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Maysa Polcri
Publicado em 7 de maio de 2026 às 06:00
Única mulher candidata ao cargo de reitora da Universidade Federal da Bahia (Ufba) na eleição deste ano, a docente Salete Maria da Silva quer acabar com o assédio moral que afeta a vida de professoras e demais servidoras da instituição. Ela própria afirma ter sido vítima de perseguição, o que provocou a transferência para a Escola de Administração, onde atua. Concorrente ao cargo mais alto da Ufba, ela afirma que a gestão atual é vista com desconfiança e propõe mudanças para tornar o comando da instituição mais democrático e participativo. >
Uma das propostas da chapa liderada pela professora, Nossa Ufba, que tem como candidato a vice o docente Menandro Ramos, é transformar a Ouvidoria em um órgão autônomo, sem interferência direta da Reitoria. Salete Maria defende ainda que os problemas que atingem os estudantes sejam resolvidos com planejamento baseado em dados. Para isso, propõe total transparência em atos administrativos da gestão e a criação de um Núcleo de Informação, Orientação e Defesa dos Direitos Universitários.>
Quem é Salete Maria
Esta entrevista integra uma série especial sobre a sucessão na Universidade Federal da Bahia (2026–2030), marcada pelo inédito voto direto, sem lista tríplice, conforme a Lei nº 15.367/2026. Quatro chapas disputam — Mais Ufba (Penildon Filho e Bárbara Coelho), Somos Ufba (João Carlos Salles e Jamile Borges), Ufba Insurgente (Fernando Conceição e Célia Sacramento) e Nossa Ufba (Salete Maria e Menandro Ramos) — e as entrevistas são publicadas entre segunda (4) e quinta-feira (7), seguindo a ordem das chapas divulgadas pela Ufba. A votação acontecerá entre os dias 20 e 21 de maio, com resultado a ser divulgado no dia 22.>
Em 2022, a senhora se candidatou ao cargo de reitora, mas não obteve votos para ingressar na lista tríplice. O que a motiva a participar do processo eleitoral novamente?>
Quando me candidatei à reitoria da Ufba através do colégio eleitoral, não era uma consulta acadêmica que ouvia toda a comunidade. Em 2022, eu já apresentava várias críticas e sugestões em relação às desigualdades estruturais que não vem sendo tratadas ao longo das gestões anteriores. O que nos impulsiona a concorrer este ano, primeiramente, é o fato de ser uma eleição direta. Entendemos que agora há possibilidade de uma disputa mais justa em termos de isonomia entre as chapas, que é o que promete a lei. Também nos anima a possibilidade de questionar a qualidade da nossa democracia universitária e evitar que haja continuísmo. >
Um dos temas centrais trazidos pela chapa é o combate ao assédio dentro da universidade. A senhora, inclusive, é autora de uma pesquisa sobre o assédio moral na Ufba. Como esse problema afeta as servidoras? >
Na Ufba o assédio é praticado por homens e mulheres, inclusive por mulheres feministas, o que levanta questões para a gente pensar as relações de poder entre as próprias mulheres. Eu fui pessoalmente afetada por perseguição política e assédio moral. Vendo a inércia dos órgãos superiores, produzi uma pesquisa sobre o assédio moral na Ufba. Entrevistei inúmeras técnicas e docentes que passaram por situações semelhantes e todo mundo olha com desconfiança para a alta gestão. Não acredita que vale a pena pedir a apuração dos casos. Resolvemos trazer para a agenda pública temas que as administrações anteriores faziam questão de ocultar ou lançar para debaixo do tapete.>
Quais são as propostas da chapa para conter esse problema? >
Temos uma proposta que envolve transformar as ouvidorias, tanto a geral como a da destinada para mulheres, em órgãos autônomos e independentes de qualquer autoridade acadêmica. Ou seja, uma vez eleita a nossa chapa, vamos defender que a pessoa ouvidora seja selecionada por critérios meritocráticos, técnicos. O ouvidor ou ouvidora não deve ser alguém do grupo político-partidário da autoridade. Deve ter expertise no acolhimento de vítimas, capacidade profissional de escuta e de encaminhamento das denúncias, até desaguar no setor competente, que é a unidade de correição.>
Além dessa proposta, pretendemos fazer políticas de prevenção para alterar mentalidades e comportamentos. Para aquelas que já foram vítimas, vamos adotar medidas de reparação, que poderão ser material, funcional ou simbólica. Queremos evitar maiores prejuízos porque muitas vítimas ficam estagnadas e não conseguem crescer mais na carreira porque, quando são transferidas, recomeçam tudo do zero. >
A Ufba reconheceu este semestre como atípico, e os alunos denunciam problemas de falta de ofertas de vagas em diferentes cursos. Como resolver esse problema?>
Esse virou um problema estrutural que a Ufba não enfrenta de maneira aberta. Muitos de nós, que trabalham ou estudam, desconhecem o problema em termos de onde é que está o gargalo, justamente porque a universidade não trata essas questões de maneira transparente. Uma primeira medida para esse e outros problemas é promover a transparência e a publicidade de todos os atos administrativos, inclusive as reuniões do conselho. Queremos fazer com que as reuniões dos conselhos deliberativos, mas especialmente do Consuni [Conselho Universitário], sejam públicas, transmitidas pelos canais oficiais da Ufba. Para enfrentar o problema de falta de vagas é preciso fazer um diagnóstico com dados precisos. >
Candidatos ao cargo de reitor da Ufba
Outra grande questão que afeta a Ufba é a evasão dos estudantes. Quais propostas a chapa traz para resolver esse problema?>
A primeira coisa que pretendemos criar para a política estudantil é o Núcleo de Informação, Orientação e Defesa dos Direitos Universitários. As pessoas muitas vezes desconhecem seus direitos, e nós queremos empoderar juridicamente a estudantada, pessoas interessadas em conhecer as normas e se aprofundar nos seus direitos. Vamos fortalecer e ampliar as políticas de inclusão, baseado na diversidade sócio-racial e cultural que já são existentes. Também vamos criar políticas de apoio à parentalidade, ampliar a vaga de creche também no turno noturno, e instituir políticas alternativas como cuidadotecas. >
É possível dizer que a Ufba se torna mais democrática à medida em que realiza eleições pelo voto direto? >
O processo eleitoral que deveria ser o mais democrático está altamente antidemocrático. A comissão eleitoral é constituída por cabos eleitorais das chapas hegemônicas, as regras são restritivas e prejudicam as chapas que não estavam em campanha. Então, nós vamos problematizar essas desigualdades porque elas vão afetar o bom desempenho das candidaturas e, com isso, fragilizar uma democracia que continua sendo opaca. O formato continua privilegiando candidatos homens e brancos.>
A professora Salete Maria, docente da Escola de Administração, possui graduação em Direito (Urca), especialização em Gestão de Pessoas (Ufba), mestrado em Direito (UFC), doutorado em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismos (Ufba) e Pós-doutorado em Direito com enfoque de gênero (Unam). É advogada com atuação especial na defesa dos direitos das mulheres e da população LGBTQIA+ e possui formação especial em Direitos Humanos (Unicap).
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