Os filhos mortos de um esboço de país

Não sei por que ainda me surpreendo com o grau de sordidez de certos indivíduos, que defendem abertamente o assassinato de inocentes

Publicado em 14 de agosto de 2023 às 05:00

Há quase quatro anos, em setembro de 2019, eu escrevi neste mesmo espaço: “É uma dor que arrebenta, dilacera, aniquila. E revolta. Porque, por mais bárbaro que seja, o assassinato de Ágatha – cometido por quem em tese devia protegê-la – não é um caso isolado. Este ano, outras quatro crianças morreram vítimas de balas perdidas decorrentes de incursões da polícia em favelas da cidade: Kauê dos Santos, Kauã Rozário, Kauan Peixoto e Jenifer Gomes”.

Ao reler esse trecho, não consigo reprimir uma incômoda sensação de déjà vu movida a exaustão e impotência. Porque fica evidente que tanto a morte de Ágatha, a garotinha que se vestia de Mulher-Maravilha, quanto as de Kauê, Kauã, Kauan e Jenifer não representaram um marco civilizatório. Simplesmente se perderam na banalidade dos dias e da violência cotidiana. Em nenhum momento essas perdas se traduziram em um arrefecimento da política de extermínio de pessoas pobres e pretas por uma instituição corrompida, despreparada e brutalizada.

Na semana passada, mais uma criança foi executada, desta vez na Cidade de Deus, comunidade do Rio de Janeiro. Seu nome é Thiago Menezes Flausino e tinha 13 anos. Queria ser jogador de futebol. A foto das crianças amigas do garoto chorando no seu enterro é devastadora. Mas há quem não se comova. Thiago não foi uma exceção. Em julho, Djalmir de Azevedo Clemente, de 11 anos, foi morto durante uma incursão da Polícia Militar em Maricá, também no Rio. Ainda em julho, morreu em situação parecida Gabriel Silva da Conceição Júnior, de 10 anos, aqui em Lauro de Freitas.

Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que em três anos (2017 a 2019), policiais mataram ao menos 2.215 crianças e adolescentes no país. Nada mudou de lá para cá. A polícia continua invadindo comunidades a tiros e agredindo moradores, usando sempre como bandeira a tal falácia da guerra às drogas. Não há justificativa para o terrorismo de Estado praticado de forma sistemática, ainda que para combater o tráfico.

A quem interessa esse estado de coisas? Por que as sucessivas mortes de crianças – e também de jovens e adultos – não são suficientes para dar fim a essas intervenções? Como é possível que uma cidade, um estado, um país não entendam que está tudo errado? A resposta é banal: são pessoas invisíveis e sem voz, que quando ousam se rebelar são violentamente reprimidas.

Mas há algo ainda mais grave em todo esse cenário: uma parcela significativa da sociedade apoia essa carnificina. E isso desvela quem somos de verdade, para além dos clichês do povo cordial e do país tropical abençoado por Deus. Tenho acompanhado postagens de jornalistas e ativistas sobre o recrudescimento da violência policial e também os comentários sobre essas postagens. Não sei por que ainda me surpreendo com o grau de sordidez de certos indivíduos, que defendem abertamente o assassinato de inocentes, como efeito colateral a serviço de uma “causa maior”.

Essa forma abjeta de pensar expõe a fratura de uma sociedade em declínio, brutalizada e sem escrúpulos, que fabrica cidadãos dotados de um senso de justiça enviesado. São os tais cidadãos de bem libertos do esgoto em 2019, Narcisos broncos que acham feio o que não é espelho. Não se reconhecem nos favelados, nos pretos, nos miseráveis, essas figuras incômodas que tentam conviver num mesmo esboço de país.

É um cenário devastador de indigência moral, disseminado por todos os estados brasileiros. Nele, prolifera um pensamento que explicita a não aceitação do outro, que deve ter suprimida a sua existência. Não importa quem seja esse outro, o que ele faz da vida, como cria (e perde) seus filhos, quais são suas (poucas) alegrias, como ele se vira para pagar (ou não) suas contas. Gente que, como cantou Belchior, é humilhada e ofendida pelas grandezas do Brasil.

São diaristas, ajudantes de pedreiro, eletricistas, camelôs, desempregados, subempregados. Gente que rala, sofre, reza, espera no ponto, faz uma fé na loteria, joga dominó na calçada, toma uma pinga para alegrar. Gente que ama, sonha, transpira e movimenta de verdade este país. Mas que só faz levar porrada deste mesmo país, que só as enxerga como bucha de canhão em uma guerra fratricida.