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Donaldson Gomes
Publicado em 10 de janeiro de 2026 às 05:00
Quando o Mercosul, bloco econômico que reúne países da América do Sul, e a União Europeia começaram a negociar um acordo de livre comércio, o mundo ainda era analógico. As primeiras tratativas datam de 1999. Entre idas e vindas, com momentos de aproximação e outros de tensão, só agora, em 2026, os dois blocos conseguiram avançar em direção à criação de um mercado comum com mais de 700 milhões de pessoas. O mundo mudou tanto que a esquerda, aquela que antes tomava as ruas em manifestações contra a globalização, em 1999, hoje curiosamente festeja o acordo, incluido aí o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva. >
Nesta sexta-feira (9), os países da União Europeia (UE) confirmaram a aprovação do acordo comercial com o Mercosul. A informação foi divulgada primeiro pelo Chipre, que exerce a presidência rotativa do bloco. Segundo representantes da UE, uma ampla maioria dos Estados-membros apoiou o acordo de livre comércio com o bloco sul-americano. Mais cedo, os embaixadores dos 27 Estados-membros da UE já haviam sinalizado apoio provisório ao acordo. Segundo o vice-presidente Geraldo Alckmin, ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, cerca de 30% dos exportadores brasileiros vendem produtos para países da UE, o que corresponde a aproximadamente 9 mil empresas.>
“Este acordo fortalece o multilateralismo, o comércio entre os dois blocos, comércio com regras, promove investimentos, devemos ter mais investimentos europeus no Mercosul, fortalece a sustentabilidade, porque Brasil assume compromisso de combate às mudanças climáticas. É ganha-ganha. Produtos mais baratos e de melhor qualidade”, disse Alckmin.>
O acordo tem potencial para ampliar em cerca de US$ 7 bilhões as exportações brasileiras ao mercado europeu, segundo estimativa da Agência Brasileira de Promoção de Exportação e Investimentos (ApexBrasil). A Apex destacou que o acordo envolve uma população de mais de 700 milhões de habitantes e um PIB próximo de US$ 22 trilhões, inferior apenas à economia norte-americana, que tem im PIB de US$ 29 trilhões, e superior ao da China, em torno de US$ 19 trilhões. >
Negociado há mais de 25 anos, o acordo prevê a redução gradual de tarifas, regras comuns para comércio de produtos industriais e agrícolas, investimentos e padrões regulatórios.>
Para o Brasil, maior economia do Mercosul, as vantagens de um tratado com a Europa vão desde a abertura de mercados para produtos nacionais, quanto a redução nos preços de itens produzidos na Europa. No caso da ampliação de mercados, as maiores expectativas se voltam para o agro, uma vez que o Brasil é hoje o principal produtor de alimentos do mundo e tem na Europa o seu segundo maior mercado. E de lá para cá, a tendência é de barateamento, além de um aumento nas ofertas de produtos com maior valor agregado, como vinhos e chocolates finos, entre outros. Atualmente, os países do Mercosul taxam em 27% o vinho e em 20% o chocolate importado da Europa. Os prazos para as tarifas destes produtos serem zeradas variam entre 8 e 12, no caso das bebidas, e podem chegar a 15, para os chocolates. >
Outros produtos como azeite, leite em pó, queijo e fórmulas para bebês também devem ficar mais baratos.>
A aprovação provisória do acordo comercial gerou reações imediatas e contrastantes dentro e fora do bloco europeu. Enquanto governos e setores empresariais celebraram o avanço de um tratado negociado há mais de 25 anos, agricultores europeus foram às ruas em diferentes países para protestar contra o que consideram uma ameaça ao setor rural europeu.>
Em uma declaração oficial, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, também comemorou a decisão. “A Europa está enviando um sinal forte. Levamos a sério a criação de crescimento, empregos e a garantia dos interesses dos consumidores e das empresas europeias”, afirmou em comunicado.>
“Após 25 anos de negociações, concretizamos um acordo substancial e mutuamente benéfico, que impulsionará a prosperidade e criará oportunidades incríveis. Este acordo marca uma nova era de comércio e cooperação com nossos parceiros do Mercosul. Mas também é uma prova da resiliência e da força de nossa relação com a América Latina, e um passo que nos aproximará ainda mais”, completou.>
Na fileira contrária, a ministra da Agricultura da França, Annie Genevard, afirmou que adotará medidas “unilaterais” caso o setor agrícola e pecuário do país seja colocado em risco pelo acordo comercial. Genevard fez essas declarações para responder ao descontentamento dos agricultores, que nos últimos dias protestaram contra a adoção do acordo e contra a gestão da dermatose nodular bovina, uma doença animal.>
Em Paris, vários tratores se posicionaram na entrada da cidade. Os protestos também ocorreram em cidades como Bordeaux e Le Mans.>