Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Maria Raquel Brito
Publicado em 23 de janeiro de 2026 às 06:00
“Tinha um lindo futuro pela frente”. Assim é descrita Rhianna Alves, mulher trans de 18 anos de idade, por sua irmã. Dela, porém, foi tirada a chance de viver. No dia 6 de dezembro de 2025, Rhianna foi morta com golpes de arma branca em Luís Eduardo Magalhães, no oeste da Bahia, e entrou para a cruel estatística de violência contra pessoas LGBTQIA+ na Bahia. >
Casos como o de Rhianna não são isolados. Em 2025, foram registradas 257 mortes violentas de gays, lésbicas, transexuais e bissexuais no Brasil, aponta um levantamento feito pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), a mais antiga ONG LGBTQIA+ da América Latina. O número, equivalente a uma morte a cada 34 horas, faz com que o país mantenha a liderança entre os países que mais matam essa população.>
A Bahia, por sua vez, assumiu a segunda posição entre os estados com mais mortes violentas – atrás apenas de São Paulo – e a primeira no ranking dos estados nordestinos. Foram registrados no estado 17 óbitos, 6,6% do valor total, em um cenário populacional três vezes inferior ao de São Paulo.>
LGBTs vítimas de violência
Para o antropólogo, pesquisador e ativista Luiz Mott, um dos fundadores do GGB, a posição constante da Bahia entre os estados mais letais é grave, sobretudo por ser uma terra com população LGBTQIA+ tão visível.>
“A Bahia tem toda a infraestrutura para não ter tanto assassinato. Tem mais de 70 paradas só em Salvador, sem contar as que acontecem pelo interior. Tem grupos gays, além do GGB, tem outros grupos de travestis e grupos de gays e lésbicas. Tem dois centros de referência LGBT, um estadual e um municipal. E por que ainda continua com essa liderança mortífera? Não tem explicação”, diz. “Infelizmente, não há uma sensibilidade do governo estadual para que a polícia, as forças de segurança, persigam os criminosos, que investiguem com profundidade os crimes contra a comunidade LGBT, de modo que a Bahia deve rimar com alegria e não com homofobia.”>
Com 25,7% do total de mortes, o Nordeste é a região com mais vítimas identificadas. Salvador aparece em quinto lugar entre as capitais nordestinas mais violentas (taxa de 0,34 mortes por milhão de pessoas), atrás apenas de Maceió, em Alagoas (0,88/milhão). Em nível nacional, a capital baiana está em quinto lugar.>
Entre as vítimas em todo o Brasil, a maior parte são homens gays: 156, número correspondente a 60,7% do total. As mulheres trans são o segundo grupo mais vitimado, com 46 mortes em 2025. Em seguida, vêm travestis (18), bissexuais (9), lésbicas (3) e homens trans (3). Outras três vítimas eram heterossexuais e 16 não tiveram a orientação informada.>
Em relação à faixa etária, a maioria das vítimas (154) também não teve idade informada. Das que tiveram, pessoas entre 19 e 30 anos chamam atenção, com 19 mortes. Em seguida, com 37 casos, aparecem pessoas entre 31 e 45 anos. Quatro vítimas tinham menos de 18 anos.>
Um ponto reforçado ao longo do documento é a alta chance de subnotificação nos dados trazidos. Isso porque o levantamento é feito a partir da coleta de informações em portais de notícias, uma vez que, de acordo com o GGB, que realiza a pesquisa há 45 anos, não há estatísticas oficiais sobre mortes por LGBTfobia.>
“Esse número é apenas a ponta de um iceberg de ódio e sangue, porque devem ser muito mais casos em que a vítima foi encontrada morta, mas não havia identificação de que era gay ou que a família escondeu ou a polícia não investigou. (...) Há vários registros de serial killers de LGBT na história do Brasil recente, de modo que essa questão da falta de estatísticas é um dos fatores que estimula a mortandade, os crimes homotransfóbicos. Porque a população não fica sabendo quantos foram mortos, quais as penas contra os assassinos. ‘O silêncio é igual à morte’ é um slogan internacional, de modo que é fundamental que o governo assuma essa responsabilidade”, diz Mott.>
Segundo ele, os dados mostram que, nas últimas quatro décadas, as mortes anuais variam entre 200 e 400, e afirma que não há uma lógica no aumento ou na queda.>
“No mesmo governo de Lula já houve época em que teve 300 assassinatos, assim como, surpreendentemente, no governo de Bolsonaro diminuiu. E por que diminuiu? Não foi por políticas governamentais de prevenção, de maior segurança pública nos locais de socialização da população LGBTQIA+. São números imprevisíveis, num ano mata-se mais no verão, no outro no inverno, mais na segunda-feira, no outro ano é no fim de semana. O certo é que serão todos os anos mais de 200 casos.”>
Dia após dia, pessoas no Brasil afora recebem notícias de tragédias envolvendo familiares e amigos da comunidade LGBTQIA+. A violência se manifesta de diferentes formas, da verbal à física, até chegar à morte. De acordo com o levantamento, 204 das mortes registradas em 2025 foram homicídios, 20 suicídios, 17 latrocínios, quatro atropelamentos e 12 foram por outros modos.>
Na Bahia, o caso mais recente foi o de Jullyana Freitas Leite, de 40 anos, assassinada com um tiro na cabeça em Feira de Santana no último dia 8, após um cliente se recusar a pagar por um programa.>
“Os traumas vão aumentando, a discriminação é dura”, diz Millena Passos, mulher trans ativista do movimento há 30 anos, vice-presidente da União Nacional LGBT (UNALGBT) e coordenadora do GGB. “Eu perdi alguns amigos para o suicídio. A depressão, a solidão, tem um conjunto de coisas que vão acontecendo na vida da pessoa até chegar a esse ponto.”>
Segundo Millena, as estatísticas mostram que é tirado da comunidade o direito à vida e ao envelhecimento, visto que jovens de até 30 anos são as principais vítimas. Nas décadas em que acompanha o movimento, ela percebe que, por mais que existam políticas públicas, a violência continua gritante.>
“Eu digo que é uma ferida que sempre vai tentando cicatrizar de alguma forma, vai começando a se fechar, mas a cicatrização nunca chega. Sempre tem alguma coisa”, afirma. No próximo domingo (25), em mais um exemplo da luta diária, Millena tomará as ruas de Brasília ao lado de colegas transsexuais e aliados para defender os direitos dessa população, na III Marsha Trans Brasil.>