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Donaldson Gomes
Publicado em 3 de janeiro de 2026 às 05:00
Três dias depois de o presidente Donald Trump confirmar o primeiro ataque em território venezuelano, o presidente do país latino-americano, Nicolás Maduro, evitou falar sobre o assunto. “Isso pode ser tema para uma conversa em alguns dias”, respondeu ao ser questionado pela imprensa. Apesar da tentativa de colocar panos quentes na situação, a escalada militar na região é evidente e deve causar impactos dentro e fora do território venezuelano. >
Vizinho da Venezuela, com uma fronteira de 2 mil quilômetros, o Brasil assiste, num misto de descrença e preocupação, o acirramento de um conflito que terá consequências catastróficas para todo o continente, caso continue se intensificando e evolua para uma indesejável invasão terrestre. Foi este temor que motivou, em meados de dezembro, um longo telefonema entre o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e Maduro. >
Uma das principais consequências do conflito na Venezuela aqui no Brasil é o de uma nova crise humanitária na região, com o aumento da pressão nas fronteiras. Desde 2015, quase 500 mil venezuelanos vieram para o Brasil. Dados da Agência das Nações Unidas para os Refugiados, a Acnur, indicam que a Venezuela tem hoje o maior número de refugiados espalhados pelo mundo, com um número total de 6,3 milhões de pessoas, mesmo sem ter passado por uma guerra, superando países como a Síria.>
Donald Trump
“O maior risco de todos é a piora da situação humanitária, que já está acontecendo, mas que certamente vai se intensificar”, afirmou Carolina Pedroso, numa entrevista recente à BBC. Ela lembra que estados como Roraima e Amazonas já enfrentam tensões sociais por causa da chegada de venezuelanos, com sobrecarga em serviços públicos e episódios de xenofobia. Com o agravamento da crise econômica e social na Venezuela nos últimos anos, o fluxo de cidadãos venezuelanos para diferentes destinos na América Latina e Caribe cresceu maciçamente.>
Colômbia e Peru são os que mais recebem refugiados e migrantes vindos da Venezuela. >
Monica Herz destaca ainda que um conflito interno ou uma guerra civil “traria sérios desafios de segurança para o controle das fronteiras brasileiras”. Segundo ela, “isso ampliaria os riscos relacionados ao crime transnacional e à circulação de armas e drogas na região”.>
Veja imagens da situação na Venezuela
Desde que anunciou uma operação para combater o narcotráfico no mar do Caribe, os Estados Unidos já enviaram para as margens do território venezuelano uma frota com mais de 20 navios de guerra. Nesta semana, o saldo dos bombardeios a embarcações venezuelanas que supostamente estariam movimentando drogas ultrapassou a marca de cem mortes. >
Enquanto o presidente Donald Trump justifica a pressão contra o país com a justificativa de combate ao tráfico, Nicolás Maduro repete que trata-se de uma tentativa de derrubar o governo. Trump já deu diversas declarações de que considera o venezuelano um líder ilegítimo, por conta do conturbado processo eleitoral que lhe concedeu mais cinco anos no poder. >
Escalada>
Na última terça-feira (dia 30), Washington realizou ataques contra mais três embarcações suspeitas de tráfico de drogas em águas internacionais, informou o Comando Sul, responsável por operações em uma área que vai do Caribe ao sul da Argentina. As embarcações viajavam em comboio, segundo as Forças Armadas americanas.>
Uma autoridade americana, falando sob condição de anonimato, disse que oito pessoas abandonaram suas embarcações e estavam sendo procuradas. Não há notícias sobre o paradeiro desses sobreviventes.>
Em novembro, Trump avisou que em breve iniciaria ataques terrestres contra o território venezuelano. Disse ainda que autorizou operações da CIA, a agência de inteligência dos EUA, no país sul-americano.>
“O que eu posso te dizer é que o sistema defensivo nacional tem garantido e garante a integridade territorial, a paz do país e o uso e desfrute de todos os nossos territórios. Nosso povo está seguro e em paz. Posso te adiantar algo por aí”, respondeu Maduro na última quinta.>
As suspeitas são de que a operação norte-americana tenha acontecido em Maracaibo, no oeste do país, num local onde supostamente acontecia a mistura de pasta para fazer cocaína. A hipótese foi levantada pelo presidente da Colômbia, Gustavo Petro.>
Mais uma vez, Maduro reiterou que está disposto a dialogar com os EUA, após confirmar que não conversa com Trump desde 21 de novembro. “Se [os EUA] quiserem conversar seriamente sobre um acordo de combate ao narcotráfico, estamos prontos”, avisou Maduro. Desde o telefonema, a Venezuela tem investido mais em operações contra o tráfico, mas, pelo menos por hora, nada disso parece sensibilizar os Estados Unidos. >
A presença de porta-aviões e tropas norte-americanas no Caribe rompe com uma tradição latino-americana de não beligerância, segundo Monica Herz, professora do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio. “É algo que coloca em xeque décadas de esforços para manter o Atlântico Sul e a América Latina como zonas de paz”, alerta Herz.>
A especialista considera improvável uma invasão americana à Venezuela nos moldes do Iraque em 2003, quando as forças americanas e aliadas invadiram o país do Oriente Médio e derrubaram o regime de Saddam Hussein. Mas segundo ela, os ataques recentes indicam uma demonstração enorme de força por parte dos EUA em meio à disputa por zonas de influência.>
“Há uma tradição longa, desde a Doutrina Monroe, de ver a América Latina como uma zona de influência norte-americana. Mas tem também uma realidade atual, que diz respeito a esse governo, que afirma as relações de poder militares como absolutamente prevalecentes e joga na lixeira todo o Direito Internacional”, diz. >