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Carol Neves
Publicado em 22 de janeiro de 2026 às 08:12
A prisão do empresário Sérgio Nahas, mais de duas décadas após o assassinato da esposa, trouxe novamente à tona um dos casos criminais mais emblemáticos do Brasil. Condenado definitivamente a 8 anos e 2 meses de prisão em regime fechado, Nahas foi alvo de mandado expedido pela Justiça paulista após o Supremo Tribunal Federal (STF) encerrar todas as possibilidades de recurso. Ele foi localizado em Praia do Forte, na Bahia, com ajuda de câmeras de reconhecimento facial. >
O crime ocorreu em 2002, no apartamento onde o casal vivia, em Higienópolis, bairro nobre da região central de São Paulo. Fernanda Orfali, estilista de 28 anos, estava casada havia apenas seis meses quando foi morta com um tiro no peito - disparo que atingiu o coração.>
Sérgio Nahas foi condenado por matar a mulher, Fernanda Orfali
Desde o início, o caso foi cercado por versões contraditórias. Nahas afirmou que ouviu um disparo vindo do closet e que, ao chegar ao local, encontrou a esposa ferida. A defesa do empresário sustentou que Fernanda sofria de depressão e teria cometido suicídio. Essa narrativa, porém, foi rejeitada pelas investigações e pelos laudos periciais.>
Segundo a acusação, Fernanda tentou se proteger do marido ao se trancar no closet, mas a porta foi arrombada. Em seguida, Nahas teria efetuado dois disparos. A perícia oficial apontou que o primeiro tiro atingiu a vítima e o segundo saiu pela janela do apartamento.>
O laudo da Polícia Técnico-Científica também não encontrou vestígios de pólvora nas mãos de Fernanda, o que enfraqueceu a tese de suicídio. Além disso, a promotoria sustentou que a cena do crime foi alterada antes da chegada dos peritos. Um dos indícios citados foi a presença de pólvora em uma camisa do réu, escondida sob a cama.>
A motivação do crime, segundo o Ministério Público, estaria ligada a uma sequência de conflitos conjugais. Fernanda teria descoberto que o marido mantinha relações extraconjugais com travestis, frequentava orgias e fazia uso de cocaína. A acusação também apontou que Nahas temia a partilha de bens diante da possibilidade de um pedido de divórcio.>
No dia do assassinato, Fernanda ainda tentou pedir ajuda. Ela ligou para o irmão, Júlio Orfali, pedindo socorro. Quando ele chegou ao apartamento acompanhado dos outros três irmãos, a estilista já estava morta.>
A família sempre rechaçou a versão de suicídio. Parentes afirmaram que Fernanda nunca havia feito tratamento psiquiátrico antes do casamento, ao contrário de Nahas, que, segundo eles, apresentava episódios recorrentes de instabilidade emocional e períodos de desaparecimento.>
Agora, o irmão de Fernanda, Júlio Orfali comentou o desfecho do caso. “Nesses 23 anos e meio de luta, eu sempre acreditei que minha irmã, primeiro, não tinha se matado. E, segundo, que merecia justiça”, disse ao Estadão. Ele acrescentou: “Foi uma luta muito dolorosa porque, em um crime como esse, o culpado demorou 23 anos e meio para pagar, e com uma pena ridícula. Mesmo que seja há pouco tempo, ele vai pagar por uma destruição de uma família. Essa é uma cicatriz eterna”.>
CASOS DE FEMINICÍDIO E TENTATIVA
Espera pela Justiça>
O processo judicial se arrastou por 16 anos até o primeiro julgamento. Em 2018, Sérgio Nahas foi condenado pelo Tribunal do Júri por homicídio simples, sem qualificadoras, a sete anos de prisão em regime semiaberto. O Ministério Público recorreu, e a pena foi elevada para 8 anos e 2 meses, com regime inicial fechado. A decisão foi mantida pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) e, posteriormente, pelo STF.>
Durante todo esse período, Nahas respondeu em liberdade. Ele chegou a ser preso duas vezes antes da condenação definitiva: a primeira, logo após o crime, por porte ilegal de armas - foram encontradas quatro pistolas na residência -, permanecendo detido por 37 dias; a segunda, em 2004, após suspeita de tentativa de fuga para a Suíça. Em ambos os casos, acabou solto por decisões judiciais.>
Com o trânsito em julgado da condenação, o juiz Roberto Zanichelli Cintra, da 1ª Vara do Júri da capital, determinou a expedição do mandado de prisão e a inclusão do nome de Sérgio Nahas na Difusão Vermelha da Interpol, medida que permite a prisão do condenado fora do país, caso estivesse no exterior.>
Prisão após 23 anos>
Sérgio Nahas foi preso em Praia do Forte, no litoral da Bahia, após ser identificado por câmeras de reconhecimento facial do sistema de monitoramento da região, um dos destinos turísticos mais frequentados do país. A Polícia Militar confirmou a identidade do empresário, que tinha mandado de prisão em aberto expedido pela Justiça de São Paulo, e realizou a abordagem em um condomínio da região. Ele não ofereceu resistência.>
Durante a ação, os policiais apreenderam um carro da marca Audi, três aparelhos celulares e pinos de cocaína que estavam com o condenado. O empresário foi encaminhado à Delegacia Territorial local e, posteriormente, à Polinter, devendo seguir para cumprir pena em São Paulo. A prisão ocorreu mais de 20 anos após o assassinato de Fernanda Orfali, crime que ele sempre negou, mas pelo qual foi condenado definitivamente pela Justiça.>
A defesa de Sérgio Nahas afirmou que o empresário morava na Bahia desde o ano passado. Segundo a advogada Adriana Machado Abreu, ele é uma “pessoa íntegra, idosa, com questões graves de saúde e que não tinha interesse em ficar foragido”. A advogada também declarou que não havia feito contato com o cliente após a prisão, segundo o Estadão, e por isso não poderia comentar as informações da polícia de que drogas foram achadas com o cliente.>