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Alan Pinheiro
Publicado em 19 de março de 2026 às 09:16
Antes de pertencer, é preciso se reconhecer. É a partir desta temática que o filme Narciso constrói o enredo de seu protagonista em uma história que une o conhecido mito grego à infância de uma criança negra no Brasil. Com estreia marcada para esta quinta-feira (19) nos cinemas brasileiros, o longa-metragem reúne diferentes referências para criar uma história única.>
Narciso narra a jornada de um menino negro e órfão (Arthur Ferreira) que vive em um lar temporário. Após ser devolvido por pais adotivos, ele recebe uma bola de basquete "mágica" e faz um pedido a um gênio (interpretado por Seu Jorge): ter uma família rica. O desejo é atendido, mas com uma condição: ele jamais poderá ver sua própria imagem refletida.>
Conheça Narciso, filme nacional dirigido por Jeferson De
Dirigido por Jeferson De (“Bróder”, “M8 – Quando a Morte Socorre a Vida”), a obra tem uma narrativa que mescla a dureza da realidade ao realismo fantástico, explorando o desejo de um lugar no mundo sob o olhar de uma criança marcada pelo preconceito. Dentro dessa ótica, o diretor reúne signos e simbolismos que explicitem as dicotomias entre os dois mundos ocupados pelo protagonista.>
A mudança na saturação da imagem, a transição de planos mais fechados para imagens abertas com ambientes excessivamente vazios e as próprias marcações de classe e raça potencializam a mensagem do filme.>
Protagonizado por Arthur Ferreira, o elenco da produção também conta com Bukassa Kabengele, Ju Colombo, Faiska Alves e Fernanda Nobre, além das participações especiais de Seu Jorge, Juliana Alves e Marcelo Serrado.>
No mito grego, Narciso era um jovem de beleza extraordinária, famoso por seu orgulho e desprezo pelas pretendentes. Após rejeitar a ninfa Eco, foi amaldiçoado e apaixonou-se pelo próprio reflexo em uma fonte, definhando até a morte – cena que inspirou o famoso quadro de Caravaggio. >
Já na obra de Jeferson De, Narciso não é quem rejeita, mas aquele que é rejeitado – ou imagina ser. A desconstrução é feita para debater o reconhecimento de pessoas negras como negras e um entendimento político do que significa ser negro. Toda a discussão acontece dentro de uma estrutura de enredo que lembra um conto com uma lição de moral ao final.>
Em 2003, o curta Narciso RAP foi lançado com a mesma história. 23 anos depois, o diretor volta para revisitar uma de suas primeiras histórias contadas com mais experiência e mais amadurecido. Segundo o diretor, o intervalo entre as obras foi importante para que pudesse explorar com mais profundidade questões que foram abordadas rapidamente no curta.>
"Eu e a roteirista percebemos que a gente podia aprofundar essas questões da beleza e essa dificuldade que a criança negra tem de ver a beleza em si próprio, né? Porque a beleza que ela enxerga, sobretudo em tudo que invade seus olhos e a sua mente, é a da pessoa de pele branca. É um filme que fala muito sobre o silêncio", explica.>
Outra característica do longa é a amálgama de referências usadas pela direção, que junta mitologia grega, Peter Pan e religiões afro – essa com bastante participação de Seu Jorge. Os gênios surgem de histórias da mitologia árabe e islâmica, mas o artista carioca ajudou na concepção do personagem para se assemelhar a um “anjo da guarda”. >
“O anjo é um cara que está lá para satisfazer desejos que você tem e para te orientar. Desde novo, a gente parece carecer de orientação exatamente por causa da rejeição”, conta.>
"Esse filme em particular, você não vê preto tomando caô, tomando soco na cara, tapa na cara, sendo enquadrado pela polícia ou consumindo drogas. Sobre rejeição, a gente que é preto e sobretudo preto retinto, a gente conhece isso pequeno. Sempre temos a ideia de esperar que essa criança vire uma revoltada, uma delinquente. E essa criança tem uma reação de tristeza, de confinamento interno e aí surge esse silêncio que incomoda", complementa o artista.>