Encruzilhadas morais

Numa guerra, é difícil apontar o dedo para um covarde que usa a própria tibieza para sobreviver ou para quem não é solidário com um fugitivo

Publicado em 27 de novembro de 2023 às 05:00

Quando criança, assisti a um filme que provocou um tsunami no meu imaginário ainda em formação. Contava a história de um grupo de sobreviventes de um naufrágio que se aglomerava em um bote salva-vidas no meio do oceano. Havia gente demais no bote e ele provavelmente logo afundaria com todos a bordo. Então o capitão do navio, munido de um revólver, assumiu o comando e tomou a decisão extrema de escolher quem seria lançado ao mar para que os outros sobrevivessem.

Jogaram primeiro um cachorro, depois um casal de velhos. O cão era um pastor alemão. No caso dos velhos, apenas o marido foi escolhido, mas a esposa optou por acompanhá-lo. Não esqueço essas cenas, mesmo passados tantos anos: as pessoas e o animal enfrentando o mar revolto e a escuridão. Demorei a dormir naquela noite. Se a memória não me falha (o que é provável), houve em dado momento uma rebelião no grupo, mas ao final o capitão conseguiu levar os que permaneceram até o continente. Mais tarde, ele foi julgado num tribunal por seus atos.

Já adulto, descobri que o capitão era interpretado por Martin Sheen e que o nome do filme é Os Últimos Sobreviventes, de 1975. Mas nunca voltei a assisti-lo. Não gostaria de me ver novamente invadido por aquela angústia terrível que experimentei na minha aurora, deitado no escuro de olhos arregalados. Foi, provavelmente, a primeira vez que me dei conta de como a vida é muitas vezes feita de encruzilhadas morais. E que nossas escolhas têm consequências.

O cinema é farto em exemplos assim. Quer dilema mais devastador que o da mãe vivida por Meryl Streep em A Escolha de Sofia? Presa com os dois filhos pequenos no campo de extermínio de Auschwitz, durante a Segunda Guerra, ela se viu obrigada por um oficial nazista a escolher qual deles seria salvo. Caso não escolhesse, ambos morreriam. Já em Os Sobreviventes dos Andes, que reconstituiu uma tragédia verídica, o difícil é mensurar o quão terrível foi a decisão tomada pelos que saíram vivos de um acidente aéreo, ilhados na cordilheira tomada pela neve: morrer de fome ou comer carne humana?

Lembro ainda de Frank, o personagem de Clint Eastwood em Menina de Ouro, que se viu compelido a cometer eutanásia na sua aprendiz, a jovem lutadora Maggie (Hillary Swank), a quem amava com fervor de pai. Tornou-se um homem oco, revirado em si mesmo, após cometer ato tão extremo a pedido dela. Poderia ter se negado. Mas a vida, no caso de Maggie, foi tirada como uma forma de preservação, se é que isso é possível. Em suma, um ato de amor.

Os mais sortudos passam pela vida incólumes a esses dramas, ou quase. Mas esses são raros. Em algum momento, somos coagidos pelo destino a enfrentar dilemas que podem causar pequenas ou grandes hecatombes. Seja fazer um aborto, terminar uma relação duradoura ou decidir por um tratamento paliativo para um pai ou mãe combalido por um câncer terminal. Até mesmo optar ou não por dar cabo da própria vida quando ela se torna um fardo. São escolhas que exigem cálculos e sobretudo prudência e sensatez. Mas como tê-las quando se está no limite?

Mudando um pouco o foco e ampliando o espectro dos dilemas morais para a coletividade, o que difere os que optam pela ação dos que preferem o aconchego da inércia? Os que não aceitam a injustiça dos que a enxergam até com naturalidade? Numa guerra, é difícil apontar o dedo para um covarde que usa a própria tibieza para sobreviver ou para quem não é solidário com um fugitivo. Não sabemos o que faríamos no lugar deles. A guerra nos transforma em bichos acuados que somos em essência.

O capitão de Os Últimos Sobreviventes agiu como um deus onipotente, decidindo com o cano da arma quem merecia acompanhá-lo ou ser abandonado. Suas escolhas demonstravam um pragmatismo utilitarista que é sempre perigoso – vale lembrar que já houve um regime que

exterminava deficientes físicos e mentais junto com raças consideradas inferiores. Por que os velhos não poderiam segui-lo? Pela fragilidade física ou porque já viveram demais? E se fossem pessoas caridosas, que com suas ações melhoraram o planeta? Julian Barnes já escreveu que “premiar a virtude não compete à vida”. Mas mesmo assim a conta não bate.

No lugar do capitão, talvez um tolo humanista como eu acabasse afundando o barco com todos a bordo, por conta desse senso de decência que não leva a nada. Ou leva? Não é assim que a humanidade avança, mesmo quando derrotada? Chegamos até aqui em meio à carnificina, mas também movidos pela compaixão. Foi com base nela que instituímos os preceitos morais que nos permitiram escapar, mesmo que só um pouco, da lama. Talvez o que nos falte seja justamente exercitar um pouco mais essa compaixão.