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Nauan Sacramento
Publicado em 24 de março de 2026 às 13:00
O cenário nos postos de combustíveis de Salvador assemelha-se a um teste de resistência financeira. A gasolina comum, que até o início da semana orbitava os R$ 7, sofreu um salto repentino e já atinge a marca de R$ 7,79. O avanço de quase R$ 0,80 em menos de dois dias é o reflexo local da instabilidade no Estreito de Ormuz, que pressiona a Refinaria de Mataripe (Acelen) a repassar a alta de 30% do petróleo internacional às bombas baianas. >
Atrás do volante, os personagens dessa crise tentam traduzir o aumento em perdas reais no dia a dia. Para Ivete de Jesus, 57 anos, o impacto é cronometrado. Motorista de táxi há mais de 15 anos, ela sente que o lucro de cada corrida está ficando pelo caminho. "Essa alta está me fazendo chegar com o bolso vazio em casa. Estou deixando meu lucro no posto", desabafa. Ivete, que atua na região de Mar Grande e Coroa, na ilha de Vera Cruz, já projeta repassar o custo: "Vou ter que cobrar R$ 10. Não dá mais para manter o valor antigo".>
Postos com gasolina barata em Salvador
Já para a estudante Isadora Simões, de 22 anos, a estratégia é técnica. Ela transformou o hábito de dirigir em uma operação “de guerra” contra o consumo. "A alta me fez prestar atenção em tudo: programas de fidelidade, dias específicos de desconto e até o uso do ar-condicionado, que agora fica desligado para economizar qualquer gota", conta.>
O médico Cailan Almeida, de 26 anos, foi ainda mais radical: o carro se tornou um item de luxo. "Já impacta diretamente no meu orçamento básico. Agora, a mobilidade é limitada; só saio quando é realmente uma necessidade extrema", afirma, evidenciando o isolamento social causado pelo custo do transporte.>
Mesmo com a gasolina beirando os R$8, a migração para carros de aplicativo não é uma solução viável para todos. Leonardo Prado, de 22 anos, explica que sua rotina de deslocamentos frequentes durante o dia torna o Uber ou 99 ainda mais caros que manter o tanque cheio. "Uso muito o carro durante o dia, então o aplicativo ainda sairia mais caro”, lamenta.>
Para o economista e educador financeiro Francisco Rodrigues, o comportamento do soteropolitano mudou por pura necessidade de sobrevivência. >
"O brasileiro só toma decisões drásticas quando a corda está no pescoço. Estamos vendo um malabarismo perigoso para sustentar a rotina. É o momento de analisar rotas alternativas como o metrô ou a carona solidária, porque a redução não virá nas próximas semanas", alerta Rodrigues. >
O consultor reforça que, devido aos fatores geopolíticos externos, o cenário de incerteza deve durar de dois a três meses. "Não tome decisões por impulso, mas entenda que o preço que vemos hoje é uma realidade que não vai recuar tão cedo", conclui.>