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Documentos reacendem polêmica: quem foi o verdadeiro pioneiro do Circuito Barra-Ondina?

Registros divulgados nesta terça-feira (17) apontam bloco que teria iniciado os desfiles no Circuito Dodô

  • Foto do(a) author(a) Monique Lobo
  • Monique Lobo

Publicado em 17 de fevereiro de 2026 às 23:10

Segundo dia do Bloco Coruja arrastou multidão no circuito Dodô
Circuito Dodô Crédito: Arisson Marinho/CORREIO

A disputa judicial pelo primeiro lugar na fila de desfile dos blocos do Circuito Dodô (Barra-Ondina) gerou debates neste Carnaval. A cantora Daniela Mercury destacou, em entrevista coletiva no domingo (15), sua estreia no trajeto em 1996.

"Desci para cá, no escuro, não tinha luz, não tinha televisão, o público não estava acostumado a vir para cá. [...] A única que ficou de lá até aqui, 30 anos, sou eu, com o Crocodilo. [...] Não venha me dizer que eu não estou no lugar que eu mereço. Eu tenho que estar na frente e escolher o lugar aqui na Barra, porque quem fez esse circuito fui eu", afirmou.

Documentos e fotos apontam que bloco Baby-Léguas foi o primeiro a desfilar no Circuito Dodô por Divulgação

No entanto, alguns documentos e registros da Revista Exclusiva mostram que pelo menos outro bloco já havia desfilado no circuito antes da chegada da artista: o Baby-Léguas.

O bloco, abriu a quinta e sexta-feira de Carnaval no Circuito Dodô este ano. Os documentos foram divulgados nesta terça-feira (17), pelo empresário e editor da Revista Exclusiva Clóvis Dragone. “O Baby-Léguas inaugurou o desfile de bloco estruturado no trecho Barra-Ondina em 1987", revela.

Entre os registros, estão uma entrevista com Otto Pipolo, criador do bloco; fotos do desfile de 1987; um alvará do Juizado de Menores autorizando o desfile de crianças no bloco; um carnê de um associado do mesmo ano; um contrato de atrações musicais da época; e uma moção de agradecimento ao então prefeito pela aprovação dos desfiles no trajeto Ondina-Barra, de 1991.

Na entrevista de 2021, o presidente do Baby-Léguas contou como surgiu a ideia para a criação do Circuito Barra-Ondina. Segundo Pipolo, lembranças da infância o influenciaram a escolher levar o Baby-Léguas para lá. "Nos primeiros anos de existência do Bloco Papa-Léguas, optamos sempre em realizar eventos populares. [...] Nesse sentido lançamos do Farol da Barra até Ondina o caminhão do Papa-Léguas com a Banda Musical de Oscar, da Polícia Militar", falou para a publicação.

Ainda segundo Otto Pipolo, o Baby Léguas desfilou sozinho no circuito, que na época era da Ondina para a Barra, por sete anos.

E quando o trajeto virou Barra-Ondina?

Aí mora um mistério. O próprio Otto Pipolo, na entrevista de 2021, não conseguiu cravar essa informação. "Existe uma polêmica e mistério em torno dessa pergunta, vários blocos reivindicam para si essa façanha. Para chegar a verdadeira resposta, é necessário definir o que é um desfile de bloco de Carnaval. Um bloco de Carnaval em Salvador é caracterizado e definido como uma 'Entidade Carnavalesca', cercado por cordas com seguranças e cordeiros, que protegem os foliões que desfilam, vestidos com uma indumentária padrão, hoje conhecida como abadá, e são animados por um trio elétrico com banda musical", avaliou.

Na própria edição da revista há uma nota com uma entrevista com o seu editor, Clóvis Dragone. Nela, ele atestou que, depois da criação do circuito pelo Baby-Léguas, um bloco da Revista Exclusiva foi o primeiro considerado "completo" - com trio elétrico, banda do bloco, "associados", carro de apoio e seguranças - a desfilar no Circuito Barra-Ondina, em 1993.

"Até o Carnaval de 1992, todas as entidades carnavalescas que desfilavam naquele que seria chamado de 'Circuito Alternativo da Barra', desfilavam no sentido Ondina-Barra, inclusive o próprio bloco da Exclusiva. Porém, no segundo dia de desfile daquele ano, uma segunda-feira de Carnaval, dia 22 de fevereiro, o bloco que não tinha trio elétrico e contava com as parcerias dos trios Tapajós e Tokjós, teve problema de atraso", lembrou.

Ainda segundo Dragone, a demora aconteceu porque o trio do Tokjós, que seria utilizado, estava sendo usado pelo cantor Cid Guerreiro, que descia da Ondina até o Farol. "Ao chegar no Farol, já muito atrasado, o cantor Cid Guerreiro demorou de entregar o trio, causando um atraso irreparável", disse. Foi aí que, de acordo com o editor da revista Exclusiva, a direção do seu bloco decidiu subir dali mesmo, fazendo o percurso do Farol até Ondina.

Antiguidade é posto?

Para Dragone, o debate sobre a ordem que acontece este ano não é apenas uma disputa operacional, mas uma batalha simbólica sobre origem e legitimidade. “A ordem de desfile ao longo dos anos não surgiu do nada. Ela reflete uma cronologia. Se o Baby-Léguas segue sendo o primeiro da fila no Dodô, é porque existe um marco histórico anterior que sustenta essa posição”, acrescenta.

Ele também pondera que a disputa de narrativas precisa de documentação para que possa se tornar oficial. “Se houver documento anterior comprovando desfile formal de bloco no Barra-Ondina, que seja apresentado. Até lá, o que existe é 1987. E isso está provado”, conclui.

O projeto Correio Folia é uma realização do Jornal Correio com apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador.

Tags:

Carnaval Carnaval 2026 Daniela Mercury Disputa Crocodilo Fila Blocos Circuito Dodo Circuito Barra-ondina Baby-léguas