Setorial do Audiovisual).

A Empresa Pública de Audiovisual da Bahia deverá representar um passo decisivo para que a Bahia se posicione e cresça muito em um setor estratégico. É preciso entender, de uma vez por todas, que cultura não é gasto. É investimento.

*Cláudio Marques é cineasta e diretor do Cine Metha Glauber Rocha.

*O Grupo de Trabalho de criação da Empresa Pública Baiana de Audiovisual foi viabilizado por uma dezena de produtoras e é composto por Paulo Alcoforado, Gabriel Pires, Cláudio Marques, João Guerra e Renato Nery.