A soma de quem somos

Seria presunção demais crer que mudamos o curso de uma vida ou causamos alguma hecatombe sentimental

Publicado em 16 de outubro de 2023 às 05:00

Outro dia, na farmácia, uma mulher falou comigo: “Você estudou no Nobel, não foi? Lembro até do seu nome: Paulo”. Eu não a reconheci. Continuamos conversando e aos poucos fui recordando vagamente da garota que ela foi. Chama-se Fátima. Não fomos colegas de sala. Fiquei intrigado com a sua memória: estudei no Colégio Nobel da Pituba até os 16 anos, quando fiz o 1º ano do ensino médio, e nunca mais voltei lá. Ou seja, eu a vi pela última vez ainda adolescente, nos remotos anos 80.

Por mais que não sofra com a calvície nem tenha ganhado peso de maneira significativa, o compositor de destinos certamente produziu uma devastação voraz no rosto e no corpo daquele garoto magro e moreno, de cabelos cacheados e sorriso tímido. A pele vem perdendo parte da elasticidade, fios brancos proliferam pelo corpo, linhas avançam ao redor dos olhos. Como é possível, então, que tenha sido reconhecido por Fátima depois de tanto tempo?

Recordo com nitidez os espaços daquele colégio: a quadra ao ar livre e os jogos de futebol, a cantina ao fundo e o cheiro de banana-real, as escadas que levavam às salas, a pequena sacada no último andar, de onde gostava de olhar a rua e conversar com os colegas. Ali conquistei minha primeira namorada, Carla, que nunca mais revi. Ali fui reprovado na 8ª série, derrotado pela matemática. Ali fiz amigos que ainda estão ao meu lado.

Muita gente dessa época se perdeu em algum canto irreconciliável do passado. Evaporaram. Até reencontro alguns virtualmente nas redes sociais e quase não os reconheço. Observo os rostos nas fotos de perfil e eles não correspondem à imagem que havia guardado daqueles nomes e sobrenomes. Outros manifestam posições políticas que me causam engulhos. Como mudaram, como mudei.

Gostaria de saber que tipo de espectro nos tornamos com o correr das décadas. Será que deixamos algo de sincero e verdadeiro nas pessoas com quem convivemos no passado? Fomos amados, admirados, detestados ou só provocamos indiferença? O mais provável é que a última alternativa seja a correta. Seria presunção demais crer que mudamos o curso de uma vida ou causamos alguma hecatombe sentimental. Na maioria dos casos, somos apenas borrões em mentes alheias.

Fui um garoto introspectivo, curioso e de convicções muito firmes, que felizmente se tornaram mais voláteis com o tempo. Introspecção que se travestia em certo pedantismo. Aos 15 anos, era um reservatório quase a transbordar de inquietações. Quanto dessa juventude acompanha os meus dias de adulto? Ouço às vezes as bandas que escutava e esboço um sorriso: elas não fazem mais parte de quem sou. Ou fazem?

Não guardo nostalgia da adolescência, período de descobertas muito duras, remorsos, frustrações e desilusões amorosas que pareciam eternas, além de uma inadequação à vida prática que ainda hoje me acompanha. Mas foi também um tempo de impetuosidade, destemor e uma reconfortante sensação de invulnerabilidade. Havia ali um fascínio intenso por um mundo que se descortinava e que me traria doses equivalentes de alegrias e frustrações nos anos seguintes.

Logo no primeiro parágrafo de Áden, Arábia, Paul Nizan escreveu: “Eu tinha vinte anos. Não me venham dizer que é a mais bela idade da vida”. Ao contrário dele, meus vinte anos foram vibrantes e férteis, justamente porque as limitações da adolescência tinham sido abandonadas e substituídas pelos prazeres e conquistas da idade adulta: os primeiros salários, a consolidação do aprendizado sexual, a possibilidade de viajar sozinho. Não era fácil, como ainda não é, mas naquele momento tudo confluiu para que vivenciasse doses generosas de plenitude.

A verdade é que cada época contribui ao seu modo para forjar quem somos. Eu cheguei até aqui ainda introspectivo e curioso. Não houve rupturas brutais, mas sim experiências que foram se sedimentando, como se vê naqueles troncos de árvores cortados com os anéis de crescimento indicando os diferentes períodos da vida. Sou, portanto, uma soma de diversos eus: o menino gordinho e suado voltando da escola; o adolescente que adorava Legião Urbana; o jovem que viajava de carona pelo sul; o rapaz de 30 anos que acabava de ser pai; o sujeito que, neste exato momento, ouve jazz e bebe vinho enquanto põe o ponto final nesta crônica.