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Inspeções identificam risco sanitário e perigo de contaminação na fábrica da BYD em Camaçari

Resposta do Ministério da Saúde indica que vistorias encontraram irregularidades na fábrica e que terceirizadas funcionavam sem alvará sanitário

  • Foto do(a) author(a) Maysa Polcri
  • Maysa Polcri

Publicado em 25 de maio de 2026 às 06:15

Trabalhadores denunciaram más condições de higiene e fornecimento de água em dezembro do ano passado
Trabalhadores denunciaram más condições de higiene e fornecimento de água em dezembro do ano passado Crédito: Reprodução

Banheiros químicos em condições precárias, alimentação transportada sem refrigeração, ausência de bebedouros suficientes e trabalhadores obrigados a percorrer longas distâncias a pé dentro do canteiro de obras. Essas foram algumas das irregularidades encontradas durante inspeções realizadas em áreas da fábrica da BYD, em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador.

As informações constam em resposta a uma manifestação registrada no sistema OuvidorSUS, do Ministério da Saúde, enviada ao Coletivo Ativista, que possui atuação na Bahia. No documento encaminhado na última sexta-feira (22), são citadas diversas irregularidades identificadas na fábrica após duas inspeções feitas pela Vigilância Sanitária municipal e pelo Centro de Referência em Saúde do Trabalhador de Camaçari (Cerest).

O documento conclui que a denúncia apresentada aos órgãos foi considerada procedente e que as condições expõem trabalhadores a riscos. Uma notificação foi emitida pela Vigilância para que ocorram adequações e que ocorra o licenciamento sanitário de todas as empresas terceirizadas que atuam na BYD. Procurada desde sexta-feira (22), a BYD não se manifestou sobre os resultados das inspeções até esta publicação. 

Vistorias identificam irregularidades em fábrica da BYD em Camaçari por Reprodução

Inspeções

Segundo o relatório, a primeira vistoria ocorreu em 16 de janeiro deste ano e teve como foco um ponto de apoio da empresa terceirizada Sepeng-7, responsável por obras de drenagem, pista de testes e construção da chamada Fábrica 18. Cerca de 90 trabalhadores atuam no local. 

Durante a fiscalização, técnicos encontraram refeições sendo transportadas no porta-malas e no banco traseiro de veículos de passeio, sem refrigeração. Os alimentos eram levados de um restaurante em Candeias e o procedimento pode provocar contaminação. 

"Foi possível visualizar diversos trabalhadores passando com embalagens de quentinhas, as quais o responsável da BYD, não soube informar a procedência. Situação esta que se caracteriza como procedência clandestina e acaba impossibilitando o controle de riscos de surtos alimentares", diz trecho do documento. 

Confusão é registrada em frente por Reprodução

A equipe ainda identificou problemas estruturais nos banheiros químicos utilizados pelos funcionários. Segundo a inspeção, os sanitários apresentavam “odor fétido” e “elevado grau de sujidade”, além de quantitativo considerado insuficiente para atender à demanda. A limpeza, conforme relatado por representantes da empresa, acontece três vezes por semana.

Outro ponto destacado no relatório foi a dificuldade de deslocamento dentro do canteiro de obras. Os veículos disponibilizados não comportam todos os trabalhadores e que muitos precisam caminhar longos trajetos, o que reduz o tempo real de descanso. A fiscalização ainda apontou falhas no fornecimento de água potável devido a ausência de bebedouros em quantidade suficiente. 

O CORREIO tentou entrar em contato com a empresa Sepeng-7, mas não teve sucesso em encontrar um telefone ou e-mail válido para informar sobre o conteúdo desta reportagem. Este texto será atualizado caso uma manifestação seja enviada. 

Uma segunda vistoria foi realizada em 5 de fevereiro deste ano. Desta vez, técnicos inspecionaram áreas operadas por diferentes empresas terceirizadas dentro da obra da BYD, incluindo a empresa Falcão, responsável por serviços de concretagem, além de pontos de apoio localizados na chamada Fábrica 4.

Foram constatadas novas irregularidades sanitárias. Entre elas, falhas no controle do aquecimento das refeições, armazenamento inadequado de alimentos em freezers com sacolas plásticas comuns, precariedade na higienização dos banheiros químicos e ausência de insumos básicos para limpeza das mãos.

Os fiscais também relataram sujeira em áreas de apoio e falta de controle de limpeza de bebedouros e sanitários. Em outro ponto da obra, foram identificadas ausência de vestiários e falta de sabão. A reportagem buscou a empresa Falcão, citada no relatório, através de e-mails divulgados em seus canais oficiais, mas não obteve resposta. 

Procurado, o Ministério da Saúde informou que eventuais esclarecimentos sobre o caso deveriam ser solicitados à Secretaria da Saúde da Bahia (Sesab), que também não se manifestou até esta publicação. O CORREIO buscou ainda a assessoria de imprensa da Prefeitura de Camaçari, que não respondeu. O espaço segue aberto. 

Histórico de denúncias

As irregularidades se somam ao histórico recente de denúncias envolvendo as obras da fábrica da BYD em Camaçari.  Em dezembro do ano passado, cerca de 2 mil trabalhadores terceirizados paralisaram as atividades em protesto por melhores condições de trabalho, como noticiou o CORREIO.  

Antes disso, em dezembro de 2024, 220 trabalhadores chineses foram resgatados em condições análogas à escravidão durante a construção da planta industrial da montadora.

Os operários viviam em alojamentos superlotados e sem condições mínimas de higiene e conforto. As investigações também apontaram retenção de passaportes, jornadas exaustivas, ausência de descanso semanal, vigilância armada e contratos com cláusulas consideradas ilegais.

BYD por THUANE MARIA/GOVBA

Os trabalhadores haviam entrado no Brasil com vistos para serviços especializados que, segundo os órgãos de fiscalização, não correspondiam às atividades efetivamente desempenhadas no canteiro de obras.

O Ministério Público do Trabalho (MPT) ingressou com ação civil pública contra a BYD e as empreiteiras China JinJiang Construction Brazil Ltda. e Tonghe Equipamentos Inteligentes do BrasiL. Um acordo de R$ 40 milhões com a BYD e as empreiteiras acabou sendo firmado através do MPT

Neste ano, a BYD também chegou a ser incluída na chamada “lista suja” do trabalho escravo, cadastro federal que reúne empregadores flagrados submetendo funcionários a condições análogas à escravidão. A inclusão, porém, foi suspensa temporariamente por decisão judicial até o julgamento definitivo do processo.