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Camila Botto
Publicado em 4 de junho de 2015 às 09:00
- Atualizado há 3 anos
No elogiado musical, o sambista carioca Diogo Nogueira estreia como ator (Foto: Guto Costa/Divulgação)Getulio Vargas marcou o país, JK inaugurou Brasília, a ditadura de 1964 se instalou - e também ruiu -, a primeira mulher chegou à Presidência, duas Copas do Mundo aconteceram em solo brasileiro... Em 100 anos muita coisa acontece e muda, mas a trilha sonora permanece a mesma.Ainda que com diversas mudanças, o samba segue vivo no imaginário brasileiro. O gênero completa um século e ganha justa homenagem no espetáculo Sambra – 100 Anos de Samba, hoje e amanhã, no TCA, após curta temporada em Belo Horizonte. No palco, 17 atores interpretam 70 músicas cantadas e 25 outras em formato de texto em três fases: prólogo, abertura e mais 14 quadros. O elenco é encabeçado pelo cantor Diogo Nogueira, 34 anos, que faz sua estreia como ator. “Está sendo um processo muito bacana. Ensaiamos durante três meses de 8 a 10 horas por dia. É bem diferente dos ensaios de música. Gustavo (Gasparani, diretor do musical) me deixou super à vontade e eu trouxe muita coisa minha para o espetáculo. O elenco também foi formidável...o conjunto ficou bacana”, afirma Diogo, que encarna oito personagens durante as duas horas e meia de musical. Bahia O público baiano pode se preparar para se sentir homenageado. O espetáculo começa com uma viagem à Pequena África, na Praça XI, no Rio. O espaço era comandado pela baiana Tia Ciata (1854-1924), uma das figuras mais influentes para o surgimento do samba. No terreiro comandado por Tia Ciata foi composto Por Telefone, de Donga e Mauro de Almeida, o primeiro samba gravado no país, em 1916. “Eu gosto muito dessa parte do espetáculo, que retrata o começo da cultura negra no Brasil. Tia Ciata é a matriarca do samba”, pontua Lilian Valeska, intérprete da baiana. “A expectativa (de apresentar o musical por aqui) é grande né? A gente espera que gostem de tudo porque tem uma grande homenagem à Bahia na parte da Pequena África. Era um terreiro, mas os compositores da época frequentavam o local e faziam suas rodas de samba, ou seja, está tudo ligado à Bahia”, afirma Diogo.Depois da Praça XI, o espetáculo passeia por outros locais onde o samba fez história: tem o teatro de revista, espaço onde o gênero foi difundido pelo Rio; a rádio, local que o samba ganhou o país; até a apoteose no desfile das escolas de samba cariocas.“Procurei definir momentos e artistas, pois o samba tem uma enormidade de nomes e músicas bonitas. Poderia ir para qualquer lado. Terminei desenhando o espetáculo através dos espaços físicos onde o samba nasceu e se propagou”, detalha o diretor Gustavo Gasparani, 47. “Tem artistas que aparecem personificados na peça, outros estão em vídeo...”, emenda o carioca. Estão lá nomes como Pixinguinha (1897-1973), Chico Buarque, Donga (1890-1974), Beth Carvalho, Carmen Miranda (1909-1955), Cartola (1908-1980), Martinho da Vila, João Nogueira (1941-2000), Clara Nunes (1943-1983), Noel Rosa (1910-1937), Jorge Aragão, Paulinho da Viola e o mestre Dorival Caymmi (1914-2008), que, em vídeo, faz a Bahia voltar à cena. PontosAltos Para Diogo, o momento mais emocionante da peça é a passagem de bastão de um sambista mais experiente para um mais novo com o pedido final de “não deixe o samba morrer, não deixe o samba acabar...”. “Tem uma relação bem forte com a minha história e do meu pai. Momento em que relembro a memória de um poeta como foi meu pai”, comenta. Já a plateia se empolga para valer quando Beth Carvalho (Ana Velloso) entra em cena cercada pelo clima de boemia e malandragem. A clássica Vou Festejar levanta o público e dá a deixa para o fim do show, com uma bela madrinha de bateria - cheia de brilho e samba no pé - roubando a cena na Avenida. Há também encontros improváveis, mas afiados. Em certo momento, Noel Rosa e Martinho da Vila se encontram e trocam figurinhas sobre suas composições e o amor pelo bairro da Vila Isabel. O samba - sim, o ritmo mesmo - se encontra com Tia Ciata e ela, toda orgulhosa, manda: “Olha só onde você chegou, menino”. E como serão os próximos 100 anos, Diogo? “Só Jesus pode responder (risos). A gente sempre quer o bem, quer o melhor. Espero que fique no lugar onde sempre esteve. Acho que se continuar indo da maneira que ele está hoje vai estar bem. Sempre sendo ouvido, lembrado, cantado. O samba tem uma diferença que é a seguinte: ele cura as pessoas. Se você estiver doente, vai numa roda de samba para você ver se não vai ficar bom”, exalta o músico, que além de seguir com Sambra (depois de Salvador tem Porto Alegre e Brasília), lança terça-feira o álbum Porta-Voz da Alegria (Universal).“Tem canções novas e regravações com sonoridades inéditas. Lançamos a música Tenta a Sorte e ela já ficou em primeiro nas rádios do país. Estou feliz com esse novo trabalho”, pontua. *A repórter viajou a convite da produção do espetáculo>