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Paulo Sales
Publicado em 15 de fevereiro de 2026 às 05:00
Todos os finais de ano, encontro um grupo de amigos dos meus tempos de redação. São pessoas muito queridas, que gostaria de ver mais vezes. Com elas compartilho o nobre prazer da boemia e troco impressões sobre a vida e o mundo que enriquecem o meu modesto camarote intelectual. Da última vez, fomos a um bar na Mouraria. Em meio à balbúrdia das conversas entrecruzadas, elevou-se o tema da violência praticada contra mulheres e meninas neste país bárbaro. Falamos de feminicídio, de misoginia e dos tais incels, ou celibatários involuntários. Em outras palavras, jovens que por diferentes motivos não conseguem se relacionar com mulheres. >
Tempos atrás, os incels se recolhiam à sua insignificância e descarregavam suas frustrações entre as quatro paredes de um banheiro. Com a chegada da internet as coisas mudaram. Eles se organizaram em fóruns obscuros, abrigados em plataformas igualmente obscuras, e se tornaram perigosos. Nesse momento da conversa, confessei não ter a menor paciência para compreender as motivações desses indivíduos ou sequer me interessar sobre o assunto. Uma amiga retrucou: “Pois deveria. Você tem uma filha mulher e as coisas estão cada vez mais perigosas para jovens como ela”.>
Minha amiga estava certa, é claro. A aversão às mulheres – vistas por esses grupos como carne a ser consumida e descartada – atingiu um grau que deixaria qualquer pai de menina alarmado. O que poderia ser só frustração e ressentimento se converteu em discurso de ódio e, o que é muito mais grave, em ondas de assassinatos. É provável que, como ocorre aos extremistas e fundamentalistas, eles tenham se beneficiado da sensação de pertencimento a um grupo e, com isso, se sentido à vontade para converter frustração em revolta e revolta em terror. >
A série britânica Adolescência – um portento de realização ficcional – parece deixar claro que algo anda muito errado na forma como os garotos estão crescendo e virando adultos. Vale ressaltar que os incels são apenas um sintoma de uma enfermidade generalizada, que atinge proporções assustadoras. O grau de ódio semeado soa para mim inapreensível, mesmo tendo consciência de que os jovens da minha geração, eu incluído, nunca foram beatos em busca de canonização. Mas sempre houve, quero crer, uma relação de tolerância, respeito e amizade verdadeira entre os dois sexos. >
Converso com frequência com mulheres de todas as idades e o que ouço são relatos atemorizados. Atos que para nós, homens, são prosaicos, como pegar um uber, sair à noite ou andar de ônibus, exigem no caso delas uma série de ações preventivas, como compartilhar localização em tempo real com conhecidos ou andar sempre em grupo. Minha dúvida é: os homens sempre foram assim ou estão ainda mais brutalizados, estultos e intolerantes?>
Fui uma criança tímida e gordinha e um adolescente tímido e magrinho, com algum trânsito junto ao sexo feminino. Tive amigas muito próximas, com quem desenvolvi uma relação de cumplicidade e aprendizado mútuo. Uma delas é amiga até hoje, apesar de quase não nos vermos. Na aurora dos nossos 14 anos, conversávamos sobre tudo: sexo, política, paixões platônicas e a relação com nossos pais. Outra amiga, com quem já não falo, me apresentou a bandas como Led Zeppelin, Rush e U2, e também a moças que vieram a ser minhas namoradas, incluindo a que está comigo até hoje.>
Em todo esse tempo, mesmo com decepções amorosas que feriam feito facadas e certa incapacidade de compreender os enigmas que encerram o universo feminino, jamais me passou pela cabeça planejar ou executar qualquer tipo de violência contra uma mulher. Volto a dizer: nunca fui santo. Mas nunca fui um abusador, um assediador, um agressor. Hoje, reconheço a sorte que é ter a companhia diária de duas mulheres e, sempre que possível, estar perto daquela que me deu a vida.>
Certa vez, quando minha filha era criança e começou uma amizade com um colega de escola, ela me perguntou: “Pai, eu posso ser amiga de um menino?”. Respondi que sim, claro, mas aquilo me surpreendeu. Era um código desconhecido. No meu mundo infantil não havia essa distinção. Talvez houvesse nos colégios militares ou nos internatos dos tempos de minha mãe. Estamos regredindo como sociedade? Será que os homens, hoje, representam mais uma ameaça que um objeto de desejo para as mulheres? Se a resposta for afirmativa, estamos na lama mais espessa. A mim, só resta sentir uma enorme vergonha.>