O mundo em tempos de oniricídio

Não, Verissimo não morreu.  E um mundo sem Verissimo é mais acre, mais bruto, mais vil.

Publicado em 30 de outubro de 2023 às 05:00

Comentava com um amigo a respeito do quanto nos sentimos órfãos de Luis Fernando Verissimo. Órfãos do seu humor preciso feito um solo de Miles, da sua erudição sem afetação, do seu humanismo renitente, da elegância com que nos brindava duas vezes por semana com suas crônicas. Não, Verissimo não morreu. Vive recluso na casa que um dia foi de seus pais, padecendo dos efeitos de um AVC sofrido no final de 2021. Nunca mais escreveu – ou ao menos nunca mais publicou. É sua maneira, discreta como foi sua vida, de ir aos poucos dando adeus ao mundo. E um mundo sem Verissimo é mais acre, mais bruto, mais vil.

Ele sempre foi para mim um reservatório de sensatez. Aquele tipo de manancial moral ao qual recorria quando a perplexidade me alcançava. Com seus textos aparentemente despretensiosos, ele muitas vezes me ajudou a compreender o mundo – ou a compreendê-lo cada vez menos, já que não há muita lógica nessa nossa aventura errática pela Terra. Sem ele a me guiar, velho farol quase apagado, me vejo agora diante de uma realidade cada vez mais refratária aos princípios que nortearam o que entendo por civilização.

Tenho pensado muito em Verissimo nesses tempos que parecem prenunciar a derrocada definitiva do humanismo. Em uma antiga crônica, que bem poderia ter sido publicada no último domingo, ele escreveu: “Hoje a guerra psicológica é o pretexto legitimador para quem usa o terror por qualquer causa (…). E cada vez que vemos uma das vítimas do terror, como o último cadáver de uma criança judia ou palestina sacrificada naquela guerra especialmente insensata, pensamos de novo nos tempos em que só os soldados morriam nas guerras, e ainda era possível ser um espectador da história. Ou ser inocente.”

Ao falar de espectadores da história, Verissimo se referiu a um período, anterior à Primeira Guerra Mundial, no qual guerras eram travadas entre exércitos em campos de batalha bem definidos. Os civis, em tese, eram poupados de bombardeios e invasões, embora saibamos que nunca foi bem assim. O século 20, de qualquer modo, elevou o horror da guerra a patamares estratosféricos – Erich Maria Remarque e Vassili Grossman, entre tantos outros, não me deixam mentir.

Nesta jornada fragmentada pelas desditas do mundo moderno, me deparo com a indiferença global frente a uma realidade sem rédeas, que nas últimas semanas se traduziu em cenas de carnificina tanto em Israel, perpetradas por terroristas abjetos, quanto na Gaza sitiada e bombardeada por tropas israelenses a serviço de um canalha de extrema-direita. Quanto mais leio, menos entendo. É um cenário tão intrincado que até aliados são também adversários, semelhante a uma partida de xadrez disputada por vários jogadores ao mesmo tempo.

Tomado pelo pasmo feito um bobalhão, eu me pergunto: por que gente inocente tem que ser varrida em massa a cada erupção bélica? Por que o assassinato de crianças, mulheres e homens – corpos destroçados exibidos em praça pública e reproduzidos à exaustão nas redes sociais – deixou de ser um efeito colateral para se tornar o fundamento de todos os conflitos? Essa é a tal História com H maiúsculo que aprendemos no segundo grau, mas que nunca compreendemos em sua totalidade.

O que fazer afinal? Que medidas tomar quando não há mais negociações viáveis e os mortos se decompõem em larga escala? Não intervir? Deixar populações inteiras serem exterminadas? Experiências recentes ensinam que a omissão resulta em tragédias devastadoras. A ONU não fez nada em Ruanda em 1994, e o que se viu foi um dos mais bárbaros genocídios da história, com quase 1 milhão de mortos. O mesmo aconteceu durante a limpeza étnica na Bósnia, entre 1992 e 1995, que culminou com o massacre de Srebrenica.

Voltando a Verissimo, recordo uma crônica escrita há muitos anos, na qual ele cunhou o neologismo “oniricídio”, algo como genocídio dos sonhos. Talvez estejamos vivendo esse oniricídio. Já parecia claro que não havia mais espaço para utopias. De certa forma, elas tinham um papel deformador, que nos corrompia e nos mantinha permanentemente inconformados com a realidade. Mas ao menos traziam a tiracolo um senso ético, uma aspiração ao bem-estar coletivo, uma crença no futuro. Vendo pessoas tombarem aos montes no Oriente Médio, percebo que, junto com elas, tomba também o sonho tolo de que o ser humano um dia tomará jeito.