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Carol Neves
Publicado em 22 de janeiro de 2026 às 09:59
Durante mais de duas décadas, o nome de Sérgio Nahas apareceu nos tribunais como réu em um dos crimes mais emblemáticos da Justiça de São Paulo. Condenado pelo assassinato da esposa, Fernanda Orfali, em 2002, o empresário passou anos recorrendo em liberdade até ser localizado e preso em Praia do Forte, na Bahia. A detenção encerra uma trajetória marcada por recursos, suspeitas de fuga e a tentativa de sustentar a tese de suicídio da vítima.>
A prisão do empresário ocorreu mais de 23 anos após o crime, em um cenário distante daquele em que a morte de Fernanda Orfali foi registrada. Ele foi identificado por câmeras de reconhecimento facial do sistema de monitoramento de Praia do Forte, um dos destinos turísticos mais movimentados do litoral baiano e onde o casal havia passado a lua de mel, de acordo com a CNN. A Polícia Militar confirmou que se tratava do empresário condenado e realizou a abordagem em um condomínio da região. Segundo a corporação, ele não ofereceu resistência. >
Sérgio Nahas foi condenado por matar a mulher, Fernanda Orfali
No momento da prisão, os policiais apreenderam um carro da marca Audi, três aparelhos celulares e pinos de cocaína que estavam com o empresário. Após ser detido, Nahas foi levado à Delegacia Territorial local, encaminhado à Polinter e submetido a audiência de custódia. A Justiça determinou que ele cumpra a pena no sistema prisional paulista.>
A ordem de prisão foi expedida após o Supremo Tribunal Federal (STF) manter, em junho, a condenação definitiva do empresário. Com o esgotamento de todos os recursos apresentados pela defesa, a Justiça de São Paulo determinou o imediato cumprimento da pena de 8 anos e 2 meses de prisão em regime inicial fechado. O juiz Roberto Zanichelli Cintra, da 1ª Vara do Júri da capital, também já havia autorizado a inclusão do nome e da foto de Nahas na Difusão Vermelha da Interpol, diante da possibilidade de que ele estivesse fora do país.>
O crime no apartamento em Higienópolis>
Fernanda Orfali tinha 28 anos e estava casada havia apenas seis meses quando foi morta, em 2002, no apartamento onde vivia com Sérgio Nahas, em Higienópolis, bairro nobre da região central de São Paulo. A estilista foi atingida por um disparo que atravessou a região próxima à coluna vertebral e alcançou o coração, provocando sua morte.>
De acordo com a acusação, Fernanda passou a confrontar o marido após descobrir que ele mantinha relações extraconjugais com travestis, frequentava orgias e fazia uso de cocaína. A promotoria sustentou ainda que Nahas se sentiu ameaçado diante da possibilidade de um pedido de separação e da consequente partilha dos bens do casal.>
As investigações apontaram que, durante a discussão, Fernanda tentou se proteger do marido e se trancou no closet do apartamento. Ainda segundo o Ministério Público, Nahas arrombou a porta e efetuou dois disparos. A perícia oficial concluiu que o primeiro tiro atingiu a vítima, enquanto o segundo saiu pela janela do imóvel.>
A tese de suicídio e as provas técnicas>
Desde o início do caso, Sérgio Nahas negou o crime e sustentou a versão de que Fernanda teria cometido suicídio. A defesa afirmou que a vítima fazia tratamento contra depressão e apresentou diários escritos por ela como indício de que teria o desejo de tirar a própria vida. Nahas disse ter ouvido um disparo e encontrado a esposa ferida.>
A tese foi rejeitada pelos laudos periciais. A Polícia Técnico-Científica não encontrou resíduos de pólvora nas mãos de Fernanda, o que enfraqueceu a hipótese de suicídio. Quanto a isso, a defesa alegou que a pistola utilizada não deixaria vestígios nas mãos, apenas na roupa.>
A promotoria também afirmou que a cena do crime foi alterada antes da chegada da perícia. Um dos indícios apontados foi a presença de pólvora em uma camisa pertencente a Nahas, encontrada escondida embaixo da cama. Para os investigadores, os elementos técnicos tornavam improvável a versão de que a morte tivesse sido provocada pela própria vítima.>
Pedido de socorro e reação da família>
No dia do crime, Fernanda chegou a pedir ajuda ao irmão, Júlio Orfali, por telefone. Ele se dirigiu ao apartamento acompanhado dos outros três irmãos da vítima, mas, ao chegar ao local, Fernanda já havia sido morta.>
A família sempre contestou a tese de suicídio apresentada pela defesa. Parentes afirmaram que Fernanda nunca havia feito tratamento psiquiátrico antes do casamento, diferentemente de Nahas, que, segundo eles, apresentava episódios frequentes de instabilidade emocional e períodos de desaparecimento.>
“Nestes 23 anos de meio de luta, uma luta incansável, eu sempre acreditei que minha irmã, primeiro, não tinha se matado. E, segundo, que merecia justiça”, afirmou Júlio Orfali ao Estadão, após a prisão de Nahas. >
Ele acrescentou: “Foi uma luta muito dolorosa porque, em um crime como esse, o culpado demorou 23 anos e meio pra pagar, e com uma pena ridícula. Mesmo que seja a pouco tempo, ele vai pagar por uma destruição de uma família. Essa é uma cicatriz eterna”.>
Julgamento tardio e prisões anteriores>
O julgamento de Sérgio Nahas só ocorreu 16 anos após o assassinato. Em 2018, ele foi condenado pelo Tribunal do Júri por homicídio simples, sem qualificadoras, e sentenciado a sete anos de prisão em regime semiaberto. O Ministério Público de São Paulo recorreu, e a pena foi elevada para 8 anos e 2 meses de prisão em regime inicial fechado, decisão mantida pelo STJ e pelo STF.>
Antes da condenação definitiva, Nahas chegou a ser preso em outras ocasiões. Logo após o crime, foi detido por porte ilegal de armas, após a polícia encontrar quatro pistolas em sua residência, permanecendo preso por 37 dias. Em 2004, voltou a ser preso após a suspeita de que tentaria fugir para a Suíça, mas obteve habeas corpus no mês seguinte e foi solto novamente.>
O que diz a defesa>
A defesa de Sérgio Nahas afirmou ao Estadão que o empresário mora na Bahia desde o ano passado. Segundo a advogada Adriana Machado Abreu, ele é uma “pessoa íntegra, idosa, com questões graves de saúde e que não tinha interesse em ficar foragido”. >
A advogada disse ainda que não havia conseguido contato com o cliente após a prisão e preferiu não comentar sobre os pinos de cocaína apreendidos durante a abordagem policial.>