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Maysa Polcri
Publicado em 27 de janeiro de 2026 às 19:13
Um dia que nunca será apagado da memória. Assim a advogada Bruna Holtz Carvalho, de 37 anos, se lembra daquele 13 de junho de 2015. Ela passeava com seus dois cachorros no condomínio onde morava, em Teixeira de Freitas, no sul da Bahia, quando foi vítima de um ataque de um tenente da Polícia Militar. Wilson Pedro dos Santos Júnior atirou contra ela e matou um dos animais. Agora, 11 anos após o crime, ele será submetido ao júri popular. >
“É um trauma que a gente leva para o resto da vida. Não tem como dizer que ficou tudo bem depois daquilo”, afirmou Bruna em entrevista ao CORREIO. Bruna Holtz soube da recente decisão judicial por meio de colegas da área jurídica e relata sentimentos mistos ao reviver o episódio. “A gente sempre acha que a Justiça não vai acontecer, porque os anos passam, os recursos se acumulam e o processo demora”, disse.>
PM vai a júri popular 11 anos após atirar contra vizinha e cachorros na Bahia
A decisão que levou o caso ao Tribunal do Júri foi proferida na última sexta-feira (23). O juiz Gustavo Vargas Quinamo entendeu que há indícios suficientes de autoria e materialidade para que o tenente seja julgado por tentativa de homicídio qualificada por motivo fútil. Segundo a denúncia, o crime teria sido motivado por um desentendimento após os cachorros de Bruna urinarem no gramado da casa do policial.
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Bruna relembra que os disparos aconteceram a curta distância, em uma área residencial. “Ele foi atrás de mim, disparou vários tiros perto do meu corpo. Eu senti o calor das balas perto da nuca, perto da coluna. Aquilo não foi só contra um animal”, relatou. Para ela, o reconhecimento da tentativa de homicídio pela Justiça representa um avanço. “Foi exatamente o que ele quis fazer”, afirma. >
Um registro de uma das câmeras de segurança do condomínio mostra que o PM disparou diversas vezes contra Apollo, um buldogue francês de 4 anos, que morreu. Bruna conseguiu fugir e salvar o outro cão. Wilson Pedro não será julgado por maus-tratos a animal, uma vez que o crime já prescreveu, segundo o magistrado.>
Após o episódio, Bruna Holtz e o marido deixaram a Bahia. Ela passou a atuar na causa dos direitos dos animais e, atualmente, está no final da graduação em Medicina Veterinária. “Não foi um medo subjetivo. Foi um medo real. Houve ameaças a pessoas que denunciaram o que aconteceu. Eu não me sentia segura”, contou. Wilson Pedro teria feito ameaças contra pessoas próximas à vítima. Bruna e o agressor nunca mais se viram.>
A advogada também enfrentou dificuldades logo após o ataque. “Na delegacia, eu não me senti acolhida. Pelo contrário. Houve questionamentos e deboche. Só depois fui acolhida pelo Ministério Público”, disse. Agora, com a proximidade do júri, Bruna afirma que está disposta a prestar novo depoimento como vítima. “É um dia que nunca se apaga. Mas vou continuar contribuindo para que haja responsabilização”, afirmou.>
O tenente Wilson Pedro dos Santos Júnior responderá ao processo em liberdade e ainda pode recorrer da decisão. Ele não será julgado por maus-tratos a animal, pois o crime prescreveu. O CORREIO não conseguiu contato com a defesa do réu. O espaço segue aberto.>
A reportagem entrou em contato com o Tribunal de Justiça da Bahia (TJ) e questionou sobre a demora até que o caso fosse levado ao Tribunal do Júri. O Ministério Público da Bahia (MP-BA) denunciou o militar por tentativa de homicídio em maio de 2016.
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A Polícia Militar também foi procurada para informar se Wilson Pedro continua na corporação. Este texto será atualizado assim que houver posicionamento de ambos>