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Bruno Wendel
Publicado em 1 de junho de 2026 às 05:00
Mesmo após a captura na Bolívia, o traficante Kléber Nóbrega Pereira, o "Kekeu", ainda é visto pela Justiça baiana como uma ameaça capaz de influenciar as atividades do Comando Vermelho (CV) na Bahia. Por isso, o líder da facção teve a transferência determinada para o Conjunto Penal de Serrinha (CPSe), unidade de segurança máxima da Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização (Seap). Em decisão obtida pelo CORREIO, Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA) afirma haver "indícios robustos" de que o criminoso continua ocupando posição de comando dentro da organização criminosa, mesmo após anos fora do país. >
A decisão foi assinada no último dia 12 de maio pelo juiz Waldir Viana Ribeiro Junior, da Vara dos Feitos Relativos a Delitos de Organização Criminosa de Salvador, três dias após Kekeu ser capturado pela Interpol em Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, junto com a mulher. Foragido desde março de 2022, ele foi localizado em posse de patrimônio considerado vultoso pelas autoridades, incluindo um imóvel avaliado em R$ 6 milhões. Atualmente, aguarda transferência para a Bahia em uma unidade da Polícia Federal em Corumbá, no Mato Grosso do Sul.>
Comerciantes da Vasco da Gama pagam até R$ 400 por semana ao CV
Ao justificar a inclusão cautelar do traficante em regime de segurança máxima, o magistrado afirma que a permanência dele em uma unidade prisional comum poderia representar "risco potencial de instabilidades e fortalecimento da estrutura criminosa". Segundo o juiz, os elementos reunidos durante as investigações apontam Kekeu como "um dos expoentes do crime organizado na Bahia".>
Na mesma decisão, Waldir Viana destaca que há elementos que indicam, "com razoável grau de probabilidade", que o traficante continua exercendo função de liderança dentro do Comando Vermelho e fomentando atividades criminosas no estado. A conclusão reforça informações obtidas pelo CORREIO junto a comerciantes da Avenida Vasco da Gama, em Salvador, que relatam a continuidade de um esquema de extorsão atribuído à facção.>
Segundo os relatos, traficantes ligados ao CV cobram um "pedágio" semanal para permitir o funcionamento de estabelecimentos comerciais ao longo da avenida. O valor varia entre R$ 100 e R$ 400, a depender da quantidade de portas do imóvel.>
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"Chegam a mando de Kekeu", contou um comerciante ouvido pela reportagem em maio. As vítimas afirmam que, mesmo escondido na Bolívia, o traficante continuava sendo citado como responsável pelas cobranças realizadas por integrantes da facção. Muitos comerciantes dizem pagar por medo de represálias e evitam registrar denúncias formais.>
O esquema, segundo os relatos, ocorre há mais de dois anos e teria se intensificado após operações policiais realizadas na região. A cobrança atinge desde pequenos comerciantes até proprietários de estabelecimentos maiores localizados em uma das principais avenidas da capital baiana.>
Ao determinar a transferência para Serrinha, o juiz também ressaltou que líderes de organizações criminosas possuem capacidade de continuar coordenando atividades ilícitas mesmo quando estão presos. "Unidades de segurança média são vulneráveis frente aos meios que dispõem os líderes de organizações criminosas armadas e violentas, não dispondo de meios eficazes de isolamento para impedir a continuidade das operações ilícitas", escreveu.>
O pedido para inclusão de Kekeu em segurança máxima foi apresentado pela Polícia Civil, por meio da Polinter, e contou com parecer favorável do Ministério Público da Bahia (MP-BA), através do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco).>
Atenção redobrada>
Para o professor de Direito da Estácio Fib e especialista em segurança pública, coronel Antônio Jorge, a transferência para o Conjunto Penal de Serrinha tende a reduzir significativamente a capacidade de articulação do traficante. Segundo ele, a unidade dispõe de mecanismos mais rígidos de controle e isolamento.>
"É para onde juízes determinam a transferência de líderes do tráfico para que fiquem em total isolamento e sem comunicação externa. Se mesmo recolhido, as investigações apontarem que ele continua exercendo papel central no comando de atividades criminosas fora da unidade, sempre haverá a possibilidade de sua transferência, na forma da lei, para uma unidade de segurança máxima do Sistema Penitenciário Federal", afirma.>
Considerado o principal presídio de segurança máxima da Bahia, o CPSe concentra alguns dos criminosos de maior relevância para as forças de segurança do estado. Para Antônio Jorge, a chegada de Kekeu ao sistema prisional baiano pode exigir atenção redobrada das autoridades.>
"A presença de chefes rivais na mesma cidade, ou até mesmo no mesmo complexo penitenciário, eleva a tensão. Facções que dominam áreas do lado de fora podem intensificar ataques para demonstrar força ou tentar resgatar ou eliminar o rival", avalia.>
Apontado pelas forças de segurança como uma das principais lideranças do Comando Vermelho na Bahia, Kekeu tem atuação associada ao Engenho Velho da Federação e aparece em investigações relacionadas ao tráfico de drogas, expansão territorial da facção e articulação de crimes violentos em Salvador.>
O processo tramita sob segredo de Justiça.>