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Joana Rizério
Publicado em 13 de janeiro de 2026 às 13:01
Um dia, Pedro, seu marido, mostrou para mim algum segredo besta de vocês e suou frio logo depois, ao comentar que você o mataria por ter me revelado aquilo. “Por uma idiotice dessas que eu também faço?”, perguntei. Eu quis saber o porquê e ele disse: “Júlia pensa que você pode usar isso contra ela, um dia”. >
Aquilo foi um golpe. Mas, em vez de me revoltar, meditei sobre esse seu medo e concluí que sempre dei sinais de que te trairia quando você menos esperasse, numa manifestação típica da raiva que sempre senti de você, que vem de um ressentimento profundo e de uma sensação de abandono por nunca ter sido escolhida para ser uma grande amiga ou confidente. Passei anos sem entender por quê as coisas tinham que ser assim. Hoje, eu entendo tudo, ou quase tudo, e queria te explicar.>
A cura tardia da minha infantilidade e a minha intensa crueldade de criança sempre foram um choque para você, que é capaz de ser escrota só até um certo limite. Você rivalizou comigo o quanto pôde e muitas vezes foi tirana e violenta, mas sempre fez tudo com um senso ético muito bem determinado. Enquanto você pisava nos meus calos como qualquer irmã, eu agia muitas vezes sem noção de humanidade. Como dói demais em mim lembrar de coisas que eu te fiz, recordo o que cometi contra nossa irmã Morena. >
Em uma briga, para responder a uma pirraça qualquer, eu lembrei-a de que ela não era filha de sangue de meu pai. Foi um ataque completamente desproporcional, inerente à minha capacidade astrológica de identificar e futucar feridas exatamente onde elas doem. Eu não faço mais isso desde que, graças a Deus, a empatia plena me tomou e espantou do meu coração sentimentos selvagens. Sobraram lembranças que hoje doem mais em mim do que jamais doeram em alguém.>
Você foi, então, alvo de minha inveja. Enquanto eu brigava na escola, você fazia amigos e mais amigos. Você descobria músicas fenomenais e eu, escondido, mergulhava naquelas referências até conhecê-las melhor do que você. Assim foi a minha formação cultural: sempre à sua sombra, escutando escondido os seus discos e lendo os seus livros quando você os deixava à toa – até porque, admita: você sempre foi excessivamente ciumenta com suas coisas. >
Aí veio a sua derrocada acadêmica em forma de repetência em algum ano da escola. Automaticamente eu, que já apresentava sinais de algum arrojamento intelectual e um hiperfoco bem típicos dos portadores da doença bipolar, fui considerada como a grande promessa estudantil da família – título que, você sabe, eu sustentei sem o menor merecimento, porque sempre fui uma aluna mediana.>
Decidida a te detestar, eu tomei como intrusivo e descabido o seu entendimento de que álcool era um problema muito grave na minha vida, porque eu fui dada a bebedeiras homéricas desde a adolescência, um modo bastante contumaz dentre os que compartilham da minha condição mental para tentar aturar a realidade. Gente que tem o meu transtorno tem uma grave tendência a compulsões e, sem ainda conhecer as nuances do meu diagnóstico, você sabia exatamente o que era bom para mim. >
Entrou por um ouvido e saiu pelo outro a belíssima demonstração de amor que um dia você me deu ao pedir de presente de aniversário que eu parasse de beber. Em outra ocasião, você disse, lindamente, que o meu único defeito era a cachaça; em vez de receber o elogio, mandei você àquele lugar. Tenho 38 anos e só revisei meu relacionamento com essa droga maldita há pouco mais de três. Você estava coberta de razão e parar de beber que nem uma egressa da juventude transviada de James Dean foi a melhor coisa que me aconteceu.>
Um dia, cheguei à conclusão de que você me amava, mas não gostava de mim. Seríamos diferentes demais, com visões de mundo e desejos vitais opostos. Mais recentemente, porém, percebi que não era nada disso: nós somos feitas da mesma matéria e temos os mesmos objetivos na vida. Desejamos ardentemente os mesmos sonhos coletivos e temos os mesmos princípios de moralidade. O que nos difere é o seu signo de tijolo com ascendente em lágrimas e lua em cimento (terra, drama e mais terra), contra o meu, que é de incêndio, alucinação e troça. >
O que de fato nos distanciava era seu o senso de responsabilidade, que em mim chegou tarde, ou não chegou – enquanto até da nossa mãe e do nosso pai você teve que tomar conta precocemente na vida. Eu sou muito brincalhona e sempre achei que não combinávamos porque você era muito séria. Mais recentemente soube, ouvi falar e notei que você é igualmente boba, mas talvez nunca pôde demonstrar esta faceta no trato comigo porque sempre foi necessário que alguém trouxesse a régua do senso adulto para a nossa relação.>
Finalmente, veio o episódio em que você me ataca com uma vassoura. Em vez de esperar o momento dramático passar e ponderar que você não apenas é humana e pode errar, mas que você não tinha errado tanto assim – pois eu, mesmo inimputável e psicótica, testei quase conscientemente cada limite seu –, eu me afastei de você por anos e devotei a você a total desumanização que tanto denunciei sofrer. Eu comentava com as pessoas: “Como pôde ela agredir alguém doente? Como pôde aceitar a minha provocação, sendo que eu estava fora de mim?” Mimimi...>
Para mim, foi satisfatório detectar uma mácula abissal no seu caráter. “Por que ela não consegue pedir desculpas – ela, que se acha tão justa? Por que, ainda que não se achasse errada, ela não me pediu perdão, só para emendar a relação e pôr fim na guerra?” A última parte eu não entendo, mas não é como não entendo a ausência de outros pedidos de perdão que sei que me devem. Você, eu consigo perdoar sem que me o tenha pedido, sabe por quê? Senta, que lá vem a história que eu deveria ter te contado há dez anos…>
Porque você tentou me salvar todas as vezes. Porque você só não esteve presente nas duas últimas crises porque eu te deletei dos meus contatinhos. Você parou sua vida e se mudou para a minha casa quando eu adoeci e, de lá, só saiu porque eu te expulsei. Quando eu te liguei de Londres e falei que estava presa num manicômio, parecia que eu tinha pedido uma mera carona na madrugada – “Tô indo aí te buscar, aguente firme”, você falou. No mesmo dia, grande produtora, você mandou um conhecido seu cruzar a capital inglesa para me abastecer de uma escova de dentes e de cigarros.>
Não demorou uma semana para que sua presença irritantemente salvadora me encontrasse no pátio daquele hospital. Pedro diz que você se ressente por eu não ter feito, no meu livro Na pior em Berlim, Londres e Salvador, um reconhecimento do seu esforço cinematográfico para me resgatar – uma saga que envolveu dedo na cara de embaixadas, de companhias aéreas, das polícias de dois países e a incorporação de Sherlock Holmes para reaver meus pertences espalhados, cheios de enigmas, pela cidade. >
A verdade é que eu só soube disso tudo, e sem nenhum detalhe, por Pedro, um dos únicos seres humanos desse clã que fala comigo de igual para igual e que tenta me munir da verdade – por isso a grande amizade que tenho com ele. Meu sonho é ouvir o seu lado da história, mas o que você não imagina é que eu farei isso às gargalhadas. O assunto finalmente deixou de ser doloroso para mim desde que escrevi aquele livro, que foi mais eficaz que dez anos de terapia. >
Eu sempre soube que sou um incômodo na sua vida, mas não do tipo incisivo, absoluto, como uma espinha interna no nariz, um corte de papel no dedão ou uma conta importante que você não tem dinheiro para pagar. Eu sou um aborrecimento, como é o capitalismo diante da beleza de que o mundo poderia desfrutar sob um outro sistema melhor para todos. Sou, na sua vida, como o patriarcado que resiste à perfeita solução do feminismo. Eu sou o inexplicável virar as costas do mundo para o que acontece em Gaza. Eu sou, aos seus olhos, não a realidade palpável do meu ser, ou a essência de como eu me apresento ao mundo, mas todas as formas como você sabe que eu poderia ser melhor. >
Você não me aceita porque não gosta de mim, mas porque me ama demais e pensa que eu sou a pessoa potencialmente mais revolucionária do mundo e que, deliberadamente, eu escolho não ser. E isso te frustra, porque você é completamente apaixonada por mim e me conhece melhor do que qualquer pai, amigo ou amante. Sendo assim, você se revolta com a minha aparente burrice de insistir em não ser mais eficiente na missão de ser, logo, completamente feliz.>
Mas eu mudei, de uns anos para cá. Eu cansei de sofrer e já passei a ser a mulher mais radiante do planeta. Te escrevo hoje porque preciso que você saiba disso. Também, porque preciso de seu colo e de seus conselhos. Preciso de mais uma de suas incansáveis demonstrações de amor e de novas chances. Preciso que você me conheça, que baixe a guarda e lute ao meu lado para conquistar um mundo melhor para nós todos. Porque eu, no fundo, sou a sua maior fã. Talvez uma fã que atiraria em Lennon, mas uma fã. Rs.>
Odeio quando fico sabendo das culpas que você sente. Elas não têm sentido. Você é excelente em tudo o que se propõe a fazer. Aqui e agora, eu te concedo o reconhecimento de que, também eu, te acho extraordinária. Você é impecável e surpreendente na estranha e complicada missão de ser a minha irmã mais velha. Eu demorei para dizer isso, eu sei. É que foi difícil. É complicado ser irmã da melhor. Eu sou só uma aprendiz que quer tirar nota dez. Venha logo corrigir minha prova, que eu tenho saudade de todas as anotações da sua caneta vermelha.>
Feliz 42 anos.>
Beijos,>
Jô.>