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A história vive nos corredores da Associação Comercial

Prédio abrigou momentos icônicos na história econômica da Bahia nos últimos 200 anos

  • Foto do(a) author(a) Donaldson Gomes
  • Donaldson Gomes

Publicado em 11 de janeiro de 2026 às 05:00

Quadro de Portinari, na sala da presidência, é um dos destaques do prédio Crédito: Sora Maia/CORREIO

Fundada em 1811, a Associação Comercial da Bahia (ACB) é uma guardiã da história econômica do Brasil. Em seus corredores é possível encontrar registros que vão desde a saga do maior porto do hemisfério sul no século XIX, a posicionamentos firmes, em defesa de interesses do empresariado baiano. Foi na sede da ACB, por exemplo, em que se deu a assinatura do ato de constituição do Polo Industrial de Camaçari, em outubro de 1971. A entidade liderou o movimento da iniciativa privada, que se somou aos esforços com o Governo do Estado, para a implementação do complexo que reescreveria a história da indústria baiana.

Mas o papel da mais antiga entidade representativa do setor produtivo de que se tem notícias na América Latina sempre excedeu os interesses de quem empreende. Em seus mais de 200 anos, registrou intervenções que modificaram a dinâmica urbana de Salvador, homenageou e cuidou dos baianos que lutaram na Guerra do Paraguai, foi responsável por fundar o primeiro corpo de bombeiros no estado, além de manter uma guarda com 200 integrantes, até meados da década de 1950. Na última quinta-feira, a reportagem do CORREIO percorreu os corredores do prédio, que é mais antigo que a própria associação, e passou por uma imersão na história da Bahia.

A história de pioneirismo passa pela criação da primeira bolsa de valores do Brasil, além dos primeiros cursos de comércio e de contabilidade. O equipamento tipográfico, usado para rodar o primeiro jornal, ainda pode ser visto lá. Foi também a primeira sede do grupo Wilson Sons, que atualmente opera o Terminal de Contêineres do Porto de Salvador (Tecon Salvador), além de abrigar representações consulares de países como a Inglaterra, França e Alemanha.

Arte de Floriano Peixoto sobre obras de Jorge Amado por Sora Maia/CORREIO

Tudo o que se vê no prédio tem uma história para contar. Numa das portas que dão acesso ao salão nobre, o responsável por conduzir a visita, o funcionário da casa Luiz Carlos Fiore Nery, mostra uma fechadura que está lá desde que o prédio foi construído e segue funcionando normalmente. Em imagens de diferentes épocas, podem ser vistos diversos retratos da sociedade brasileira. Nas fotografias que registram um jantar oferecido ao presidente Washington Luiz, em 1924, surgem sentados ao redor de uma grande mesa os homens que tinham papéis de destaque na política e no mundo de negócios na primeira metade do século XX.

Ao contrário do que se vê hoje, quando a ACB é presidida por uma mulher, naquele momento, todas as convidadas do sexo feminino aparecem olhando das janelas superiores um encontro que era restrito aos homens. Na mesma foto, um outro sinal daqueles tempos: os únicos negros que aparecem estão servindo os convidados do banquete.

Presidente atual, Isabela Suarez é apenas a segunda mulher a ocupar o cargo. Antes dela, apenas Lise Weckerle, entre 2003 e 2007 ocupou a presidência. Outra pioneira é Alcione Barreto Dias, que foi vice-presidente e a primeira mulher em um cargo de direção.

Um cartão postal datado de 1930 diz que a ACB foi criada porque os comerciantes baianos precisavam de um local que fosse a “sede dos seus interesses comuns”. Por conta da importância “operacional e tributária” que a Bahia tinha na época para a coroa portuguesa, o vice-rei Marcos Noronha de Brito, o Conde dos Arcos, tomou a iniciativa de construir o prédio, aproveitando a estrutura do forte de São Fernando que existia anteriormente no local. “De 1817 até hoje, o belo imóvel tem testemunhado episódios da mais alta importância para a vida social e econômica da cidade. Não será erro dizer que tudo de relevante passou por aqui”, encerra o postal.

O Palácio foi construído no terreno remanescente da bateria de São Fernando, cedido pela Corte, mas “custeado inteiramente por subscrições dos comerciantes da Bahia”. No subsolo do prédio ainda é possível ver intacta a estrutura da antiga fortificação. A inauguração, às 10h da manhã do dia 28 de janeiro de 1817, contou com bênção, orquestra e toda a pompa. “Os convidados estavam ricamente vestidos e as senhoras, “convidadas para um copo d’água”, trajadas com máximo luxo e riqueza. Os “negociantes da Praça da Bahia”, reconhecidos, ofereceram a D. Marcos uma espada de ouro”, aponta outro registro histórico.

No dia 10 de fevereiro de 1871, o baiano Castro Alves entrou na Associação Comercial, montado em seu cavalo, e recitou em público pela última vez na vida. Uma placa no salão nobre da casa, ao lado de uma cópia do poema, eternizou o momento. Quase 130 anos depois, o ator Jackson Costa repetiu o ato do poeta e recitou as mesmas palavras ditas antes. Outro baiano homenageado por lá foi o jurista Rui Barbosa, com um banquete, em 1919.

“O Palácio da Associação Comercial da Bahia é um marco da história econômica, política e arquitetônica do nosso estado. Um espaço que testemunhou decisões fundamentais para o país e que segue vivo como referência cultural, educativa e institucional. É um patrimônio dos baianos que precisa ser constantemente valorizado e depende de recursos para ser preservado”, destaca Isabela Suarez, presidente da ACB.

O guardião da história

Numa visita anterior ao prédio da ACB, Isabela Suarez apresentou Luiz Carlos Fiore Nery como um “guardião da história” do prédio. E é exatamente assim que ele se vê. Seu Luiz é o responsável por conduzir os visitantes pelo acervo histórico e artístico disponível no prédio que fica na Praça Conde dos Arcos, S/N. “Eu não sou historiador”, avisa logo no primeiro contato. O senhor de 65 anos é apenas alguém que se encantou com todos os registros históricos que encontrou desde que começou a trabalhar no local, há quase 20 anos.

No começo, foi motorista do ex-presidente Eduardo Moraes de Castro, que esteve à frente da entidade no seu aniversário de 200 anos. Trocou o volante por outras funções, como o cuidado do almoxarifado e a manutenção, voltando a dirigir em alguns períodos, antes de se fixar na atividade administrativa. “Aqui a gente faz tudo, eu sou boy, sirvo o café e a água, além de contar a história da casa”, explica. Em todos os momentos, seja lendo antigas atas, ou conversando com historiadores, ex-presidentes e funcionários antigos, Luiz acumulou um conhecimento único sobre a bicentenária entidade.

Atualmente, ele conduz um roteiro pelos corredores da casa sempre que algum visitante se interessa pelo tour. O custo é de R$ 20 e o tempo médio, de 30 minutos, mas com a quantidade de perguntas que a caminhada desperta, é fácil passar de uma 1h.

A ideia de ter se tornado um guardião desta história é “algo lisonjeiro” para ele. “A gente vive em um país que não tem memória, as pessoas não se interessam pela história, saber por que as coisas estão acontecendo hoje e como chegamos até aqui”, diz, ele que se orgulha por ser trineto de Ana Nery, a baiana nascida em Cachoeira, que é reconhecida como patrona da enfermagem brasileira por seus atos durante a Guerra do Paraguai.

“Bem vindos à Associação Comercial da Bahia”, é sempre com este cumprimento que Luiz inicia o roteiro, sempre pelo salão nobre. Ele aponta no alto para um quadro de D. João VI, rei de Portugal que desembarca na Bahia, em 1808, deixando para trás uma Europa em guerra.

É no salão nobre que o condutor explica a decisão do Conde dos Arcos de criar a ACB naquele local. O forte ficava ao lado da praça do comércio na época, a atual Praça da Mãozinha. Ergueu-se então uma estrutura única na América Latina, em estilo neoclássico. “A outra construção que se assemelha nas Américas é a Casa Branca”, diz Luiz.

Numa foto que mostra a assinatura do ato de criação do Polo Industrial de Camaçari, onde foi implantado o maior complexo petroquímico integrado das Américas, é possível ver o ex-governador Luiz Viana Filho, o então presidente da ACB, João Sá, o então governador da Bahia, Antonio Carlos Magalhães, e o banqueiro Clemente Mariano. De suas leituras, Luiz descobriu que João Sá foi o único presidente a ser reeleito. Lembra ainda detalhes da implantação do complexo industrial. “Rômulo Almeida, que tem uma foto na sala do conselho superior, trouxe a autorização para implantar o Polo, dada por Ernesto Geisel, que na época era ministro”, lembra. “Aqui também foram assinados os atos para a construção dos viadutos na Rótula do Abacaxi, e da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol), que atualmente está parada”, complementa.

De dentro do salão, aponta para a praça com o monumento em homenagem à Batalha do Riachuelo, na Guerra do Paraguai. “A Bahia cedeu 18 mil homens, foi quem mais cedeu. E a ACB, além de ter construído o monumento, forneceu ajuda hospitalar e para a moradia no fim do conflito”.

No alto, mostra os lustres no salão, quase todos de Cristal Baccarat, de origem francesa. A exceção é apenas o central, que foi produzido pela antiga fábrica da Fratelli Vita.

Os quadros homenageiam também nomes históricos, como o Visconde de Cairú, que teve papel central na abertura dos portos brasileiros às nações amigas, em 1808. Antes disso, a operação era monopólio de Portugal.

Os registros não escondem capítulos tristes. Em um determinado período, 60% das negociações de negros escravizados aconteciam naquele local. “Salvador já foi o porto mais importante do mundo, então em um certo período, tudo o que entrava ou saia do Brasil, passava por aqui”, conta Luiz Nery.

Na sala da presidência, o anfitrião aponta detalhes pouco conhecidos no painel de 5 metros (m) de largura por 3 m de altura, de Cândido Portinari sobre o desembarque da família real portuguesa em Salvador. No canto direito, aparece, de perfil, Maria Portinari, esposa do pintor, que vez por outra era homenageada em suas telas. Na outra ponta, a única pessoa negra da imagem é uma quituteira. Em toda a tela, ela é a única que não está olhando para o rei D. João VI. A obra pertence à família Mariani e ficava no antigo Banco da Bahia. Após a venda da instituição financeira, foi transferida, em comodato, para a ACB e só foi exposta em outro local por três meses, em 2008, no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, quando se comemorou o bicentenário da abertura dos portos.

Luiz acredita que conduz pelos corredores da ACB menos gente do que deveria. Nos momentos de maior movimentação são, em média, duas visitas por semana. “Este prédio é uma joia. E pensar que em 1910, iria ser demolido para ampliar os acessos à Cidade Baixa... Só está de pé porque durante uma visita à Bahia, o rei da Bulgária, Fernando Maximiliano I apelou para o seu valor histórico”, emenda em mais uma das muitas histórias que pode contar para quem aparecer por lá.