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Maysa Polcri
Alan Pinheiro
Publicado em 6 de janeiro de 2026 às 17:02
Ao receber a missão de transmitir as palavras de Deus, os sacerdotes seriam - ao menos em teoria - os mensageiros, e não aqueles que trariam para si toda a atenção das celebrações católicas. Mas há exatos 20 anos, pouco se falou sobre a história dos três Reis Magos que visitaram o menino Jesus, em Belém. A apresentação chocante de José de Souza, o padre Pinto, fez tremer os dogmas da Igreja Católica e colocou de vez nos holofotes a figura religiosa mais polêmica que Salvador já conheceu. >
Quem visitou a Igreja da Lapinha, na capital baiana, na festa do Dia de Reis daquele 6 de janeiro de 2006, se dividiu entre o espanto e a admiração. O padre se vestiu de Nossa Senhora da Guia, sincretizada no candomblé por Oxum, com direito a sapatilhas, fitinhas do Senhor do Bonfim e maquiagem. A performance contou com passos e referências ao candomblé, o que chocou boa parte dos religiosos presentes no templo. >
Indignados, muitos deixaram a igreja horrorizados. A celebração, que começou com o templo lotado, terminou esvaziada, como relataram as reportagens da época. Não deu outra. No dia seguinte à celebração, a capa do CORREIO machetava: "Exibição de padre gera polêmica na Lapinha". >
Apresentação de padre Pinto no Dia de Reis teve repercussão nacional (Por Arquivo/CORREIO)
Artista plástico e ex-aluno de balé do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, padre Pinto via, na arte, uma forma de conexão com o sagrado. Morto em 2019, seus feitos seguem vivos nas memórias de baianos. "Há mais de 20 anos que eu tinha parado de dançar. Agora, o cardiologista liberou, e eu voltei como todo o gás", justificou em entrevista à TV Bahia, naquele fatídico dia. A performance do início do ano de 2006 repercutiu em todo o Brasil pelas semanas seguintes. Não por acaso, padre Pinto foi apelidado de "muso do verão brasileiro". >
Para o historiador Murilo Mello, a apresentação polêmica foi o ponto de virada para que o religioso se tornasse, de fato, um personagem de Salvador. "Ele conseguiu uma visibilidade nacional e passou a ser considerado um personagem da cidade inteira. Naquela época, a televisão tinha uma força ainda maior, e o padre virou uma celebridade", destaca. >
Padre Pinto até tentou dizer que tinha o aval da cúpula do catolicismo baiano para a apresentação polêmica. Verdade ou não, o padre logo foi desmentido pelo Cardeal Arcebispo de Salvador Dom Geraldo Majella. "Aquela mistura não está certa", cravou o líder religioso em entrevista à imprensa quatro dias após a performance. A repercussão foi tanta que o padre foi suspenso e recebeu a indicação, pela Igreja, para realizar tratamento terapêutico. >
Murilo Mello
HistoriadorEle foi transferido para a Paróquia de São Caetano da Divina Providência, onde atuou como vigário paroquial. Morou lá durante 13 anos, até falecer, em abril de 2019, aos 72 anos. Antes disso, em 2011, o CORREIO publicou a matéria "Por onde anda? Padre Pinto e a vida reservada em São Caetano". Longe dos holofotes, o religioso já não lembrava mais o protagonista de polêmicas católicas que foi um dia. >
A homenagem à Oxum no Dia de Reis pode ter sido a mais emblemática, mas não foi a única ação do padre Pinto que provocou alvoroço. No currículo de ações controvérsias, constam ainda um ritual indígena dentro da igreja, selinho em Caetano Veloso e ida à boate gay na capital baiana. Um caldo verdadeiramente soteropolitano, segundo o historiador Rafael Dantas. >
Rafael Dantas
HistoriadorAssim como os devotos se dividiam em opiniões sobre o padre, o próprio religioso parecia se dividir entre os dogmas católicos e uma alma livre. A liberdade, inclusive, é uma das marcas que ficaram na memória de quem conviveu com ele. Em depoimento ao CORREIO após a morte do padre, em 2019, a professora aposentada Celina dos Santos Silva falou sobre sua relação com o sacerdote. >
“Uma pessoa iluminada, de alma e espírito livres. Ele fez parte da história de toda a minha família. Só não fez me casar, mas, em compensação, celebrou minhas bodas de prata e ouro”, contou sobre o religioso que crismou, batizou e casou os quatro filhos da católica. Por coincidência ou não, o afastamento de padre Pinto da igreja da Lapinha foi acompanhado de um esquecimento da própria festa. >
Neste 6 de janeiro de 2026, o carinho pelo padre ainda se mantém nos corações dos fiéis. Aos 70 anos, Maria Falcão relembra emocionada do período em que acompanhava o religioso. "Ele era um ser de luz, um homem bondoso e que representava a igreja. As pessoas comentam, falam mal e eu não consigo ouvir essas coisas de um homem tão gentil. Ele pode ter se excedido, mas quem não erra? Ele apenas estava mostrando quem era. Ninguém lembra das pessoas que ele ajudava, das boas ações que fazia. Os padres daqui são bons, mas ele era maravilhoso", disse com a voz embargada pelo choro.>
Veja imagens de como foi a tarde de louvor na Festa de Reis da Lapinha
Elias Conceição era mais um dos que estavam presentes na Lapinha. O Ogã do Terreiro Olufanjá, relembra com encantamento da repercussão. "Foi um ato meio desbravador do Padre Pinto, mas que de certa forma já vinha acontecendo e que em outros lugares já acontecia. Por conta do destino, a coisa foi amplamente divulgada e a repercussão elevou até a visão de algumas pessoas com o desejo de vir e ver. Aquilo era para ser algo de demonstração de diversidade, de respeito, daquilo que é a Bahia de fato", conta.>
Ao contrário da Lavagem do Bonfim, que continua atraindo milhares de pessoas todos os anos, a Festa de Reis, na Lapinha, não seguiu com o mesmo prestígio. "A celebração foi uma das mais importantes e que mais movimentava pessoas em Salvador. Hoje, está mais fraca, mas já foi muito mais forte, entre os séculos XIX e XX", diz o historiador Rafael Dantas. >