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Thais Borges
Alan Pinheiro
Publicado em 21 de março de 2026 às 05:00
Um dia antes da degustação às cegas que elegeu o melhor ovo de Páscoa de 2026, o chef confeiteiro Deyvis Nascimento, proprietário da CamuCaju Confeitaria, foi forçado pelas circunstâncias a trocar o sabor com o qual concorreria no concurso. Inicialmente, ele enviaria para o CORREIO Experimenta um ovo com o sabor Red Velvet. Clássico, conhecido e que agrada muita gente. >
Mas sua paixão, ao criar a CamuCaju sempre foi a confeitaria regional. "Pedro, meu marido, é apaixonado pelo meu red velvet e sempre falava que, apesar de fugir um pouco da minha confeitaria, deveria mandar para o concurso. Decidi fazer isso. Só que, como não tinha começado a produção de Páscoa ainda, não tinha as coisas aqui para fazer no dia. Decidi mudar e seguir meu coração", conta ele, que recorreu justamente ao brigadeiro de licuri que é vendido na loja da marca, no Rio Vermelho. >
Deyvis Nascimento, chef confeiteiro e criador da CamuCaju
O brigadeiro de licuri, inclusive, ficou entre os 10 melhores brigadeiros inovadores segundo o CORREIO Experimenta, em 2025. "O licuri que uso é comprado por minha mãe em Cipó e vem de pequenos produtores. Eles pegam do pé e já ficam muito felizes quando ela vai lá comprar, sempre em quantidade", conta ele, que é natural da cidade no Nordeste baiano. >
O coração de Deyvis, pelo jeito, estava certo. O Chocolate com Licuri foi eleito o melhor ovo de Páscoa de 2026 pelo time de 11 jurados do CORREIO Experimenta, na última terça-feira (17). Elogiado por todos - entre chefs, professores de gastronomia, jornalistas e assinantes -, ele ainda foi o vencedor do ‘voto da redação’, que é uma categoria de voto popular, separada do ranking oficial. >
Ao CORREIO, Deyvis contou que acabou enviando para o concurso a primeira versão do ovo - ou seja, o primeiro teste da receita. "Sempre gosto de textura e crocância, então sempre busco trazer isso para os meus produtos. Já fiz (ovo de Páscoa) de banana chips, com a casca de tapioca. Para esse, eu já tinha a construção na cabeça, mas só fiz agora porque não trabalhava com licuri antes da confeitaria", diz, referindo-se à loja física da marca, que passou a funcionar em junho do ano passado. >
A receita agora leva chocolate meio amargo, leite condensado, leite, licuri, cacau 100%, manteiga e extrato de baunilha. No cardápio, ele também oferece outros quitutes com licuri, como o cookie e tortas. >
Desde que o CORREIO Experimenta foi retomado, em 2024, após a pausa da pandemia, a CamuCaju participou de todas as edições em que tinha produtos doces. A única exceção foi a edição de melhores tortas, em 2024, que só contou com estabelecimentos que tinham pontos físicos e, naquela época, o espaço da confeitaria ainda não existia. Entre ovos de Páscoa, panetones e brigadeiros, a marca sempre figurou em todos os rankings. Até então, a melhor colocação tinha sido o terceiro lugar entre os melhores brigadeiros tradicionais. >
"A gente sempre dá muito valor ao convite e aos resultados, independente de ser 10º, 9º, 8º lugar, porque é uma oportunidade de mostrar nossos produtos. Me dedico, perco noite de sono pensando em criar um sabor e em como vocês vão receber. O (resultado) do brigadeiro me surpreendeu, porque não é nosso forte", admite. >
CamuCaju Confeitaria - Correio Experimenta Ovos de Páscoa 2026
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Aos 31 anos, Deyvis é psicólogo de formação, mas cresceu com um pai padeiro e uma tia boleira de casamentos em Cipó. Desde cedo, ele se tornou a pessoa a fazer os bolos de aniversários da família, mas nunca tinha pensado em seguir a profissão. "Venho de uma realidade no interior em que, infelizmente, a confeitaria não é valorizada. Nem existia faculdade de gastronomia que eu pudesse ter acesso lá na época", conta. >
Assim, ele se formou em Psicologia e veio para Salvador. Aqui, fez um curso de gastronomia, mas ainda encarava como hobby até a pandemia. Naquele período, a clínica em que trabalhava fechou e ele continuou com alguns pacientes online. Até que fez um bolo de casadinho para a família do marido. Depois, mais um bolo para uma pessoa da família. Mas, nessa segunda vez, colegas de trabalho dessa pessoa quiseram fazer uma encomenda. >
"Sentei com Pedro e falei que ia criar uma marca. Foi muito rápido. Normalmente, as empresas crescem devagar, mas CamuCaju foi surreal". Dali em diante, tudo escalou rápido. Em pouco tempo, tinha muitas encomendas e os bolos começaram a tomar conta da rotina. "Não tinha mais espaço para a Psicologia enquanto profissional", lembra. >
O nome veio porque ele achava que o seu próprio nome não tinha sonoridade para a área. Não gostava de como ‘Deyvisson Nascimento’ soava. Chegou a pensar em batizar a empresa com o nome da tia boleira, hoje já falecida, mas acabou se encantando pelo nome de uma fruta amazônica: Camucamu. Quando procurou pelo registro, porém, viu que já existia uma empresa com esse nome. "Pensei: por que não ‘CamuCaju’? Pedro achou estranho, mas fiquei repetindo aquele nome o tempo inteiro". >
Hoje, a CamuCaju tem um ponto no Rio Vermelho, no Shopping Yemanjá, e conta com outros cinco funcionários. "Eu tive bastante resistência ao espaço físico, porque sou um jovem senhor que gosta de ficar em casa e olhar receitas. Tenho uma relação com quase todos os meus clientes e tinha medo que isso se perdesse. Mas, na verdade, fortaleceu ainda mais as relações de carinho e afeto", conta. >