Vacina contra dengue esgota na rede privada em Salvador

Entenda como fica a situação para quem precisa tomar a segunda dose do imunizante

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  • Maysa Polcri

Publicado em 20 de fevereiro de 2024 às 15:54

Vacina contra dengue será incorporada ao SUS
Vacina contra dengue está em falta na rede privada Crédito: José Cruz/Agência Brasil

Mais de 8,6 mil casos prováveis de dengue já foram registrados na Bahia neste ano. O número de pessoas com a doença é 21% maior do que o registrado no mesmo período do ano passado. Três óbitos já foram confirmados no estado. Aliada no combate à doença e recém incorporada no Sistema Único de Saúde (SUS), a vacina contra a dengue (Qdenga) não é mais encontrada na rede privada de Salvador.

Ao menos cinco redes de laboratórios com franquias na capital baiana declararam que estão com falta de vacinas no estoque. A Amo Vacinas, localizada no Salvador Shopping, tem fila de espera com 50 pessoas e doses reservadas para as pessoas que já tomaram a primeira. O intervalo entre as duas aplicações é de três meses. O levantamento feito pela reportagem aponta que a vacina está em falta desde janeiro em alguns laboratórios.

Além da Amo Vacinas, os laboratórios LPC Laboratório e Vacinas, Sabin Diagnósticos e Saúde, Leme e Delfin Medicina Diagnóstica não têm estoque disponível. Em nenhum deles há previsão para a volta da vacinação contra a dengue. 

Em nota, o Leme informou que "diante da situação atual da dengue no país, tivemos uma alta procura no mês de fevereiro. Seguiremos as diretrizes e disponibilidade informadas pelo fabricante'. As demais assessorias de imprensa foram procuradas, mas não se posicionaram sobre a falta do imunizante.

No dia 5 deste mês, a Takeda, farmacêutica japonesa que fabrica a Qdenga, enviou um comunicado à imprensa em que justificou a limitação do fornecimento da vacina no mercado privado. “Essa decisão tem como objetivo apoiar o Ministério da Saúde no seu propósito de promover o acesso da vacina contra a dengue de forma integral e gratuita para a população brasileira”, disse.

A empresa informou ainda que o “quantitativo necessário para que as pessoas que tomaram a primeira dose do imunizante na rede privada completem seu esquema vacinal”. A Takeda foi questionada se há previsão para o reabastecimento dos estoques da rede privada, mas não respondeu. 

A Qdenga começou a ser disponibilizada em junho do ano passado nos laboratórios privados de Salvador a partir de R$399. Os valores disponibilizados nos laboratórios chegam a ser 116% mais caros do que o preço de fábrica, como revelou um levantamento do CORREIO. 

O acordo entre a farmacêutica e o Ministério da Saúde prevê a entrega de 6,6 milhões de doses para todos os estados do Brasil neste ano, o que garante a imunização de 3,3 milhões de brasileiros, já que duas doses são necessárias. Só a população da Bahia é formada por 14,1 milhões de habitantes.

Na rede privada, a vacina pode ser aplicada para pessoas de 4 a 60 anos. Através do Sistema Único de Saúde, a primeira fase da vacinação contra a dengue contempla apenas pré-adolescentes entre 10 e 11 anos, devido a quantidade escassa de doses disponíveis.

Desde o início da aplicação, na sexta-feira (16), 1.699 pessoas foram vacinadas em Salvador, de acordo com a Secretaria Municipal de Saúde (SMS). A Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab) não possui o número consolidado de vacinados porque depende do envio de informações dos municípios.

A Associação Brasileira de Clínicas de Vacinas (ABCVAC) manifestou preocupação diante da possível falta da vacina “especialmente em relação às faixas etárias não cobertas pelo setor público”, um dia após o comunicado da Takeda. Estados como Acre, Distrito Federal, Minas Gerais e Goiás também enfrentam escassez de vacinas na rede privada.

Apesar de duas doses serem necessárias para a imunização completa, a médica infectologista Clarissa Cerqueira explica que uma aplicação da Qdenga já traz benefícios. “A vacina tem eficácia com uma dose, mas a imunidade só é persistente a partir da segunda dose. Se muitas pessoas forem vacinadas neste momento, é possível que ajude a diminuir o surto da doença que estamos enfrentando, o problema é justamente a escassez”, analisa.