65% do lixo de Salvador vira energia e consegue abastecer Itabuna

salvador
16.08.2019, 19:01:13
Atualizado: 19.08.2019, 17:02:36
Aterro começou a produzir crédito de carbono a partir de 2005 (Foto: Divulgação/ Ascom PMS)

65% do lixo de Salvador vira energia e consegue abastecer Itabuna

Aterro recebe cerca de 3 toneladas de resíduos sólidos todos os meses

Em momentos como o que vivemos, o jornalismo sério ganha ainda mais relevância. Precisamos um do outro para atravessar essa tempestade. Se puder, apoie nosso trabalho e assine o Jornal Correio por apenas R$ 5,94/mês.

Imagine se fosse possível abastecer uma cidade com 200 mil habitantes com energia elétrica gerada do lixo. Agora, abra os olhos porque essa já é uma realidade em Salvador. Desde 2011, quando uma usina termelétrica passou a operar no aterro sanitário metropolitano o gás gerado pelo lixo está sendo transformado em energia elétrica suficiente para abastecer cidades como Lauro de Freitas e Itabuna, no interior da Bahia.

Segundo o gerente operacional da Termoverde, empresa responsável pela usina, Danilo Laert, o aterro recebe cerca de 3 toneladas de lixo todos os meses. A estimativa é de que e, até maio de 2020, a transformação do biogás em energia terá gerado R$ 2,6 milhões em royalties para o município.

“Do total de resíduos coletados, 91% é de Salvador. O restante é das cidades de Lauro de Freitas e Simões Filhos, na Região Metropolitana. Em 2011, a energia gerada era suficiente para abastecer 80 mil pessoas, mas essa capacidade foi aumentando nos últimos anos”, contou.

A transformação desse gás em energia reduz a poluição e gera o chamado Crédito de Carbono – um reconhecimento pela redução da quantidade desse elemento químico na atmosfera. Para cada tonelada de dióxido de carbono (CO2) é gerado um crédito de carbono, que pode ser comercializado no mercado internacional.

Atualmente, Salvador produz 50 mil créditos por mês. O prefeito ACM Neto contou que o tratamento do lixo é uma forma eficiente de enfrentar o problema da crise climática que toma conta dos grandes centros urbanos.

“Salvador não foi escolhida à toa pela ONU para sediar a Semana do Clima. Isso aconteceu por causa de iniciativas como essa e várias outras, a exemplo da proteção de 27 milhões de metros quadrados de áreas verdes, garantidas no novo IPTU, e implantação de novas unidades de conservação e criação ou reforma de parques”, disse.

O gestor contou que, desde 2013, a cidade ganhou 50 mil novas árvores. Ele afirmou que a questão ambiental está no Planejamento Estratégico do município e que foi criada uma Estratégia de Resiliência, em rede global, para reduzir a emissão de poluentes. ACM Neto destacou os benefícios dessas ações para a população.

“Os soteropolitanos ganham uma cidade mais sustentável, melhor de se viver, e planejada para ter um meio ambiente mais agradável para as próximas gerações. Não governamos apenas para o presente, mas também para o futuro. Queremos deixar uma cidade ainda melhor para as próximas gerações, e isso envolve cuidar não só da área social e urbanística, mas também da natureza”, afirmou.

De acordo com a prefeitura, cerca de 65% dos resíduos produzidos pela cidade que chegam às unidades de coleta e limpeza são direcionados para estação de transbordo, em Canabrava. Depois, seguem para o aterro sanitário e são transformados em energia.

Para o secretário de Sustentabilidade, Inovação e Resiliência (Secis), André Fraga, o tratamento dado ao lixo reafirma o compromisso e a preocupação da cidade com o impacto ambiental. “Salvador dá exemplo de como a gestão de resíduos pode contribuir para mitigação dos gases do efeito estufa. Ou seja, a cidade entrega a sua contribuição para a resolução de uma crise climática”, reforçou.

Sistema de tubulações conduzem os gases do aterro para a usina (Foto: Divulgação/ PMS)

Crédito de carbono
Segundo a prefeitura, Salvador foi a primeira cidade do mundo a conseguir o registro pela Organização das Nações Unidas (ONU) para a emissão de crédito de carbono com engenharia em aterros sanitários, o que será um dos destaques da Semana do Clima da América Latina e Caribenha sobre Mudança do Clima, que começa nesta segunda-feira (19) no Salvador Hall, na Avenida Luiz Viana Filho (Paralela). Veja programação abaixo.

Desde 2005, o município possui o Certificado por Emissão Reduzida (CERs) de Carbono. Durante a semana do clima, a prefeitura vai receber da Bahia Transferência e Tratamento de Resíduos (Battre), que é uma das unidades de valorização sustentável do Grupo Solví, contratado pela Prefeitura para administrar o aterro, um certificado dos royalties sobre a comercialização do credito de carbono.

Junto com a geração do CERs também é realizado o processo de geração de energia limpa, em parceria com a Termoverde Salvador, reforçando o compromisso com o tratamento sustentável dos resíduos sólidos.

Logística
Depois de coletar o lixo, os caminhões seguem para o Parque Socioambiental de Canabrava, onde o material é prensado. De lá, 12 carretas transportam o lixo até o Aterro Metropolitano, no CIA-Aeroporto. Cada uma delas tem capacidade para armazenar até 29 toneladas de resíduos.

Às segundas e terças-feiras são os dias que as carretas fazem mais viagens por conta da produção maior de lixo acumulado por moradores no fim de semana. O final do ano e o carnaval são os períodos sazonais com maior movimento, por conta do material gerado com as festividades.

Quando chega ao aterro, o lixo é depositado em células de armazenamento. Existem seis em funcionamento e a sétima está em construção. Juntas, elas têm capacidade para acondicionar até 23 m³ de lixo, mas o máximo atingido até o momento foi de 22,5 m³. Cada uma leva, em média, seis meses para ficar completamente cheia.

As estruturas são revestidas com lonas e uma substância rígida para evitar que o material contamine o solo. O chorume é conduzido através de um sistema de tubulações até o Polo Petroquímico, em Camaçari, onde o líquido é tratado e usado na indústria.

Biogás
Já os gases produzidos pelo lixo são retirados por tubulações conectadas a um sistema de drenagem responsável por levar o biogás até a Termoverde. Antes de ser transformado em energia, eles perdem umidade e são retiradas partículas ainda em suspensão.

O biogás utilizado para a produção de energia é uma mistura de metano e gás carbônico, dois vilões do efeito estufa, produzidos durante a decomposição do lixo orgânico no interior do aterro. Desde 2005, o local já mitigou 8 milhões de toneladas CO2 equivalentes.  O gerente operacional da Termoverde contou que no interior da usina os gases passam por outros processos.

“A usina seca e purifica esses gases. Eles são transformados, primeiro, em força mecânica e, depois, em energia elétrica que será comercializada com empresas do mercado livre, como Coelba, Carrefour e Telemar, por exemplo”, afirmou Danilo Laert.

Segundo um levantamento feito pelo Ministério do Meio Ambiente, em 2015, o mais recente do órgão, apenas 40% dos municípios brasileiros tinham aterro sanitário. Os outros 60% tinham lixões ou aterros controlados, situações em que o lixo é descartado a céu aberto ou parcialmente aterrado.

No total, 42% declararam possuir planos de gestão integrada de resíduos sólidos, o que equivale a 2.325 cidades. Outras 3.245 não tinham planos dessa natureza. Nesses locais moravam 97 milhões de brasileiros, ou seja, 48% da população.


Confira a programação da semana do clima

Segunda-feira (19/08)

8h30 às 8h55 - Cadastramento e exibição de abertura

9h00 às 12h25 - Eventos para convidados:

Diálogo sobre contribuições nacionais determinadas (NDC)

CTCN fórum regional em LAC

Capacidade: construindo conhecimento para o dia da ação

9h00 às 12h25 - Eventos abertos:

Artigo 6: diálogo do setor empresarial

#Twitt4 climate: uso das redes sociais para impulsionar a adaptação climática

Painel Salvador de Mudança do Clima

12h30 às 14h25 - Intervalo para almoço, eventos paralelos, exibição, esquina do conhecimento e hub de ação.

14h30 às 18h00 - Eventos para convidados

Diálogo NDC

CTCN fórum regional em LAC

Conhecimento para o dia da ação

14h30 às 18h00 - Eventos abertos:

Artigo 6: diálogo do setor empresarial

Workshop em alvos criados com base na ciência: porque e como engajar

Painel Salvador de Mudança do Clima


Terça-feira (20/08)

8h30 à 8h55 - Cadastramento e exibição de abertura

9h00 às 12h25 - Eventos para convidados:

Diálogo NDC

CTCN fórum regional em LAC

Encontro de parceria com Marrakech

Workshop em transparência: oportunidades do sul para o sul

9h00 às 12h25 - Workshop em mobilidade urbana em NDC da próxima geração (aprovação da inscrição necessária)

9h00 às 12h25 - Eventos abertos:

Cotação do carbono, mercados e desenvolvimento sustentável em LAC

Como empresas e governos podem avançar em políticas de carbono zero

Painel Salvador de Mudança do Clima

12h30 às 14h25 - Intervalo para almoço, eventos paralelos, exibição, esquina do conhecimento e hub de ação.

14h30 às 17h25 - Eventos para convidados

Diálogo NDC

CTCN fórum regional em LAC

Workshop em compartilhamento de conhecimento para estratégias a longo prazo

14h30 às 17h25 - Workshop em mobilidade urbana em NDC da próxima geração (inscrição necessária)

14h30 às 17h25 - Eventos abertos:

Cotação do carbono, mercados e desenvolvimento sustentável em LAC

Transição economia de baixo uso de carbono

Painel Salvador de Mudança do Clima


Quarta-feira (21/08)

8h30 à 8h55 - Cadastramento e exibição de abertura

9h00 à 9h55 - Plenária de abertura

10h00 às 12h25 - Mesas

Transição da indústria

Infraestrutura cidades e ação local (áreas urbanas e moradia informal)

10h30 às 12h00 - Relatório de crédito de carbono

10h00 às 12h25 - Apresentação voltada para estudos e os jovens

12h30 às 13h25 - Intervalo para almoço, eventos paralelos, exibição, esquina do conhecimento e hub de ação.

13h30 às 15h55- Mesas

Soluções naturais (agricultura e manejamento de terra)

Infraestrutura, cidades e ações globais (transporte)

13h30 às 15h55 - Apresentação voltada para estudos e os jovens

16h00 às 18h30- Mesas

Transição de energia

Soluções naturais (ecossistemas do oceanos e recursos hídricos)

16h00 às 18h30 - Apresentação voltada para estudos e os jovens


Quinta-feira (22/08)

8h30 à 8h55 - Cadastramento e exibição de abertura

9h00 às 9h55 - Plenária 2 (segmento ministerial: para a COP25 e esforços para alcançar as metas do acordo de Paris)

10h00 às 11h10 - Plenária 3 (governo brasileiro)

11h15 às 12h25 - Plenária 4 (implementação da ação climática: aumentando a ambição)

12h30 às 14h25 - Intervalo para almoço, eventos paralelos, exibição, esquina do conhecimento e hub de ação.

14h30 às 15h40 - Plenária 5 (estratégias a longo prazo e descarbonização)

15h45 às 16h55 - Plenária 6 (mercados e crédito de carbono)

17h00 às 18h10 - Plenária 7 (financiamento NDC e títulos verdes)


Sexta-feira (23/08)

8h30 à 8h55 - Cadastramento e exibição de abertura

9h00 às 10h25 - WS1: transformando o NDC em planos de investimento

9h00 às 12h30 - Apresentação voltada para a sociedade civil

9h30 às 12h25 - WS3: TEM A (adaptação financeira)

10h00 às 12h00 - Painel dos prefeitos

10h30 às 12h25 - WS2: transparência

10h30 às 12h25 - WS4: TEM M (energia e cadeia agricultura)

12h30 às 12h55 - Plenária 8 (sumário, conclusões e recomendações para o encontro da UN SG)

13h00 às 13h55 - Plenária 9 (cerimônia de encerramento)


Serviço

Data: de 19 de agosto a 23 de agosto

Local: Salvador Hall (Av. Luís Viana - Patamares)

Valor: gratuito

Inscrições: site da semana do clima

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas