'Idiotas, notícia de jornal qualquer um entende, poesia, não' 

Por Cris Almeida

Publicado em 12 de setembro de 2017 às 09:31

- Atualizado há 10 meses

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São 4h54, acordei e não consigo mais dormir pensando no suicídio de um dos professores mais incríveis que tive na minha vida. Foi "Dera" quem me apresentou a Kafka, o autor da minha vida. Desde então não há um ano que passe sem que eu leia "A metamorfose".

Dera certamente seria o terror dos meus professores de jornalismo: dizia para escrevermos sem regras, "a porra do texto é seu!!!".

Dera desprezava as fórmulas, aquelas das exatas, quando dizia que "o importante é ler. Leia tudo, releia e leia de novo, do seu jeito".

Dera deitava na mesa dos professores e pedia massagem pra alguns alunos enquanto outro estava no quadro resolvendo questões de semântica. Dera nos lembrava como era importante agradecer a tia do café e perguntar pelo dia dela. No final da aula, Dera nos instruía a guardar bem o celular para não sermos roubados. "Faça cara de pobre".

Dera SEMPRE ia vestido do mesmo jeito: de calça jeans com um cordão usado como cinto, uma camiseta branca e um all star. O cafezinho na mão e o jeito de sentar completavam seu jeito ímpar. 

Era quase lei, Dera sempre entrava na sala de aula dizendo "seu" bordão, "tudo vale a pena quando a alma não é pequena". 

Em sala de aula Dera dizia "idiotas, notícia de jornal qualquer um entende, poesia, não". 

Dera abandonava a sala de aula quando algum aluno dizia algo que soasse preconceituoso ou até preguiçoso. Assim como se arrepiava e aplaudia sempre que algum de nós fazia um comentário brilhante sobre algum livro que nos obrigou a ler. 

"Compartilhar a história de um livro é uma forma de dizer 'eu te amo'", Dera disse depois que falei de "100 anos de solidão" com Ana Beatriz 

Se Dera lesse meus textos hoje em dia, preocupados com as tais fórmulas e regras, certamente iria "fazer o Saramago" no Evangelho Segundo Jesus Cristo, dizendo que eu não aprendi nada.

Com sua morte, devo dizer, finalmente "Deus vai aprender a escrever torto por linhas certas". Obrigada por tudo, Dera.

Texto originalmente publicado no Facebook