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Bruno Wendel
Publicado em 10 de abril de 2026 às 05:00
Em cinco anos, vozes de quem luta pelos direitos de comunidades descendentes de escravizados foram silenciadas por disparos fatais no Brasil. Pelo menos 46 lideranças quilombolas foram assassinadas no período. Na Bahia, o segundo estado com mais registros, foram 10 mortes — entre elas a de Mãe Bernadete Pacífico, de 72 anos. Os acusados pelo crime enfrentam o júri popular nesta segunda-feira (13). >
Nesse cenário, o Maranhão lidera o ranking, com 22 assassinatos, segundo levantamento da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), referente ao período de 2019 a 2024. Ainda de acordo com o relatório, cerca de 9.800 quilombolas vivem sob risco de morte no país. >
Acusados por morte de Mãe Bernadete vão a júri nesta segunda
Em Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador, Mãe Bernadete liderava o Quilombo Pitanga dos Palmares. Ela foi morta na noite de 17 de agosto de 2023, quando homens armados invadiram a comunidade, mantiveram familiares como reféns e a executaram a tiros dentro de casa. O filho dela, Flávio Gabriel Pacífico dos Santos, conhecido como Binho do Quilombo, havia sido assassinado cerca de seis anos antes. >
Nesta segunda-feira, no Fórum Ruy Barbosa, no Campo da Pólvora, serão julgados dois dos cinco denunciados pelo Ministério Público da Bahia (MP-BA) por homicídio qualificado: Marílio dos Santos, conhecido como “Maquinista”, apontado como mandante, e Arielson da Conceição Santos, o “Buzuim”, acusado de participação na execução. >
Arielson está preso preventivamente, enquanto Marílio segue foragido. Pela legislação brasileira, o julgamento pode ocorrer mesmo sem a presença do réu, desde que ele tenha sido intimado e esteja representado por defesa constituída ou pela Defensoria Pública. >
“O principal executor é réu confesso e há provas robustas de que um dos mandantes, o ‘Maquinista’, forneceu as armas. Nossa tese é demonstrar aos jurados que o conjunto probatório é consistente”, afirmou o assistente de acusação Hédio Silva, advogado da família. >
Outros três denunciados deverão ser julgados em momento posterior: Josevan Dionísio dos Santos, o “BZ”, Sérgio Ferreira de Jesus e Ydney Carlos dos Santos de Jesus, conhecido como “Café”. >
Denúncia >
De acordo com a denúncia do Ministério Público, à qual o CORREIO teve acesso, a morte de Mãe Bernadete não foi um episódio isolado, mas estaria inserida em um contexto de conflito com interesses do Bonde do Maluco (BDM) com atuação na região. >
Reconhecida como liderança quilombola, ela se posicionava contra o tráfico de drogas na comunidade, o que, segundo a acusação, pode tê-la colocado em situação de risco. >
O documento descreve o crime como resultado de uma ação estruturada, com divisão de funções entre os envolvidos. Segundo a acusação, Marílio e Ydney são apontados como mandantes, responsáveis por autorizar ou determinar a execução. >
Já o morador da comunidade Sérgio Ferreira de Jesus é citado como instigador. Conforme a denúncia, ele teria se desentendido com a vítima e, posteriormente, repassado informações aos apontados mandantes, alertando que a atuação de Mãe Bernadete poderia interferir nas atividades ilícitas locais. >
A execução direta, ainda segundo o Ministério Público, teria sido realizada por outros denunciados, que teriam ido até o local e efetuado os disparos. A acusação sustenta que o grupo atuou de forma coordenada, com funções previamente definidas. >
Após o crime, os autores teriam subtraído pertences das testemunhas, incluindo aparelhos celulares. >